“2001”
é um filme para se ver com os ouvidos
A afirmação é temerária, mas vá lá: a trilha
sonora de 2001-Uma Odisséia no Espaço
é a mais apropriada da história
do cinema. Poucas vezes imagem e música foram tão integralmente complementares
quanto no filme de Stanley Kubrick. Impossível não escutar O
Danúbio Azul quando se recorda do balé de naves espaciais no éter, ou não
se deixar envolver pelo tenebroso Réquiem
de Ligeti à lembrança do enigmático monólito negro.
2001
começa com um excerto de Atmosphères,
peça composta pelo húngaro György Ligeti (n. 1923), executada com a tela
totalmente escura, transformando os espectadores em audiência de um concerto.
Ligeti resume seu trabalho como sendo “um tipo de música em que não há
‘eventos’, mas somente ‘estados’, sem contornos ou formas, um espaço
musical inabitado, imaginário”. Assim são as três peças de Ligeti na
trilha, Atmosphères, Lux Aeterna (obra
de 1966 criada para 16 vozes a capela) e Réquiem
para Soprano, Mezzo-Soprano. Dois Coros Mixados e Orquestra (1965): uma
estranha música feita de superfícies estáticas que se modificam
imperceptivelmente, fluindo de modo contínuo, como se não tivesse começo nem
fim - algo muito parecido com a visão metafísica do universo de 2001. Os dois
saltos evolutivos apresentados no filme - de homem-macaco para homem do espaço
e a transmutação do astronauta Dave Bowman em feto sideral - são pontuados
pelo trecho do alvorecer do poema sinfônico Assim
Falou Zaratustra, composto por Richard Strauss (1864-1949). A valsa O
Danúbio Azul, de Johann Strauss (1825
- 1899), representa o momento mais “leve” de 2001, quando o diretor
convida a platéia a deleitar-se com a graça dos movimentos orbitais de
engenhos espaciais. Já o soturno Adagio da
suíte de balé Gayane, escrita pelo
soviético Aram Khachaturian (1903 - 1978), acompanha as cenas do interior da
Discovery num complemento perfeito das imagens assépticas.
Curiosamente, Stanley Kubrick encomendou a Alex North uma trilha original. O compositor escreveu a partitura, mas o cineasta preferiu utilizar material sonoro já criado. (Roger Lerina)
Do livro “2001: uma odisséia no espaço” de
Amir LABAKI. São Paulo, Publifolha, 2000:
UMA
HISTÓRIA, DUAS LEITURAS
Clarke e Kubrick não demoraram em assinalar, eles
próprios, as diferenças marcantes entre as duas versões de 2001, em filme e em romance. “É um tipo totalmente diferente de
experiência”, reconheceu o cineasta. “O romance, por exemplo, tenta
explicar as coisas muito mais explicitamente do que o filme, o que é inevitável
num meio verbal. [...] Acho as divergências entre as duas obras
interessantes.”
Kubrick
assumiu que “um monte de coisas foi adicionado durante a filmagem”.
Comentando especificamente o tratamento distinto reservado ao monolito,
concordou que o livro segue muito mais fielmente o enredo do tratamento
original. “Decidi que representar o monolito de uma maneira tão explícita
provocaria o risco de faze-lo parecer uma televisão educativa avançada. Você
pode fazê-lo impunemente no papel, mas senti que poderíamos criar um efeito
muito mais poderoso e mágico representando-o como no filme.
Por
sua vez, Clarke destacou o tratamento diferente dado à rebelião de HAL.”O
romance explica por que HAL agiu como agiu e o filme, claro, nunca deu qualquer
explicação para o comportamento dele [...]. É perfeitamente compreensível, e
isso torna HAL um personagem muito simpático, pois ele foi enganado pelo
controle da missão. Se você analisa a filosofia por trás do romance, de certa
forma é mais pró-máquina do que pró-homem.’’
Em
suas declarações, Clarke sempre defendeu uma leitura mais definida de 2001,
mesmo na versão cinematográfica. “Esse filme é sobre as duas mais
importantes realidades do futuro: o desenvolvimento de máquinas inteligentes e
o contato com inteligências alienígenas superiores - que, claro, poderão ser
elas mesmas máquinas. Os comentários de Kubrick sempre foram mais econômicos
e elípticos, aqui esclarecendo dúvidas de enredo, sobretudo na conclusão,
acolá frisando a aplicação em 2001 de
“uma intrigante definição científica de Deus”.
O cineasta seguidas vezes definiu 2001
como “uma experiência não-verbal [...] que fosse além de categorizações
verbalizadas e penetrasse diretamente o subconsciente com um conteúdo emocional
e filosófico”.
