DISCURSO DE MIGUEL URBANO RODRIGUES (PORTUGAL)
NO SEMINÁRIO "A RESISTÊNCIA À GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL",
INTEGRADO NO FÓRUM
SOCIAL MUNDIAL/RS
Porto Alegre, 26/01/2001
Estamos aqui reunidos em Porto Alegre neste Seminário integrado no Fórum Social
Mundial não apenas para debater a temática e a necessidade da resistência à
Globalização Neoliberal, mas também para refletir criativamente sobre idéias,
iniciativas e formas de luta que possam ser úteis no grande combate que a humanidade
é chamada a travar contra esse flagelo que configura cada vez mais uma ameaça
à própria continuidade da vida no planeta que é a pátria do homem.
A amplitude e a pujança crescentes desse movimento de resistência favorecem,
entretanto, pelo que há nele de espontâneo, confusões em torno do próprio conceito
de globalização que prejudicam o desenvolvimento da luta em curso. Nunca é demais
repetir que em si mesma a globalização, como fenômeno de reorganização do espaço,
da economia e das relações sociais, é um processo inelutável que expressa o
caminhar do homem e as prodigiosas conquistas por ele realizadas.
Aquilo que combatemos não é essa tendência, mas a engrenagem e os efeitos da
chamada globalização neoliberal cujos objetivos são antagônicos aos da globalização
da solidariedade entre os povos, a única que responde às aspirações da condição
humana.
Recordo essa evidência porque a idéia da globalização é antiqüíssima. Sob figurinos
diferentes, sistemas de poder com características muito diferenciadas foram
precursores de um mundo globalizado sob a sua hegemonia. Alexandre da Macedônia
sonhou com o Estado universal. Roma retomou o projeto e o Império Britânico,
transcorridos quase dois milênios, respondeu no seu auge por quase
metade da produção industrial e do comércio mundial.
A palavra globalização, essa sim, é recentíssima. Um dos primeiros a usá-la
foi, em 1983, o economista norte-americano Theodore Levitt para designar a convergência
dos mercados mundiais. O seu compatriota Kenichi Ohmae retomou o vocábulo para
qualificar o processo através do qual as transnacionais definiam regras de um
jogo que escapava ao controle dos Estados-nação e também a recomposição das
economias nacionais no seio de um sistema de transações e de processos que atuam
sobre a economia mundial.
Marx e Engels, já na segunda metade do século XIX encaravam a globalização do
capital como um processo inelutável, embora não previssem as formas que assumiria.
Nem isso era possível. A crise posterior à primeira guerra mundial atrasou a
globalização neoliberal. O keynesianismo, para salvar o capitalismo de um naufrágio
iminente, recorreu a soluções que fortaleceram o papel intervencionista do Estado,
mas, a partir do início dos anos 70, assistimos a uma regressão galopante dessa
tendência. Incentivadas pelo binômio Thatcher-Reagan, desenvolveram-se impetuosamente
estratégias assinaladas por um predomínio cada vez maior do mercado e um enfraquecimento
do Estado. Com a peculiaridade contraditória - fundamental para a compreensão
do sistema - de que nos EUA, o país sob cuja égide e impulso se desenvolveu
a globalização neoliberal - o Estado continuou a
agigantar-se e a sua capacidade de intervenção se ampliou em múltiplos campos.
Naturalmente, a implosão da URSS e o hegemonismo dos EUA tiveram um efeito enorme
na aceleração do novo rumo da economia mundial.
No inicio dos anos 90, a ruptura da organização mundial da produção, o agigantamento
das transnacionais, a expansão galopante dos fundos de pensões e o seu peso
decisivo nos mercados financeiros mudaram a vida no planeta onde o tempo passara
a ser universal e instantâneo, graças a uma revolução informática controlada
por um punhado de empresas.
A concentração de poder assusta. As 200 maiores firmas do mundo - segundo o
Banco Mundial e a Revista Fortune - representariam, em 1960, 17% do PIB mundial.
Essa percentagem subiu para 24% em 83 e em 95 superava já os 31%. As 500 maiores
empresas, com ativos de 32 trilhões de dólares, realizaram em 96 negócios no
valor de 11.400 bilhões obtendo lucros de 320 bilhões. Esses lucros são superiores
ao PIB de 43 países atrasados com mais de um bilhão de habitantes. O
volume de vendas anual dessas 500 empresas equivale ao dobro do PIB de 107 países
subdesenvolvidos, com mais de 4,5 bilhões de habitantes, incluindo a China e
a Índia.
