Democracia sem causa

Por Cristovam Buarque

Uma semana de debates, em três diferentes capitais do Leste Europeu, prometia um distanciamento da questão do terror em Nova York — afinal, nesses lugares estariam reunidas pessoas de todo o mundo, discutindo três temas distintos e específicos: corrupção, em Praga; educação, em Bucareste, e globalização, em Budapeste. A idéia era refletir sobre esses temas e não sobre o terrorismo.

 

Puro engano. O mundo destes dias parece estar convencido de que um novo período começou no 11 de setembro, como se a História se dividisse em a. 11/9 e d. 11/9, como foi dividida em a.C. e d.C. pela civilização cristã. E andam todos perplexos a tentar explicar logicamente a loucura que tomou conta do mundo.

Nada indica vantagens políticas ou militares para os terroristas que derrubaram as torres do World Trade Center e parte do Pentágono. Nada indica vantagens de longo prazo para os EUA por bombardearem o Afeganistão. Se for morto Bin Laden, os EUA terão criado um mártir. Se desaparecer, terá sido criado um herói mítico invencível. Se for encontrado, preso e levado a julgamento, terão criado uma vítima que vai mobilizar grandes manifestantes em todo o mundo e por muitos meses.

A guerra no Afeganistão não parece oferecer qualquer vantagem de longo prazo para os EUA. Mesmo assim, ela está sendo feita. Sem aparente lógica. Ainda pior porque, pela primeira vez, desde o final da Segunda Guerra Mundial, no dia 11/9, os EUA receberam a simpatia de todo o mundo. Mesmo os despeitados com a riqueza americana, os revoltados com os sistemáticos apoios a ditadores, os inconformados com a vitória contra o comunismo e os descontentes com o acúmulo de poder por aquela nação sentiram e tiveram que manifestar simpatia pela situação de vítima imposta aos EUA.

No lugar de levar o assunto para os órgãos internacionais, dar todo apoio militar e de informação para punirem-se os responsáveis e parar o terrorismo, os EUA preferiram declarar guerra, com apoios externos. No entanto, esse aparente equívoco tem uma lógica: os erros da política externa são compensados por resultados na política interna. Uma operação internacional de captura seria mais eficiente — os próprios vizinhos e a comunidade islâmica poderiam dar uma solução política ao Afeganistão e tratar com rigor o caso de Bin Laden — mas isso não atenderia aos desejos e sentimentos da opinião pública americana. Ao errar na política externa, o presidente Bush está colhendo resultados positivos na política interna. Ele está, democraticamente, agindo de acordo com as pesquisas de opinião pública e a vontade do eleitor. Porque a democracia não leva em conta os estrangeiros. Para os gregos, os pais da democracia, estrangeiro era sinônimo de bárbaro, como hoje o povo americano trata os afegãos.

Bush ordenou bombardeios que deixarão seqüelas na política externa por muitas décadas, mas que consolidam o apoio interno imediato. Ele está criando problemas para os seus sucessores nos próximos 30 anos, mas está assegurando os votos necessários para uma reeleição dos republicanos, ou mesmo própria, daqui a 30 meses.

Esta é a lógica também na estratégia dos terroristas. Qualquer que seja o resultado imediato da guerra, no longo prazo o presidente Bush está criando um problema para os próximos presidentes no relacionamento dos EUA com os povos árabes: terão de tentar evitar revoluções fundamentalistas que poderão explodir nos demais países árabes aliados, evitar que as bombas atômicas do Paquistão caiam nas mãos de radicais e ainda garantir que a instabilidade não leve a uma perturbação no fluxo do comércio de petróleo.

O que mostra a lógica da aparente loucura não é a política externa americana sozinha: é o divórcio entre a política externa (de longo prazo) de uma superpotência e a política interna (de curto prazo) de uma democracia. Para não perder apoio popular no presente, os governos nacionais relegam o problema ecológico, deixam o planeta aquecer — o que provocará, dentro de algumas décadas, efeitos muito mais graves do que todos os atos terroristas da História passada.

Esta não é uma característica de Bush ou dos EUA. Qualquer político no mundo democrático está sujeito à incapacidade de olhar o longo prazo, porque em qualquer país as eleições são decididas pelos interesses do curto prazo.

O choque entre lógica e loucura é um choque entre duas formas de pensamento com formulações próprias e distintas: de longo prazo, do conjunto dos habitantes visando ao futuro do país, e a de curto prazo, representada pela vontade imediata de cada eleitor no momento presente.

A solução não está em regimes autoritários, que tampouco pensam o futuro e ainda menos respeitam o presente. O casamento entre os pensamentos de longo e de curto prazos depende de quem exerce o poder. Diante do poderio alemão, em 1940, se fosse movido pela opinião pública do momento, Winston Churchill teria assinado um tratado de paz com Adolf Hitler. Preferiu, no entanto, o confronto que seu povo temia e o conduziu à vitória, consciente dos riscos que corria, porque tinha uma causa: a soberania da Inglaterra.

Não apenas as personalidades dos políticos são hoje diferentes do que eram nos dias de Churchill, mas também a falta de grandes causas políticas de longo prazo e que justifiquem enfrentar a opinião pública e convencer os eleitores de sua importância superior às questões imediatas e soluções que possam parecer mais simples, porém não duradouras.

Os líderes disputam eleições e ocupam cargos sem objetivos maiores e tornam-se presas do cargo. Sem causas para liderar, são liderados pelas pesquisas de opinião. Porque uma democracia sem causa é uma democracia míope. 
 

CRISTOVAM BUARQUE é professor da UnB e autor de “Admirável mundo atual”.

 Artigo Publicado em OGlobo - 22/10/2001.

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