Zero Hora de 28/01/2003
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Chomsky alerta para subprodutos da guerra
MOISÉS MENDES
A guerra dos Estados Unidos contra o Iraque poderá
aniquilar Saddam Hussein, mas provocará o surgimento de uma nova geração de
terroristas e o descontrole total dos arsenais de armas químicas e biológicas de
destruição em massa. O cenário pós-guerra foi rascunhado ontem pelo lingüista e
pensador americano Noam Chomsky, na conferência Como Enfrentar o Império?, que
lotou o Gigantinho.
Chomsky sustentou seus argumentos antiguerra citando
outros autores - cientistas, militares e especialistas em geopolítica -, nem
sempre identificados. Muitos deles vislumbram um mundo assustador, "muito mais
perigoso", segundo ele, se o ataque ocorrer. A guerra provocaria a pulverização
de armas químicas, se essas realmente existem, desencadeando o que já foi
definido como a "privatização" desses arsenais por grupos terroristas.
- Teríamos ataques piores do que os dos atentados de
11 de setembro (em 2001, em Nova York) - afirmou.
O americano observou que nada foi provado da suposta
ligação de Saddam com a Al-Qaeda de Bin Laden. Para ele, o mais provável é que
esse intercâmbio não exista, porque o Iraque não correria o risco de fornecer
munição a parceiros não-confiáveis. Segundo Chomsky, a reação mundial expôs a
fragilidade dos argumentos de George W. Bush para atacar Saddam:
- Bush provocou uma inundação de propaganda
esdrúxula pró-guerra, porque o medo surte efeito. Mas a reação a isso, mesmo nos
Estados Unidos, atingiu níveis nunca vistos.
Escritora indiana propôs que população provoque
rugido ensurdecedor contra Bush
O esforço para "construir um inimigo que estaria
prestes a cometer um genocídio", disse, esconde outras razões para o que chama
de "ambição imperialista americana de impor-se pela força". Uma das principais
seria o desejo dos EUA de apoderar-se das reservas de petróleo iraquiano.
No início da tarde, em entrevista na PUCRS, Chomsky
disse que os marcianos devem estar assistindo com curiosidade a um dos momentos
mais singulares da História, quando a população mundial se opõe a um conflito
bélico defendido apenas por Bush e pelo seu "cão de ataque", o primeiro-ministro
britânico Tony Blair. De Marte, completou o lingüista, deve ser ainda mais
interessante observar o paralelismo entre o Fórum Social Mundial e o Fórum
Econômico Mundial, que ocorre em Davos, na Suíça:
- Se olharmos para esses dois eventos, vemos que
andam em paralelo. Mas, à medida que o Fórum Social se torna cada vez maior,
mais energético e otimista, o Fórum Econômico se afunda no desespero.
A conferência também teve a participação da
escritora indiana Arundathi Roy. Carismática, Arundathi era aplaudida a cada
duas ou três frases. Propôs que "a opinão pública mundial provoque um rugido
ensurdecedor contra a guerra".
- Cada um de nós, a sua maneira, sitiamos o Império,
o desnudamos e fizemos cair sua máscara. Aí está ele na sua nudez bestial e
perversa, incapaz de olhar para seu próprio reflexo - afirmou a escritora.
O público veio abaixo. Arundathi saiu do Gigantinho
aplaudida de pé.