Zero Hora - Editorial - 25/01/2003

Os dois cavaleiros

Descritos no último dos livros bíblicos, os quatro cavaleiros do Apocalipse representam os principais tormentos da humanidade: a fome, a guerra, a peste e a morte. Lula elegeu o primeiro ginete como inimigo prioritário a ser combatido no seu governo. Mas é o segundo cavaleiro que mais preocupa o mundo no momento em que os Estados Unidos apontam suas armas poderosas para o Iraque.

 

O Brasil contra a fome

 

Às vésperas de deixar Brasília para participar de dois debates consecutivos com diferenças de pontos de vista tão marcantes quanto as do clima das regiões em que se realizam - o Fórum Social no calor de Porto Alegre e o Econômico na gélida cidade suíça de Davos -, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já fazia questão de asseverar sua preocupação prioritária com o social. Por intermédio de seu porta-voz, adiantou a intenção de, no Sul e no Norte, reafirmar que o programa Fome Zero é o carro-chefe de seu governo. Como ressaltou na capital dos gaúchos, o presidente pretende lembrar à elite econômica nos Alpes que não é possível aceitar uma realidade em que "poucas pessoas comem cinco vezes ao dia e muitas ficam cinco dias sem comer". Por isso, defende "uma nova nova ordem econômica mundial, em que o resultado da riqueza seja distribuído de forma mais justa". A bandeira que o presidente brasileiro pretende desfraldar em Davos é mais do que oportuna, para lembrar que os esforços e os recursos dos países ricos deveriam ser direcionados para a guerra pacífica contra a fome.

Tanto a impessoalidade dos números estatísticos como a realidade que o próprio presidente da República se encarregou de demonstrar recentemente a seus ministros em caravana ao Nordeste brasileiro deixam claro que a tarefa não será enfrentada com facilidade. A realidade nacional está longe de se equiparar às de algumas regiões africanas, onde legiões de famintos costumam ganhar atenção internacional particularmente em períodos de catástrofes climáticas. Milhões de brasileiros, porém, sobrevivem hoje em condições de miséria absoluta. Nesse meio, a fome se revela como a conseqüência mais cruel da falta de perspectivas no cotidiano, traduzida também sob a forma de acesso precário a serviços como ensino, saúde e infra-estrutura básica. Sem o atendimento dessas precondições, um número cada vez maior de brasileiros fica privado de obter emprego, assegurar moradia e manter uma família em condições dignas, o que está na origem da maioria dos problemas sociais que o país enfrenta hoje e aos quais é preciso dar um basta.
 

Mesmo organismos multilaterais experientes nesta área, como a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), têm enfrentado barreiras aparentemente intransponíveis na luta por esta causa. A redução do contingente de famintos pela metade até 2015, como pretende a instituição, exigiria que 22 milhões de pessoas passassem a contar com o que comer anualmente. Apesar do alegado empenho internacional, apenas cerca de 6 milhões de pessoas vêm perdendo a condição de famintos a cada ano.
 

Por sua trajetória pessoal e política e pela veemência com que chama a atenção para a causa, porém, o presidente da República reúne condições particularmente especiais para liderar esse processo e inspirar até mesmo a FAO. Líderes de todo o mundo, como os reunidos em Porto Alegre e em Davos, precisam assegurar uma distribuição menos desigual da riqueza. Mais do que recursos financeiros, isso significa também maior acesso aos mercados com a redução de práticas protecionistas que hoje limitam as chances de crescimento e de geração de emprego nas nações em desenvolvimento.

O mundo contra a guerra

 

As guerras deste começo de século 21, especialmente as que envolvem países hegemônicos, são sempre guerras mundiais. As características globais de alguns interesses em jogo, como os do petróleo, do comércio ou das finanças, transformam os conflitos armados em episódios que afetam, quase sempre diretamente, todo o conjunto de nações. Assim, a iminência da invasão anglo-norte-americana do Iraque não é um fato que interessa apenas à Casa Branca, ao Pentágono ou à Inglaterra. E também não é um cenário que envolve apenas as cidades, as instalações estratégicas ou os campos de petróleo do Iraque. As conseqüências do conflito estendem-se para longe do espaço em que se processam as decisões ou em que ocorrem os confrontos. Antes mesmo que se saiba se efetivamente haverá uma invasão, o preço do petróleo subiu, as bolsas caíram e as sombras da recessão se ampliaram. Já não são mundiais os prejuízos atuais de uma guerra que ainda é futura?
 

Por isso, é de constrangimento ou de oposição a reação dos principais países europeus, especialmente Alemanha e França, de estratégicas nações como a China e a Rússia, ou de emergentes como o Brasil. Os preparativos da guerra, mesmo contra um regime autoritário e prepotente como é o de Saddam Hussein, não deveriam atropelar as instâncias internacionais criadas há 60 anos exatamente para evitar que países isolados ou líderes individuais pusessem em risco a paz de todos. A nova política externa do presidente George W. Bush, ao optar pelo unilateralismo das decisões - desprezando as instituições multilaterais - representa um retrocesso histórico que envergonharia os fundadores das Nações Unidas. Mesmo desrespeitada com freqüência por quem deveria valorizá-la, a ONU e seus principais organismos são instâncias cuja função vai muito além do que legitimar a vontade, muitas vezes perniciosa para o conjunto da sociedade humana, das potências hegemônicas.
 

Neste sentido, não se justifica nem a ofensiva e preconceituosa declaração do secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, de que França e Alemanha, ao se oporem à guerra, representam o que há de velho na Europa, nem uma resposta que circunscreve a polêmica a um confronto entre países ou regiões. Um conflito armado no Iraque, promovido unilateralmente e sem o atendimento das condições negociadas na ONU, significará o retorno triunfante da diplomacia das canhoneiras e o renovado fracasso das tentativas de colocar a questão da paz e da guerra num nível supranacional, que dê chances ao bom senso.
 

Com todas suas deficiências, a ONU continua representando a última - e talvez única - instância multilateral de racionalidade, capaz de impor-se ao arbítrio das nações hegemônicas. Se é respeitável a preocupação norte-americana com o armamentismo do Iraque e com as ameaças que a sociedade humana sofrerá se o país de Saddam dispuser de armas biológicas ou atômicas, tal preocupação não pode servir de pretexto para remédios que podem ser tão ruins quanto a doença.
 

É nesse quadro de pré-guerra que o presidente Lula se apresenta no plenário do Fórum Econômico de Davos e se encontra com dois dos líderes europeus que resistem à intenção belicista do presidente Bush, o chanceler Gerhard Schroeder e o presidente Jacques Chirac. Será uma importante oportunidade para reenfatizar a posição brasileira, que desautoriza ações unilaterais e hipoteca confiança nos mecanismos da ONU.

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