ZH de 25/01/2003.

"Estamos testemunhando o nascimento de um novo Brasil"

Entrevista: Fritjof Capra, físico

ANA FLOR

Aos 64 anos, o renomado físico austríaco Fritjof Capra, escritor do best-seller O Tao da Física, poderia não ter mais motivos para se empolgar com governos e promessas. A chegada de Lula à Presidência, entretanto, é vista pelo cientista como um indicativo de mudança mundial. Um dos maiores representantes do pensamento ecológico e social, Capra está em Porto Alegre para participar do 3º Fórum Social Mundial e para apresentar à ministra do Meio Ambiente brasileira, Marina Silva, um projeto de alfabetização ecológica que coordena há 10 anos em redes de ensino da Califórnia. Nas palestras programadas durante o fórum, Capra falará sobre temas aparentemente sem relação, mas que, para ele, estão intimamente interligados, como energia sustentável, administração de organismos e educação.
 

Zero Hora - A sua vinda ao Fórum tem relação com o momento político que vive o Brasil?
 

Fritjof Capra - Eu estou muito animado com a nova situação política brasileira, com a troca de governo. Acho que nós todos estamos testemunhando o nascimento de um novo Brasil. Eu estou empolgado porque sei, pelos contatos que tenho em todo o mundo, que há boa vontade em muitas partes em relação ao governo de Lula e ao Brasil. Todas as ONGs parecem querer ajudar o Brasil com troca de experiências e também com recursos.
 

Gosto da forma com que Lula encara questões como a globalização. Ele sabe que não há como impedi-la, mas quer que se estabeleça na América Latina de outra forma, sem descuidar de preocupações sociais.
 

ZH - Qual será o tema do seu encontro com a ministra do Meio Ambiente? É seu projeto de alfabetização ecológica?
 

Capra - Sim. Eu vou encontrar Marina Silva no domingo para falarmos especialmente sobre educação ambiental. Eu conheço muita gente que quer trazer ao Brasil projetos de alfabetização ecológica e quer construir escolas aqui, semelhantes às que temos na Califórnia. Já há bons exemplos no Brasil, como em Curitiba e São Paulo.
 

ZH - O senhor acredita que a América Latina é menos alfabetizada ecologicamente que a Europa, por exemplo?
 

Capra - Um pouco. Mas eu acredito que essa questão não pode ser separada de questões sociais e políticas. A destruição da natureza também ocorre em razão de uma política social injusta. Equilíbrio ecológico e justiça social andam juntos. Nada está separado.
 

ZH - Como o senhor, um físico, chegou ao pensamento ecológico e social?
 

Capra - Foi um longo caminho. Eu comecei interessado pela filosofia da física e, ao mesmo tempo, pelas questões sociais. Eu queria usar meus conhecimentos científicos para discutir ecologia e problemas sociais. Acabei escrevendo cinco livros, que tratam basicamente das mudanças dramáticas na ciência nas últimas décadas e de suas implicações sociais e econômicas.

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