Ao contrário de Clarke,
Kubrick revela uma sensibilidade romântica frente à saga espacial. No livro 2001,
a inteligência extra-humana (a artificial da máquina, a superior do alien)
sempre se impõe à humana. A Ciência vence a Natureza. Os símios
tornam-se homens apenas depois da explicação por meio do monolito tornado
cinema (ou TV). HAL, o computador perfeito, a razão pura, falha devido a um equívoco
humano em sua programação. Ao fim, mais uma vez é o monolito que conduz o
homem a um novo salto evolutivo.
O filme 2001
torna tudo mais complexo.A inteligência extra-humana continua a assumir
diversas formas, anteriores e posteriores à humana. Contudo, a Natureza ainda
se impõe à Ciência. O monolito acelera mas não determina a evolução do
macaco ao homem. HAL rebela-se por impulso próprio, como o monstro do dr.
Frankenstein, que dessa vez sabe recuperar o domínio sobre sua criação. Na
conclusão, eis o monolito de volta, artefato alienígena, por certo, mas também
símbolo de outra radical evolução humana - positiva ou negativa, é uma questão
em aberto.
TRÊS
CHAVES
À primeira vista, parece hoje curioso que 2001
tenha conseguido manter, por tanto tempo, tamanha aura mítica. Excetuadas
as aparições dos monolitos e a última seqüência a partir do Portal Estelar,
o filme não exige maiores esforços interpretativos. Sua narrativa e
essencialmente linear, apresentando uma única grande elipse temporal, dos
macacos à viagem de Lloyd no Orion. Não existem insercões narrativas com saltos para trás ou
para a frente, nem sequer tramas paralelas. O eixo dramático é único, claro,
constante.
As três chaves de
leitura mais comuns, e complementares, remetem à Odisséia de Homero (c. 800 a.C.), à teoria mitológica de Joseph
Campbell (1904-87) e à filosofia da evolução de Friedrich Nietzsche
(1844-1900).
Homero
O próprio título assume e destaca o paralelo com
o poema épico grego. Ainda durante as filmagens, Kubrick adiantava a comparação
em depoimento a Jeremy Bernstein, da revista New Yorker: “Nos ocorreu que para os gregos as vastas extensões
do mar devem ter sido tão misteriosas e remotas quanto o espaço para nossa
geração, e que as longínquas ilhas visitadas pelos maravilhosos personagens
de Homero não eram menos remotas para eles do que são para nós os planetas
onde nossos astronautas irão logo pousar.”
Iniciada a saga de Bowman/Ulisses,
ei-lo enfrentando um ciclope cibernético sob a forma de HAL (seu olho eletrônico
vermelho é das imagens que mais se fixam na memória) e atirando-se ao espaço
para seguir o chamado de sereias extraterrestres. Como seu predecessor grego,
Bowman fecha o círculo voltando para casa, ainda que sua transformação acabe
sendo mais radical do que a sofrida por Ulisses.
Joseph
Campbell
2001
reencena a Odisséia a partir de
uma releitura inspirada pelo antropólogo Joseph Campbell. Em seus diários,
Clarke lembra que Kubrick pediu-lhe para ler O Herói das Mil Faces. Não é difícil pensar na saga de
Bowman ao depararmos com o parágrafo abaixo de Campbell: “Não precisamos
correr sozinhos os riscos da aventura, pois os heróis de todos os tempos a
enfrentaram antes de nós. O labirinto é conhecido em toda a sua extensão.
Temos apenas de seguir a trilha do herói e lá, onde temíamos encontrar algo
abominável, encontraremos um deus. E lá, onde esperávamos matar alguém,
mataremos a nós mesmos. Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao
centro da nossa própria existência. E lá, onde pensávamos estar sós,
estaremos na companhia do mundo todo”. Discutindo o episódio final, o próprio
Kubrick destaca que Bowman “volta à Terra, como fazem os heróis em todas as
mitologias”, respeitando a estrutura tradicionalmente circular.
Nietzsche
Mas, assim como 2001 não se esgota na saga espacial, as possibilidades de
interpretação vão além de Homero e Campbell. Trabalhando com o arco formado
entre a aurora do homem e o “depois do infinito”, é a evolução humana o
tema essencial de Kubrick e Clarke. Logo a primeira cena do filme entrega a
chave que faltava. Sol e Terra dançam no espaço ao ritmo da introdução ao Assim
Falou Zaratustra de Strauss. A tradução musical de um dos textos
fundamentais da filosofia de Nietzsche anuncia, assim, essa quase versão fílmica.
