Correio da Cidadania

Fome Zero

  Frei Betto

 

O Programa Fome Zero não pretende saciar apenas a fome de pão de 46 milhões de brasileiros. Quer saciar também a de beleza. Isso significa que o governo do presidente Lula insiste em ultrapassar o mero assistencialismo. Trata-se de um programa de inclusão social. Nele se articulam ações emergenciais e medidas estruturais.
 

Como ação emergencial, o Fome Zero prioriza quatro áreas: municípios do semi-árido nordestino, acampamentos e assentamentos rurais, antigos quilombos e aldeias indígenas. Como medidas estruturais, já estão em pauta as reformas previdenciária e tributária. Logo serão dados os primeiros passos para efetivar as reformas agrária, trabalhista e política.
 

As famílias beneficiárias do Fome Zero receberão cinqüenta reais por mês, através do cartão-alimentação, quando houver agência da Caixa Econômica Federal na área; ou do cupom, quando não houver. O objetivo do governo Lula é ativar a economia local. Se, por exemplo, um atacadista de Santa Catarina doar toneladas de alimentos, não haverá despesa de transporte até o semi-árido nem distribuição deste donativo. Ele será recolhido aos armazéns da Conab, que pertencem ao governo federal, e leiloado via Internet. O dinheiro arrecadado com o leilão irá para o semi-árido, repartido na forma de cinqüenta reais a cada família beneficiária.
 

Não há lista de alimentos a serem comprados; existe apenas proibição de adquirir fumo, refrigerantes e bebida alcoólica. E se alguém infringir esta proibição? A própria comunidade cuidará de fiscalizar e conter abusos e desvios..
 

Muitas mentiras têm sido ditas a respeito do Fome Zero. A mais recorrente é a de que se exigirá nota fiscal das famílias cadastradas. Ora, seria uma incoerência o governo federal incentivar a sonegação fiscal. Se um comerciante tem como emitir nota fiscal, deve-se exigi-la. Se na falta desta tem condições de emitir um comprovante no valor da venda, que o faça, pois é educativo os beneficiados prestarem conta. Mas se não há como comprovar os gastos, o Fome Zero parte do princípio de que a palavra do cidadão merece confiança. Ninguém deixará de receber o cartão-alimentação por não ter como prestar contas de seu consumo.
 

Cada família terá acompanhamento pedagógico via SAL - Serviço de Segurança Alimentar. Os agentes do SAL cuidarão de verificar o progresso da família quanto à dieta alimentar, higiene bucal, escolaridade, qualificação profissional, bem como sua participação em projetos cooperativos, hortas comunitárias etc.
 

Saciar a fome de beleza é propiciar ao subnutrido encher não só o estômago, mas também a consciência e o espírito. Emergir da percepção da vida como fenômeno biológico para a percepção da vida como processo biográfico. Formar cidadãos, homens e mulheres com a auto-estima resgatada, desfrutando da existência como quem se sabe e se sente feliz.
 

Cada município brasileiro deve iniciar imediatamente a organização do seu COPO ­ Conselho Operativo do Programa Fome Zero, que é o Comitê Gestor de Implantação do Programa e embrião do futuro Consea (Conselho de Segurança Alimentar) municipal. Este deverá ser integrado por representantes da sociedade civil organizada (Igreja, sindicatos, associações etc.) e do poder público.
 

É importante a sociedade civil começar a trabalhar no combate à fome e à desnutrição a partir da mobilização da população local. Deve procurar fazê-lo de modo educativo para superar o assistencialismo. Um exemplo: muitas paróquias oferecem sopão aos pobres. Isso é bom. Sacia-se, por um momento, a fome de pão. Mas e a de beleza? O sopão deve ser também educativo, cadastrando seus beneficiários, levantando suas trajetórias de vida, dando habilidade profissional a quem deseja e precisa voltar ao mercado de trabalho, alfabetizando, favorecendo o retorno ao local de origem a quem anseia por isso etc.
 

O Fome Zero é uma ação da sociedade brasileira monitorada pelo governo federal. Este quer combinar seu dever de saciar a fome de pão de quem sofre necessidade com a fome de justiça de quem tem o que comer. Só assim o Brasil reduzirá a brutal desigualdade social e terá resgatada a sua auto-estima.
 

Frei Betto, escritor, é autor, entre outros livros, de "Hotel Brasil" (Ática), e assessor especial do presidente da República.

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