Conjuntura / setembro 2001

 

Para apresentação à CEP e Presidência da CNBB

   

 

Y así, del poco dormir y del mucho leer,
se le secó el celebro
de manera que vino a perder el juicio

(Cervantes)  

 

Apresentação

            A morte de milhares de pessoas no desabamento das "torres gêmeas" jogou por terra o esquema preparado para a análise de conjuntura deste mês, já que os textos delineados antes do dia 11 de setembro tornaram-se ultrapassados. Enquanto não tivermos certa clareza sobre os desdobramentos do atentado terrorista contra os EUA, devemos reconhecer nossa incapacidade de fazer uma análise da realidade que estamos vivendo. Por isso mesmo, o título deste texto é simplesmente "conjuntura". Daí a citação de D. Quixote: depois de tantos artigos consultados (alguns excelentes!), não conseguimos mais sistematizar as idéias. Pensamos, contudo, que neste momento o mais importante é colocar as perguntas, pois aprendemos na matemática que a chave de resolução de qualquer problema reside na sua boa formulação. Se essas perguntas se revelarem pertinentes, já serão meio caminho andado para uma análise correta da conjuntura que vivemos.

 

1.      Por que o atentado foi tão mobilizador?

Passadas duas semanas, as manchetes continuam sendo dedicadas aos desdobramentos do atentado e os jornais continuam publicando cadernos inteiros sobre o assunto. Para entender tal interesse, é preciso considerar, mais além dos fatos concretos o imaginário que os envolve. Na realidade, foi um ato de terrorismo no sentido estrito: a grande quantidade de pessoas atingidas nas duas cidades mais importantes do País, numa operação que colocou a eficácia acima de todo valor humano, logrou seu objetivo de disseminar o medo generalizado. Por isso mesmo, bem mereceu a unânime condenação mundial.

Mas a tragédia não teria impacto tão grande e duradouro, não fosse seu impacto no imaginário coletivo. Os prédios derrubados eram dois símbolos maiores do poderio estadunidense: os Centros do Comércio Mundial (coração financeiro do gigante) e o Pentágono, cérebro de sua estratégia militar. No outro lado, foi colocado o Oriente islâmico e árabe, cuja imagem na cultura ocidental há séculos está associada a mistério, fascínio, sagacidade, exotismo, poder absoluto, perseverança na busca de seus objetivos e, mais recentemente, ao "fanatismo".

A mobilização do imaginário sempre desperta sentimentos: desde os mais destrutivos, como ódio, inveja, rancor, desejo de vingança, xenofobia, como os sentimentos construtivos de solidariedade, indignação, compaixão, coragem. Essa multiplicidade de sentimentos dificulta qualquer análise, uma vez que os sentimentos não podem ser objetivamente avaliados, mas apenas presumidos (na outra pessoa) ou manifestados (pela própria). Por isso, embora sejam um componente intrínseco das ações humanas, não podem servir de base para uma explicação fundada em bases objetivas. Se queremos entender os fatos chocantes do último dia 11 e suas conseqüências para a nossa realidade, temos que ir além de explicações simplistas: nem atribuir suas causas ao ódio, rancor, ou "fanatismo", nem ver nas reações do governo e do povo estadunidense apenas solidariedade, indignação e patriotismo. Só assim conseguiremos perceber as lógicas subjacentes às ações humanas, por absurdas e desumanas que sejam.

2.      Por que é visto como o início do século XXI?

O atentado ocorre num momento delicado nas relações econômicas e políticas dos EUA com o resto do mundo. O País já estava vivendo o início de uma forte desaceleração no seu crescimento econômico (havia quem previsse uma recessão, com graves conseqüências para a economia mundial) e seu presidente vinha tomando medidas politicamente desastrosas (como a rejeição do acordo de Kyoto, a permissão para exploração do petróleo em reserva ecológica no Alasca, o abandono da reunião da ONU contra o racismo, na África do Sul, e a conivência com a repressão israelense à intifada). Se o contexto global fosse diferente, e os EUA estivessem em posição politicamente confortável, o atentado certamente seria absorvido como foram os muitos atos terroristas do século XX. Mas a percepção unânime é que não se trata de um gesto tresloucado de algum grupo fanático, e sim de uma virada na história dos EUA.

