Zero Hora de 23.03.2003
Bush expõe sua fé e atiça o imaginário religioso
ANA FLOR
|
Bush confere um tom fortemente religioso aos seus discursos Foto(s): J Scott, AP/ZH |
A
rotina adotada na Casa Branca desde a posse de George W. Bush, a atitude
fervorosa do novo presidente e sua estreita ligação com líderes evangélicos
suscitam um debate na imprensa americana e chamam a atenção do mundo -
especialmente agora, em tempos de guerra.
A fé
do líder está presente em quase todas as suas falas, e o imaginário religioso se
tornou uma marca registrada de seus discursos. Apesar de a retórica religiosa
ser uma tradição entre os presidentes republicanos dos EUA, nenhum outro parece
tê-la incorporado de maneira tão enfática. Para muitos, a religiosidade de Bush
explica, ao menos em parte, a atual guerra contra o Iraque, que, na visão do
presidente, seria uma espécie de luta entre o Bem e o Mal.
A
cada manhã, antes do alvorecer, Bush se recolhe para a leitura de livros
evangélicos. As reuniões diárias do presidente com seus secretários se iniciam
com orações. Nada surpreendente para seus funcionários mais próximos. Na Casa
Branca, Bush está cercado de evangélicos e cristãos renascidos. Em aparições
públicas, gosta de citar passagens bíblicas e contar histórias que demonstram o
poder de Deus. Sua preferida fala sobre ele próprio: Bush atribui a Deus o
abandono do alcoolismo, há cerca de 17 anos, e tem certeza de que Deus o manteve
vivo e livre do vício para cumprir uma missão.
A
atitude de Bush - que se descreve como um metodista renascido - provoca polêmica
mesmo nas comunidades religiosas.
- A
inclusão da religião nos discursos do presidente já é uma questão de estilo -
diz o pastor Welton Gaddy, diretor executivo da Aliança Entre Fés, uma
organização apartidária que reúne mais de 50 grupos religiosos.
Para
Elaine Pagels, professora de Teologia da Princeton University, a forma como Bush
usa a religiosidade em seus pronunciamentos, por refletir sua própria fé cristã,
desencoraja a discussão política, isola membros de outras fés e coloca o país em
grande risco de um ataque por extremistas não-cristãos.
Conforme o historiador Voltaire Schilling, os testemunhos do presidente
demonstram que quem está no poder nos Estados Unidos é um dos grupos políticos
mais arcaicos. Surgido nos anos 60, o movimento Maioria Moral ganhou força
durante o governo Reagan. Moralista e conservador, procurava combater o
movimento hippie, pregava uma volta aos bons costumes e apoiava o governo na
Guerra do Vietnã. À medida que cresciam os cultos transformados em shows e os
programas de TV, os pastores da chamada igreja midiática ganhavam força.
- Os
EUA devem ser o país com a maior concentração de cristãos ativos. Sem dúvida a
Maioria Moral chegou ao seu auge - diz o historiador.
Boa
parte da população americana se declara evangélica ou cristã renascida. Para
este público, os preceitos morais contam na hora do voto. Esta parcela da
população é a base de sustentação do atual governo. Os oito anos de mandato de
Bill Clinton deram mais argumentos ao movimento Maioria Moral. Segundo o
historiador, para eles a era Clinton foi um tempo de libertinagem - a começar
pelo então presidente.
Há
ainda outro elemento para o crescimento do poder dos religiosos nos EUA.
Conforme Schilling, George W. Bush preenche o vazio retórico com o messianismo
cristão.
- O presidente americano é um homem de pouca cultura, um ex-alcoólatra que acredita ter sido salvo do vício por Deus para cumprir uma missão - diz.
A nova cruzada
O
presidente George W. Bush parece acreditar que sua missão é "combater o Eixo do
Mal" - expressão cunhada por ele para definir o Iraque, o Irã e a Coréia do
Norte. O termo é semelhante ao usado pelo ex-presidente Ronald Reagan que, na
década de 80, se referia à antiga União Soviética como o "Império do Mal".
Logo
depois do 11 de Setembro, Bush chegou a usar o termo "cruzada contra o
terrorismo", como se fosse o encarregado de uma nova vitória do cristianismo
sobre muçulmanos e fundamentalistas. Em entrevista à revista Newsweek, amigos do
presidente dizem que ele atualmente se dedica à leitura de um livro de
minissermões evangélicos de Oswald Chambers. O autor, um escocês e pregador
batista, morreu em 1917 quando levava o Evangelho a soldados da Austrália e Nova
Zelândia concentrados no Egito. No Natal daquele ano, eles já haviam ajudado a
tomar a Palestina dos turcos, em plena I Guerra Mundial.
Para
o historiador Voltaire Schilling, Bush parece se considerar um líder escolhido
por Deus para este momento da história - e acontecimentos como o 11 de Setembro
e a explosão da nave espacial Columbia, neste ano, seriam sinais.
- O
grupo que apóia o presidente dos Estados Unidos vê qualquer oposição à sua
"missão" como uma artimanha do demônio - diz Schilling, referindo-se às
tentativas dos demais países e da ONU em evitar uma guerra.
Um
dos mentores do presidente, o pastor Jerry Falwell, chegou a dizer que Maomé não
passava de um terrorista. O pastor, que defende abertamente um cristianismo de
cruzada não-pacifista, também teria afirmado publicamente que qualquer crença
que não seja cristã tem origem no mal.
- A história mostra que, em geral, a mistura de religião com política é um combustível perigoso - afirma Schilling.