O Fórum Social

Paulo Brossard

(Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal)

 

Como programado, realizou-se aqui o Fórum Social Mundial. Em termos quantitativos foi um sucesso, pois, além dos 164 hóspedes oficiais do Estado, grande número de pessoas, das origens mais variadas, afluiu à capital gaúcha. Em termos qualitativos, porém, já não se pode dizer o mesmo. Era manifesta a divergência de orientações, podendo-se dizer que havia de tudo e para todos os gostos. Poder-se-ia dizer que aí estava sua importância se... Talvez não estivesse longe da verdade quem apontasse como ponto comum a todos os manifestantes verdadeira fobia à riqueza e ao progresso da nação mais poderosa do universo; queimar a bandeira dos EUA tornou-se rotina e apostrofar contra sua primazia passou a dever imperioso, à maneira do fundamentalismo islâmico. De qualquer sorte, o caso é interessante.

Entra pelos olhos que a despeito da queda espetacular do Muro de Berlim e da aluição do último império totalitário que encheu de sombras o século 20, não deixaram de existir as correntes que situavam no mundo soviético sua inspiração; elas perderam algumas referências, alguns de seus dogmas saíram enxovalhados da catástrofe moscovita, mas continuaram a proliferar com o mesmo dogmatismo e as mesmas rixentas idiossincrasias. É claro que o Fórum Social Mundial, realizado sob o prestígio de um governo, era ocasião excelente para um ajuntamento dos semelhantes.

E os semelhantes, a despeito de suas dessemelhanças, com seu reconhecido instinto de oportunidade, vieram de todos os lados. Era natural que, sob a aparente unanimidade, aflorassem as antinomias, bastando notar que assembléia tão festejada não chegou a enunciar as linhas do seu pensamento, para hoje e para amanhã.

Como noticiado, 16 mil participantes se repartiram em mais de 400 oficinas (sic), o que evidencia o formigueiro ideológico-partidário e suas reais dimensões. Daí por que “tornou-se impossível unificar o pensamento através de um único documento”, como assinalado; “a decisão de não fazer um documento final evita um caráter empobrecedor” (sic). Nesse ponto, pelo menos, teria havido consenso, o consenso de que não existira o consenso.

Contudo, surpreende-se, com nitidez, um traço dominante em meio ao antagonismo das seitas: a clara adesão à violência e até ao primarismo da luta armada Se o noticiário das folhas não mente, o parlamento cubano, fiel expressão de uma ditadura de 40 anos, recebeu a maior consagração do Fórum Social, a guerrilha colombiana, bem ou mal representada, não se sabe, em delírio, recolheu as homenagens mais abundantes, um guerrilheiro ou ex-guerrilheiro do Equador saiu laureado, velho caudilho argelino teve sua imortalidade celebrada ao defender a luta armada... Esses fatos são mais de indicativos, são reveladores da mentalidade prevalente, explícita ou difusa, dos protagonistas do Fórum Social, 4,5 mil delegados, 16 mil participantes, 1,7 mil jornalistas, segundo a imprensa, esquecidos do preço que a humanidade tem pago à moléstia que no século 20 encontrou seu ápice monstruoso. Haverá equívoco na apreciação? Parece-me que não. Basta apontar a maior figura do Fórum, seu símbolo ou sinônimo, foi o francês José Bové, que em 1999 chamou a atenção por haver depredado um McDonald’s no sul da França em protesto contra a globalização. Veio participar do Fórum, andou 280 quilômetros para, em Não-Me-Toque, invadir área de experimentação agrícola, arrancar, literalmente arrancar com suas mãos, plantas cultivadas em dois hectares por suspeita de serem transgênicas, danificou instalações de armazenamento de milho e canos dc irrigação. Graças a seu ato selvagem, ilícito em qualquer lugar, transformou-se o agitador na personagem mais importante do Fórum Social. Ovacionado. E antes de voltar ao seu país, recebido no Piratini pelo governador do Estado, como herói, quando, por ele, os produtos agrícolas do Rio Grande e do Brasil não entrariam na França.

