Folha de São Paulo de 26/01/2003

Sergio Widder, do Centro Simon Wiesenthal, se diz chocado e defende que anti-semitismo não pode se somar a protestos justos de Porto Alegre

Fórum é anti-semita, diz militante judeu

 

LÉO GERCHMANN - DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
 

Representante do Centro Simon Wiesenthal na América Latina, o argentino Sergio Widder, 34, participa do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, com um propósito bem definido: não deixar que o anti-semitismo tome conta da esquerda do mundo.

Dizendo-se "espantado" com demonstrações anti-israelenses, Widder lamenta a "visão maniqueísta" da esquerda a respeito do conflito no Oriente Médio, entre judeus e palestinos.

"Fica difícil haver diálogo quando a gente chega a Porto Alegre e vê camisetas misturando uma estrela de David com uma suástica."

Para Widder, nem a ofensiva armada do governo israelense de Ariel Sharon nem a ação militar dos EUA justificam a onda anti-semita na esquerda. "Não se pode vincular um governo a um povo ou nação. A onda de anti-semitismo é injustificável. Estão jogando a culpa nas vítimas", diz.

O CSW foi fundado em 1977, em Los Angeles (Estados Unidos) -onde fica sua sede central, com o Museu da Tolerância. Seu propósito original era caçar nazistas. Hoje, luta pela tolerância e a luta contra o anti-semitismo. A seguir, trechos da entrevista:

 

Agência Folha - Como o sr. vê o tratamento da esquerda para o conflito israelo-palestino?

Sergio Widder - Há muito maniqueísmo, em um assunto tão complexo. Se os palestinos têm problemas históricos, os judeus também os têm. Somos um povo que somente com a criação do Estado de Israel, no local onde estão nossas origens, passou a ter uma representação. Errávamos pelo mundo, enfrentando perseguições. Há uma causa judaica.
Esse maniqueísmo nos trouxe a Porto Alegre. Não podemos deixar que o anti-semitismo tome conta de protestos tão justos, como os que são feitos aqui.

Agência Folha - Qual sua impressão em relação ao Fórum Social?

Widder - Fiquei chocado com manifestações anti-semitas, desvirtuam tudo. Fica difícil o diálogo quando a gente chega a Porto Alegre e vê camisetas misturando uma estrela de David com uma suástica. O Fórum Social Mundial não deve ser o fórum do anti-semitismo mundial.

Agência Folha - Como o sr. vê o vínculo entre sionismo e racismo?

Widder - Há diversas vertentes do sionismo. Sionismo é movimento de libertação nacional do povo judeu. Subliminarmente, o que é pregado é a exclusão dos judeus pela destruição de Israel. Há um roubo semântico incrível, definindo o sionismo como uma reação racista.

Agência Folha - Essa visão não estaria vinculada aos laços de Israel com os EUA desde sua criação, após a 2ª Guerra Mundial?

Widder - Pessoas são contra os Estados Unidos e o neoliberalismo e aliam isso a Israel, demonizando a todos, inclusive a israelenses e judeus. Veja: demonizam os judeus. É uma ironia ocorrer tal raciocínio na esquerda. Tentam desjudaizar o holocausto. É uma infiltração do anti-semitismo nos ideais mais justos.

Agência Folha - Estaria havendo um crescimento do anti-semitismo em razão da ação militarizada do governo direitista de Ariel Sharon em Israel?

Widder - Não se pode vincular um governo a um povo ou nação. A onda de anti-semitismo é injustificável. Estão jogando a culpa nas vítimas, isso novamente ocorre. Culpar os judeus pelo anti-semitismo é ardiloso. A violência deve ser banida. Deve-se terminar o terror. Sem isso, não é possível dialogar. Aqui em Porto Alegre, com o clima que existe, como pode haver um diálogo?

Agência Folha - Defensores da atuação palestina e até de homens-bomba a justificam dizendo que se trata de demonstrações de desespero. O que o sr. acha disso?

Widder - Os palestinos vivem dificuldades, é claro, e isso deve ser modificado. Mas nem todos os povos que enfrentam dificuldades recorrem ao terrorismo. É um argumento inaceitável.

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