De uma hora para outra, vieram à tona os seus crimes contra a Humanidade (talvez a charge mais expressiva seja a montagem da célebre foto de crianças vietnamitas atingidas por napalm correndo por Nova Iorque, tendo ao fundo os escombros do WTC). Também foram lembrados seus ataques ao Iraque, as bombas sobre Hiroshima e Nagazaki, seu apoio ao terrorismo contra governos adversos e as intervenções em países caribenhos e latino-americanos para a instalação de governos títeres. Nesse contexto, o episódio soa como um sinal de fim do império e início de uma era de incertezas e agressividade descontrolada. Será esta a marca do século que agora começa?

 

3.      Desdobramentos econômicos: o sistema capitalista foi abalado?

É certo que o sistema capitalista global foi duramente atingido no plano simbólico, mas há muitas dúvidas quanto aos efeitos do atentado no seu funcionamento. A injeção imediata de US$ 200 bilhões, numa operação conjunta de bancos centrais do G-7, para garantir a liquidez nos mercados, é prova cabal de sua capacidade de reação. Visto sob este ângulo, o desmoronamento do WTC e a paralisação momentânea da Bolsa de Nova Iorque teria sido apenas um arranhão, doloroso para alguns setores como aviação, turismo e seguros, mas incapaz de afetar o grande capital. Visto sob outro ângulo, porém, pode-se prever graves efeitos do atentado sobre a credibilidade da moeda que hoje rege o mercado mundial. Desde a ruptura do acordo de Bretton-Woods, quando o dólar americano abandonou o padrão-ouro, sua garantia repousa na pujança econômica dos EUA e na garantia oferecida pelo governo, grande tomador de empréstimos cujos juros determinam todos os demais. Se a credibilidade do governo for prejudicada, o dólar também o será, porque, como ensina a antiga norma econômica, "não há moeda sem príncipe". A alta do ouro e a queda do dólar em relação a outras moedas fortes seriam indícios dessa crise, enquanto a onda de patriotismo e o esforço de guerra seriam seus remédios imediatos. Fica, porém, uma interrogação sobre a capacidade do Presidente para desimcumbir-se da tarefa.

A recessão que já estava se delineando nos EUA, parece agora inevitável, embora possa ter curta duração. Nesse contexto, a guerra surge como uma saída para a crise, porque estimula investimentos sem provocar superprodução (as armas são caras e se consomem em pouco tempo). O problema é: contra quem fazer guerra? Não há guerra contra indivíduos. Declarar guerra ao "terrorismo mundial" é uma metáfora, como a "guerra às drogas" ou a "guerra à pobreza", porque os grupos que praticam atos terroristas organizam-se em forma de rede. Mas se a metáfora for entendida substantivamente, como indicam os discursos do Presidente Bush, pode-se esperar grandes operações militares contra países acusados de abrigarem terroristas. Elas podem ser úteis para relançar a economia, mas acarretariam elevados custos políticos: a guerra contra um Afeganistão miserável seria tão prejudicial à imagem dos EUA quanto foi a guerra contra o Vietnã. Mas é bom ter em mente que enquanto governador do Texas, ele aplicou com rigor a pena de morte e até agora sua postura política carece de horizontes mais amplos.

No que se refere ao Brasil, já se percebem sinais de agravamento da crise econômica. A retração dos investimentos externos, que já se podia sentir desde o ano passado (cfr. nossa análise de conjuntura de julho), só tende a agravar-se num contexto mundial de incertezas. A pressão da balança de pagamentos, que necessita mais de US$25 bilhões para cumprir os compromissos externos deste ano, provoca a desvalorização do Real. Para evitá-la, o Banco Central está emitindo grandes quantidades de títulos com equivalência em dólar, mas isto não traz os ditos dólares. Para a Argentina o problema é ainda mais grave, uma vez que secam as fontes de financiamento para a rolagem da dívida pública.

 

4.      Quais as conseqüências na política mundial?

Em nossa análise de conjuntura de julho assinalávamos com esperança a emergência de um movimento mundial contra a globalização capitalista. Esse movimento por uma globalização alternativa (o Papa João Paulo II fala da globalização da solidariedade) ganhou corpo no Fórum social realizado em Porto Alegre, no início deste ano, e manifestou sua força em Gênova (embora a mídia tenha focalizado quase exclusivamente a violência dos grupos Black Bloc e da polícia). Apontávamos então a possibilidade de uma alternativa viável à hegemonia imposta pelos EUA e seus aliados do G-7. Os aviões-bombas causaram um grave estrago também nesse campo, delineando a emergência de uma nova geopolítica mundial polarizada entre o Ocidente opulento e Oriente empobrecido. Algo como uma aliança entre o G-7 (mais os países ricos da OCDE) contra o resto do mundo. Nessa nova geopolítica, a liderança do pólo empobrecido ficaria em mãos dos grupos mais radicais do mundo árabe-mussulmano, alijando os moderados de um lado e do outro. Os sinais de autoritarismo e xenofobia no Ocidente são cada vez mais nítidos e ameaçadores. Também o prestígio dos grupos extremistas islâmicos parece crescer, enquanto os grupos alternativos que buscam no diálogo a superação do atual modelo neoliberal parecem perder força.