Desse modo, Porto Alegre corre o risco de vir a ser a Tirana do século 21, como a capital da Albânia foi o símbolo do mais retrógrado e reacionário regime comunista da Europa no século 20.

Ainda bem que o Gramma, o jornal cubano que o saudoso Cláudio Abramo dizia ser o pior jornal do mundo, não chegou a ser apontado como padrão da imprensa livre e democrática...


A cidade depois do Fórum

Tarso Genro

(Prefeito de Porto Alegre)

 

A inversão de prioridades, a constituição de mecanismos de combate à corrupção e ao aproveitamento privado da máquina pública, a intensificação da participação dos cidadãos - independentemente da sua extração social - nas decisões públicas, embora não sejam prerrogativas exclusivas do PT, foram e são marcas muito fortes dos nossos governos locais. A escolha de Porto Alegre para sediar o Fórum Social Mundial teve a ver com esta marca.

Estas boas características devem se tornar permanentes para qualquer governo sério e elas estão contidas dentro dos sadios marcos republicanos, que grande parte das elites do país nunca soube ou quis potencializar. O Estado, para estas, na verdade sempre foi um instrumento extensivo do seu poder patrimonial, postura que tornou o Brasil um país onde a miséria doentia convive com uma das distribuições de renda mais perversas do mundo.

As políticas que construímos até agora no âmbito das cidades ajudam a proporcionar a afirmação de um projeto de país. Mas é preciso ousar e ligá-las, de forma umbilical, a um projeto de nação socialmente estável, exemplarmente democrática, dotada de instituições que promovam a redução radical das desigualdades e a democratização do poder político. Hoje este projeto está constrangido pelas políticas neoliberais, como ficou claro na Carta dos Prefeitos no Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão Social, aprovada em 27 de janeiro de 2001, no âmbito do Fórum Social Mundial. Em 1960, 20% do pólo mais privilegiado da humanidade recebia 70% do PIB global, percentual que aumentou em 1990 para 82,7%. Os 20% mais pobres neste período tiveram a sua renda rebaixada de 2,3% para 1,3%.

Penso que é precisamente no terreno do desenvolvimento e no aprofundamento das formas de controle público do Estado que o atual ciclo de governos democráticos deve atuar. Seu ponto de partida deve ser o tecido produtivo local e regional, para articular projetos locais e regionais de desenvolvimento de “baixo para cima”: combatendo a pobreza, proporcionando a inclusão e modernizando o processo produtivo. O município tem mecanismos para interferir neste processo.

Ao enfrentarmos a questão do desenvolvimento atacamos em duplo front: a dispersão da nossa base social e os efeitos cruéis do projeto neoliberal em curso. No primeiro front, o processo de desenvolvimento induzido por políticas públicas locais reordena as relações políticas e econômicas na região. No segundo front, ao integrar no movimento da economia interesses de diversos setores da sociedade, promovemos um novo bloco social capaz de ser articulado com a idéia de nação.

Os limites da cidadania, tanto na tradição liberal quanto na tradição cívico-republicana, estão sujeitos a um tipo de sociedade que alimenta o individualismo de forma exacerbada: estes limites demonstram ser insuficientes (para um novo impulso de crescimento combinado com distribuição de renda) as instituições democráticas tradicionais, originárias da revolução iluminista. Não se trata, porém, nem de destruir as conquistas do indivíduo nem de substituir as instituições do civismo republicano: o que devemos é potencializar as aspirações coletivas para que elas se exponham, de forma cada vez mais aberta, na cena pública, para dar nova força aos velhos poderes republicanos.

Os municípios podem ter um papel estratégico: por estarem jogados na arena política mundial; por estarem integrados numa rede de relações políticas e econômicas internacionais; por permitirem, desde logo, combinar as conquistas da microeletrônica e da informática para instituir controles eficientes sobre o Estado, para superar e afirmar a tradição liberal da representação. As cidades podem tornar-se expoentes de um novo projeto de Brasil, que só será viável se alicerçar-se numa sucessão de políticas públicas semeadas ao longo do território nacional.

 (Artigos publicados em Zero Hora de 05.02.2001)


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