Estruturado
em aforismos e parábolas, Assim Falou
Zaratustra: Um Livro Para Todos e Para Ninguém (1883— 5) apresenta inúmeras
passagens com possíveis correspondências em 2001.
E o grande meio-dia será quando o homem se achar na metade de sua
trajetória entre o animal e o super-homem e festejar seu caminho para a noite
como a sua mais alta esperança” poderia passar por sinopse ou
servir de epígrafe do filme de Kubrick e Clarke. Da água disputada à morte
que aperfeiçoa, dispersas pelo texto de Nietzsche acumulam-se passagens com
possível paralelo no filme. Marco maior da dívida, a evolução do homem no
filme (e no livro) acompanha a teoria da evolução de Nietzsche. Tanto 2001
como Zaratustra dividem a história da humanidade em três grandes fases:
a do homem-macaco, a do homem propriamente dito e a do super-homem (ou além-do-homem,
como prefere Rubens Rodrigues Torres Filho, para traduzir o Ubermensch
nietzscheano). Em várias entrevistas, o próprio Kubrick toma emprestada a
terminologia de Nietzsche (sem citá-lo), batizando como “super-homem” a
“criança-estrela” da conclusão do filme.
Se Campbell nos ajuda a
entender a dimensão mitológica do épico espacial de Kubrick, o trecho abaixo
de Nietzsche sintetiza o essencial dessa dramatização no filme da epopéia
humana:
“Que é o macaco para o homem? Um motivo de riso
ou de dolorosa vergonha. E justamente isso é o que o homem deve ser para o
super-homem: um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.[...] O homem é uma
corda estendida entre o animal e o super-homem - uma corda sobre o abismo. E o
perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás,
o perigo de tremer e parar. O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não
meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.”
A influência
nietzscheana se faz sentir em dois outros pontos de 2001. Os seres extraterrestres que visitam nosso sistema solar,
deixando o monolito como um misto de símbolo e radar, superaram a
materialidade, vivendo como energia ou espírito puro. O ET de Kuhrick e Clarke
dá assim forma dramática à intenção nietzscheana de, nas palavras de
Giacoia, “implodir o dualismo
metafísico que separa corpo e alma, matéria e espírito”.
O filme partilha ainda
com Zaratustra a crítica ao homem
massificado e despersonalizado, aquele que sintomaticamente Nietzsche denomina
de “o último homem” e que Kubrick/Clarke lança solitariamente no espaço
depois do embate com HAL. Há algo de frio e mecânico que torna intercambiáveis
todos os personagens de 2001. A ausência
de grandes estrelas no elenco confere uma rara dimensão de neutralidade na relação
entre o espectador e os intérpretes do filme. Não foi à toa que um computador
se tornou o personagem mais marcante de todo o filme. Seria fácil ocupar o
restante deste livro apenas explorando essa vereda interpretativa.
A
celebração de Nietzsche por meio de Strauss parece reafirmar-se quando o filme
termina com a “criança-estrela” embalada pelos mesmos acordes ascendentes
de Zaratustra. Mas não é assim tão
simples. Nesse mesmo plano, Kubrick põe em xeque a interpretação
ortodoxamente nietzscheana de 2001. Há
algo vago, inconcluso, incerto, naquele embrião no espaço. “O brevíssimo
olhar final do feto para nós não dá tempo de definir-se”, descreveu o crítico
italiano Enrico Ghezzi. para concluir de forma certeira: “resta puro
enigma”. Esse plano final mantém intacto, há mais de 30 anos, muito do mistério
de 2001.
A ambigüidade essencial
ao filme transcende essa dimensão meramente narrativa. 2001 devolve ao cinema um apelo sensorial mais próprio da produção
da era muda. Menos de um terço do filme apresenta diálogos. O resto não é
silêncio. Kubrick faz suas imagens interagirem com uma riquíssima trilha de ruídos
e uma precisa escolha do repertório clássico. Cada seqüência maravilha por
si, para além do sentido imediato que acrescenta à progressão do enredo.
“Para
complicar [Marshall] McLuhan”, disse o cineasta, “a mensagem é o meio. Quis
que o filme fosse uma experiência intensamente subjetiva que alcançasse o
espectador em níveis muito íntimos de consciência, como a música faz.”
Com 2001, Kubrick recupera o
chamado “cinema de atrações”, típico da aurora do filme” - mais
precisamente, do pioneiro Georges Méliès, não por coincidência o primeiro
mago do cinema de ficção científica.