Zero Hora de 01/02/2003 Entrevista

Lágrimas no Gigantinho: platéia emocionou-se na apresentação da Carta de Porto Alegre, dia 27 - Foto: Mauro Vieira/ZH

Uma carta pede paz

 

CÍNTIA MOSCOVICH

 

Ao som de Imagine, de John Lennon (letra completa AQUI), a leitura da Carta de Porto Alegre, documento assinado por autoridades israelenses e palestinas, comoveu o Gigantinho na tarde da segunda-feira, 27 de janeiro, durante a programação do 3º Fórum Social Mundial. Iniciativa do grupo gaúcho Diálogos pela Paz, que desde o ano de 2001 vem mobilizando as comunidades judaica e palestina do Estado na busca de um acordo pacífico para o confronto no Oriente Médio, a leitura do documento encerrou três dias de seminários em que inimigos históricos - três palestinos e três israelenses - sentaram-se à mesa de negociações. Dois signatários do documento, a israelense Galia Golan, fundadora do movimento Paz Agora, ativista que reúne no currículo dois doutorados em Ciência Política, e Zyad Abu Zyad, parlamentar palestino, membro de movimentos pela libertação de seu povo, falaram ao Cultura sobre a importância da Carta e sobre os conflitos que se acirram dia a dia.

 

Entrevista: Galia Golan, cientista política israelense
 

Cultura - Qual a importância da redação e da leitura da chamada Carta de Porto Alegre em pleno Fórum Social Mundial?
 

Galia Golan - Em primeiro lugar, acho que é muito importante que nós, israelenses e palestinos, apareçamos juntos em público e que as pessoas vejam que acreditamos no diálogo e que ele é possível. Temos crença na urgência da paz e queremos alcançar as pessoas em todos os lugares do mundo, para que todos saibam que é possível que as duas nações vivam lado a lado. Certamente nós, em Israel e na Palestina, achamos que existe uma solução. O grupo de Porto Alegre trabalhou em conjunto e assim continuaremos trabalhando. Ser nós conseguimos nos unir, dialogar e chegar a um consenso, é porque essa possibilidade existe e deve ser buscada.
 

Cultura - O Fórum Social Mundial é tradicionalmente um evento de esquerda, que tem apoiado a causa palestina, com aparentes restrições à causa israelense. Durante a leitura da carta, por exemplo, havia centenas de bandeiras palestinas, mas não se viu uma só bandeira israelense. Além do pedido de conciliação da carta, há algum sentido ideológico maior?
 

Galia - Acho que é importante que as pessoas saibam que a esquerda luta pela justiça em sua plenitude. Há muitos e muitos israelenses que crêem na possibilidade de paz e no direito de autodeterminação de ambos os povos. Nós somos da esquerda e creio que o Fórum Social Mundial é o cenário perfeito para uma proposta desse tipo. Nós fomos aceitos no dia de hoje, não fomos rejeitados: as pessoas nos aceitaram em bases iguais.
 

Cultura - E que tal ter Imagine, de John Lennon, como hino da declaração pacifista de hoje?
 

Galia - Foi muito comovente. Viemos com uma mensagem de diálogo, respeito e solidariedade. E Imagine resume nossas intenções. Paz agora.
 

Entrevista: Zyad Abu Zyad, parlamentar palestino


 

Cultura - Por que trazer a público um documento pacifista num lugar tão distante dos conflitos?
 

Zyad Abu Zyad - É muito importante mostrar ao mundo que pacifistas palestinos e israelenses podem reunir-se e conversar, apesar da situação deteriorada e da alta tensão que se vê todos os dias no Oriente Médio. Espero que o diálogo entre as comunidades palestina e judaica do Rio Grande do Sul estimule comunidades do mundo inteiro a conversar. Gostaria que a carta desse suporte para que os dois lados saibam que é possível chegar a algum acordo.
 

Cultura - O Fórum Social Mundial é tradicionalmente um evento de esquerda, que tem apoiado maciçamente a causa palestina. Além do pedido de conciliação, há algum motivo que pretenda transcender a barreira ideológica?
 

