Correio da Cidadania - edição 329
Fórum Social Mundial 2003
Frei Betto
Para
quem acredita que o mundo, do jeito que está, pode e deve ser diferente, é bom
saber que, pela terceira vez, Porto Alegre abrigará, de 23 a 28 de janeiro, o
FSM (Fórum Social Mundial). São esperados cerca de 100 mil participantes,
provenientes de 121 países, e a presença do presidente Lula. Na passagem do ano
já estavam inscritos cerca de 30 mil delegados e 5 mil organizações.
Os
cinco eixos temáticos serão: 1) Desenvolvimento democrático e sustentável; 2)
Princípios e valores, direitos humanos, diversidade e igualdade; 3) Mídia,
cultura e contra-hegemonia; 4) Poder político, sociedade civil e democracia; 5)
Ordem mundial democrática, combate à militarização e promoção da paz.
O
lema do FSM permanece "Um outro mundo é possível". É o que se busca, não apenas
como proposta, mas também como resgate de experiências, lutas e vitórias (como a
do PT no Brasil), que sinalizam uma alternativa ao neoliberalismo e ao atual
modelo de globocolonização. Neste sentido, o FSM é uma crítica ao Fórum
Econômico Social, que há 30 anos se reúne em Davos, Suíça, visando incensar a
idolatria do mercado.
Para
cada um dos cinco eixos, divididos em seis subtemas, serão organizados painéis
(mapa de ações do FSM e propostas estratégicas) e conferências (análises visando
construir alternativas), em geral na parte da manhã. Na parte da tarde e à
noite, haverá oficinas (laboratórios da sociedade organizada), seminários
(diagnósticos para fortalecer estratégias), mesas de diálogo e controvérsia
(confronto de visões e propostas), testemunhos (depoimentos de personalidades ou
grupos), eventos culturais etc.
Vários fóruns sociais precedem, mundo afora, o 3º FSM: em agosto de 2002
ocorreu, em Buenos Aires, o Fórum Social Temático Argentino e, em novembro, em
Florença, o Fórum Social Europeu. Em dezembro, a Etiópia abrigou o Fórum Social
Africano. Agora, no início deste mês, a Índia sediou o Fórum Social Asiático e,
em Belém do Pará, de 16 a 19 de janeiro, estará reunido o II Fórum Social
Temárico Panamazônico. Estão também previstos, para outubro, o Fórum Social
Pan-americano (possivelmente no Equador) e, em novembro, na Espanha, o Fórum
Social Mediterrâneo.
Cria-se, pois, uma rede mundial de alternativas - sociais, econômicas,
políticas, culturais e religiosas - que configuram o desenho de um novo modelo
de civilização regido pela busca da paz como resultado da justiça social; pelo
combate à desigualdade econômica sem detrimento da diversidade étnica e
cultural; por uma nova atitude espiritual que vincule valores subjetivos à
preservação do meio ambiente. E tudo isso ganha mais importância frente à
política belicista do presidente Bush, que ignora o Protocolo de Kyoto, a agenda
da FAO e a Corte de Haia como juíza de crimes de guerra.
Mais
do que um evento anual, o FSM é um processo mundial robustecido por inúmeras
iniciativas que, efetivamente, descortinam novos horizontes, desde a economia
solidária à ética nas relações de gênero. Uma nova cultura emerge desse
processo, a ponto de organismo internacionais, como o Banco Mundial, começarem a
rever seus paradigmas e abrir sua carteira de projetos para movimentos sociais
empenhados no combate à exclusão e à opressão.
A
história da humanidade é a comprovação incessante de que sonhos podem virar
realidade. No Brasil, onde a esperança venceu o medo, vivemos agora o momento
privilegiado de ver tantos sonhos se tornarem realidades, sobretudo porque a
eleição do presidente Lula representa uma mudança na gramática do poder, cuja
escrita se reflete na articulação do pacto social e na prioridade ao combate à
fome. Sem exagero, pode-se afirmar que esta vitória é também fruto do FSM, pois,
sem esta usina de idéias, experiências e propostas, talvez muitos nem
acreditassem que um outro Brasil é possível.
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Emir Sader, de "Contraversões
civilização ou barbárie na virada do século" (Boitempo), entre outros livros.