Diante disto, há que se perguntar sobre o papel das Igrejas cristãs na nova conjuntura. Elas representam certamente o Ocidente, mas já têm uma tradição de defesa dos Direitos Humanos (e mesmo de opção preferencial pelos pobres), que lhes daria a necessária legitimidade para exercerem o papel mediador entre os dois blocos. Talvez elas possam hoje exercer um papel mais decisivo para a Paz mundial do que a própria ONU, a qual, por representar os Estados-membros, fica presa à lógica dos seus interesses. Concretamente, parece pouco provável que ela seja capaz de contrariar interesses do governo estadunidense, principalmente depois que Bush conclamou seus aliados a serrarem fileiras contra os inimigos dos EUA.

 

5.      Desdobramentos ideológicos: renasce o maniqueísmo?

Ao mesmo tempo em que desmoronavam as torres colossais, erguia-se, ameaçador, o pensamento maniqueísta como novo paradigma das relações internacionais. Na luta das forças do "Bem" contra o "Mal", não se admite posições intermediárias. Como sempre acontece, esse pensamento vem revestido com um manto religioso que postula a participação divina ao lado dos combatentes do "Bem". O escritor José Saramago, ateísta militante, denunciou esse uso do “fator Deus”, que não pode ser cúmplice da crueldade nem no terror nem nas guerras. Fica sua conclamação aos fiéis de todos os credos para que nome de Deus não seja invocado em vão. De fato, o paradigma maniqueísta vem desajeitadamente suprir a lacuna de uma ordem política internacional após a Guerra Fria, a qual, diferentemente de outras guerras, não culminou com um Tratado entre vencedores e vencidos. A derrota do socialismo soviético foi interpretada pela versão neoliberal como triunfo da civilização fundada no mercado e na democracia, com o desprezo pelas civilizações fundadas sobre outros princípios. Na ausência de bases sólidas para o ordenamento internacional, os EUA e seus aliados impõem as regras do jogo, como se estivessem sempre no lado do "Bem".

Nesse contexto, não há espaço para a contestação à "pax americana", nem mesmo quando os EUA desrespeitam direitos de outros povos. Bom exemplo é o caso de mercado mundial regido por uma concorrência cada vez mais feroz entre os países da periferia, enquanto os países ricos sempre encontram pretextos para protegerem seu próprio mercado interno. Na falta de instrumentos legais e efetivos de contestação, a revolta da periferia tende a assumir formas violentas, alimentando a espiral de terror entre as partes: se as grandes potências podem ter armas atômicas, químicas e biológicas, por que não os outros? Quem é capaz de definir o lado do "Bem" e o lado do "Mal"? A seguir valendo a lógica maniqueísta, o mundo caminhará em direção à barbárie.

 

6.      O papel da mídia: é possível saber a verdade?

O mundo acompanhou em tempo real os acontecimentos do dia 11 de setembro, através das imagens geradas principalmente pela CNN. Ela elaborou as imagens, transformando-as em espetáculo: dramático, catastrófico, pungente, mas respeitando o direito dos mortos a não terem suas vísceras expostas ao público. Ao mesmo tempo, ela dirigiu os sentimentos dos telespectadores para um alvo, apresentando palestinos que festejavam o êxito do atentado. Poucos dias após a transmissão, circulou pela internet a denúncia de que haviam sido reutilizadas imagens antigas, que estariam em poder de um professor universitário. A CNN desmentiu, dando como garantia a divulgação de nota assinada pelo reitor da mesma universidade. Mas ficou a dúvida: quem pode garantir a veracidade das notícias? O certo é que a primeira vítima da guerra é a verdade.

 

Participaram desta análise Pe. Bernard Lestienne, Carmen Lúcia Teixeira, Pe. Alfredo Gonçalves e Pe. Ernanne Pinheiro

 

Pedro A. Ribeiro de Oliveira - Assessor da CNBB para o Setor CEBs e Professor na Universidade Católica de Brasília – 25 / setembro de 2001

Retorna