Zyad - Em primeiro lugar, creio que deve ser feita uma distinção entre os judeus e o Estado de Israel e entre o governo de Israel e o povo de Israel. Não podemos fazer um julgamento coletivo e ser contra os judeus ou israelenses de maneira geral. Somos contra a ocupação israelense, somos contra a opressão que está sendo feita contra nosso povo. Penso que as críticas devem ser sempre contra o governo de direita israelense e a política contra os palestinos e contra a ocupação de nossos territórios. Não penso que a esquerda seja contrária aos israelenses. A esquerda é contra a política israelense, contra a ocupação e contra a usurpação dos direitos dos palestinos como povo. A opressão, as mortes, a destruição são fatos contra os quais o mundo todo se opõe, não apenas a esquerda. As violações do direitos básicos do ser humano são muito severas. Se há uma crítica, ela não se dirige a judeus ou israelenses. A crítica é contra a política fascista da ala direita do governo israelense. Esperamos que haja uma mudança em Israel, que um novo governo consiga assegurar o que estamos pedindo. Agora, com a reeleição de Ariel Sharon, estamos preocupados: as coisas tendem a ficar como estão. O futuro das relações entre israelenses e palestinos está ameaçado.
 

Cultura - O sr. acha que a Carta de Porto Alegre poderá sensibilizar a opinião pública além das fronteiras do Fórum Social?
 

Zyad - A carta deve encorajar judeus e palestinos a continuar o diálogo. A carta contém os princípios que podem levar à paz. Fala acerca da coexistência entre um Estado Palestino e um Estado Israelense, o que mostra que reconhecemos a existência de Israel. Também fala da retirada dos territórios que foram ocupados em 1967, o que significa que reconhecemos Israel dentro das fronteiras anteriores àquela data. Ao mesmo tempo, fala de um Estado palestino, o que significa que Israel deve nos reconhecer e nos devolver Gaza, Cisjordânia e a parte oriental de Jerusalém. A carta também fala de Jerusalém como cidade aberta, duas capitais numa mesma cidade. A intenção não é dividir fisicamente Jerusalém, mas compartilhá-la. Queremos viver lado a lado e cooperar mutuamente. Esses são elementos positivos que devem ser usados para aumentar o espírito de conciliação entre os dois povos e encorajar o diálogo entre eles.
 

Cultura - O sr. conhece a realidade de miséria de grande parte da população latino-americana, que ocasiona mais mortes do que a própria guerra?
 

Zyad - Não conheço muita coisa. Mas sei que a situação não é fácil. Em todo caso, espero que haja uma evolução social e econômica. A pobreza é sempre uma boa razão para o extremismo e temos de lutar contra a falta de recursos e contra a ignorância.
 

Cultura - E a guerra contra o Iraque?

Zyad
- Sou totalmente contra a guerra. Não creio que seja necessária. Acho que Bush está tentando distrair a atenção por não ter conseguido conseguido achar Bin Laden nem posto fim ao terror. Ele quer demonstrar que está fazendo alguma coisa e, para isso, arma um show. Creio que Bush está mais interessado em petróleo do que em acabar com as armas de destruição em massa que supostamente o Iraque possui.
 

Cultura - E Saddam Husseim?
 

Zyad - Não gosto de dar opinião sobre pessoas, porque sou um representante oficial de meu governo. Mas somos simpáticos ao povo iraquiano e esperamos que não haja mais sofrimentos.
 

A Carta de Porto Alegre

"Nós, pacifistas israelenses e palestinos, estamos determinados a buscar:

Paz, justiça e soberania para nossos povos e um final à ocupação israelense nos territórios ocupados em 1967;

A criação de um estado palestino independente, lado a lado com Israel, ao longo das linhas de junho de 1967; Jerusalém como uma cidadeaberta, com capital independente para os dois Estados;

Uma solução acordada e justa para a questão dos refugiados palestinos, conforme a resolução 194 das Nações Unidas.

Clamamos à comunidade internacional e às Nações Unidas, em particular, para, urgentemente, intervir para:

Colocar um fim a esta situação trágica e um final à violência em ambos os lados;

O imediato encaminhamento de negociações de paz a fim de possibilitar uma paz justa e duradoura."

Porto Alegre, 27 de janeiro de 2003

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