O jogo do dinheiro nas bolsas assume proporções colossais. Somente as transações
realizadas no mercado de divisas representam diariamente 1.400 bilhões de dólares,
isto é, aproximadamente 50 vezes o valor das transações de bens ligadas à produção.
As atuais gerações são espectadoras e vitimas de uma subversão total do triângulo
histórico trabalho-produção-emprego. Os cinco primeiros fundos de pensões norte-americanos
gerem mais de 1 trilhão e duzentos bilhões de dólares, ou seja o equivalente
ao PIB da França.
As crises, até ao final da segunda guerra, eram cíclicas e espaçadas. Agora
há sempre crises em perspectiva no horizonte imediato. Acontecimentos inesperados
em remotos países da periferia provocam fulminantes transferências de capitais.
A crise na Ásia Oriental, iniciada na Tailândia, determinou por exemplo, no
primeiro
trimestre de 98, o repatriamento de mais de 300 bilhões de dólares para os países
industrializados do Centro.
As crises russa e brasileira fizeram estremecer os países do G-7. Quem paga
as faturas de cada uma dessas crises, autênticos tumores da globalização neoliberal,
é sempre o povo dos países dependentes por elas atingidos. O caso da Coréia
constitui um exemplo paradigmático dos efeitos de cada uma delas numa repartição
dos prejuízos e dos benefícios. Relatórios do Banco Mundial e do FMI registram
com satisfação a relativa rapidez da recuperação da economia, no tocante à produção
e ao PIB, daquele país da Ásia Oriental. Omitem, porém, o fator desnacionalização.
Uma parcela importante das grandes empresas coreanas foi transferida de mãos.
Hoje pertence às transnacionais que durante a crise as adquiriram por preços
baixíssimos.
Um discurso retórico e farisaico, repetido com poucas variações, pelos governantes
do G-7 e pelos porta-vozes da OCDE, da OMC, do FMI e do Banco Mundial, reconhece
a existência de tensões sociais e desigualdades resultantes do funcionamento
dos mecanismos da nova economia, eufemismo que os neoclássicos utilizam para
designar a engrenagem trituradora do capitalismo atual. É da praxe lamentar
a fome, a miséria, a ignorância, as epidemias, a devastação ecológica,
enfim os flagelos que assolam o mundo submetido à economia de mercado globalizada.
Chovem promessas. Mas os fatos estão aí. O incumprimento dessas promessas é
uma realidade. As percentagens do PIB destinadas à ajuda internacional aos países
mais atrasados em vez de se aproximar do nível dos compromissos assumidos é
cada vez menor.
Segundo o PNUD, as desigualdades entre os ricos e os pobres acentuam-se de ano
para ano; a exclusão social adquire, inclusive nos países industrializados,
proporções assustadoras (na UE há 35 milhões de pessoas que vivem na pobreza).
Em 1960 o quinto mais pobre da humanidade dispunha de 3% da renda mundial; em
1994, a parte que lhe cabia era apenas de 1,1%, quase um terço da anterior;
hoje é inferior a 1%. Entretanto, no último quarto de século a renda dos mais
ricos subiu de 69% para 86%.
Essa distribuição cada vez mais desigual da riqueza produzida é acompanhada
de uma redução igualmente brutal de benefícios sociais a que os setores mais
desfavorecidos tinham acesso. A supressão de conquistas sociais obtidas pelos
trabalhadores após lutas históricas coincidiu com a concentração do poder econômico.
O novo capitalismo implica um desafio às modalidades da solidariedade nacional
interna. Na sua pratica, mostra ser incompatível com o funcionamento do Estado
do Bem Estar Social. A transnacionalização das economias choca-se com a lógica
redistributiva do estado-nação. Os países
industrializados dão o mau exemplo. A saúde e a educação gratuitas deixam de
ser consideradas deveres do Estado para serem gradualmente transformadas em
negócios privados lucrativos cujos mecanismos alimentam a engrenagem dos mercados
financeiros. As contribuições dos trabalhadores são hoje o combustível que assegura
o gigantesco poder dos fundos de pensões.
PROCESSO TRANSITÓRIO
É a globalização neoliberal uma fatalidade, ou um fim?
Contrariamente ao que sustentam os seus adeptos, nomeadamente os orgulhosos
defensores de um capitalismo cognitivo que aspira ao monopólio de um saber cada
vez mais concentrado em pequenas elites desumanizadas, o tipo de globalização
divinizada pelos cérebros da nova economia será - tudo o indica - um processo
transitório, marcado por grandes fragilidades.
Fidel Castro colocou a questão há dois anos em Havana, dirigindo-se a economistas
de todas as escolas, vindos de todo o mundo. Na sua opinião terá uma duração
breve. A irracionalidade do processo torna-o extremamente vulnerável.
Foram em grande parte a covardia dos intelectuais e a capitulação mais ou menos
transparente da social democracia que criaram condições para o desenvolvimento
galopante em escala mundial do fenômeno da globalização neoliberal, inseparável
de um sistema de poder no qual a transnacionalização das economias cumpre um
papel fulcral.
Mas as premissas teóricas do sistema são falsas. A tirania dos mercados é uma
figura ficcional ideada pelos ideólogos da nova economia capitalista. A globalização,
como processo resultante do progresso civilizacional, não implica a vassalagem
dos estados, o alastramento da pobreza e do desemprego, a destruição das conquistas
sociais e das culturas nacionais, a agressão à natureza.
Contrariamente ao que sustenta, a engrenagem midiática controlada pelas transnacionais
da informática, o desaparecimento do Estado-nação não é uma exigência premente
da chamada aldeia global. A margem de manobra dos estados perante o flagelo
do neoliberalismo globalizado é considerável. A questão é que se disponham a
resistir.
No seu ensaio "Alto à OTAN", Samir Amin analisa as circunstâncias
em que os governos da União Européia, com o apoio do grande capital, decidiram
aceitar o preço da vassalagem, acompanhando os EUA em perigosas agressões, inseparáveis
da sua estratégia imperial.
Integrando na crise global do capitalismo crises ocorridas em áreas da periferia,
nomeadamente a do México, a da Rússia, a da Ásia Oriental e a do Brasil, Samir
Amin escreveu então "Os EUA nesta conjuntura caótica retomaram a ofensiva
para simultaneamente restabelecerem a sua hegemonia global e, em função desta,
reorganizarem o sistema mundial em todas as suas dimensões econômicas, políticas
e militares".
O envolvimento europeu em projetos norte-americanos como a agressão ao Iraque
e à Iugoslávia tem levado influentes politólogos a sustentar que essa situação
de dependência da União Européia se manterá por muito tempo. Tal opinião traduz
um subjetivismo transparente.
As contradições crescentes que opõem na área econômica os EUA à União Européia
manifestam-se também na área político-militar.
Não terá sido por acaso que no próprio momento em que o largo período de expansão
da economia americana finda, abrindo-se a perspectiva de uma recessão, a UE
tomou finalmente a decisão, repetidamente adiada, de criar uma força de intervenção
rápida de 100 mil homens com capacidade para intervir autonomamente em conflitos
regionais futuros. Não cabe aqui analisar os aspectos
negativos de um eventual renascimento do militarismo europeu. O que me parece
importante salientar é o fato de que Washington reagiu imediatamente, identificando
no projeto uma ameaça à hegemonia até agora exercida pela OTAN no terreno da
"segurança européia". A resposta européia foi naturalmente ambígua.
Mas é transparente que, independentemente das palavras conciliatórias, essa
nova força emerge como o embrião de um futuro exército europeu, numa clara
demonstração de que a UE não está disposta a aceitar eternamente a presença
militar norte-americana. Alguns analistas salientaram nos EUA que o fim da OTAN
é uma questão de tempo. Obviamente a UE é uma diversidade, com a peculiaridade
de o Reino Unido funcionar nela em muitas situações como uma quinta-coluna de
Washington.
Mas a própria dinâmica do neoliberalismo globalizado tende neste início do século
XXI a acentuar, e não a eliminar, as contradições existentes no âmbito da Troika
que, utilizando o G-7 e instituições internacionais como o FMI, o Banco Mundial,
a OMC e outras, atua como se fosse um governo mundial onipotente. Na frágil
aliança da EU e do Japão com os EUA as divergências, embora não sejam expressas
publicamente de maneira explicita, aumentam, bem como a sua
complexidade. Enquanto a Europa confia numa recuperação da sua moeda, o Japão
continua a desenvolver com paciência e discrição esforços tendentes à criação
na Ásia Oriental de uma zona yen, projeto que provoca alarme nos EUA. A sua
concretização poderia significar um golpe fatal para a hegemonia mundial do
dólar.
A convergência na Troika em torno de políticas que agravam a desigualdade no
mundo e aprofundam o fosso existente entre os países desenvolvidos (menos de
um quinto da humanidade) e os atrasados não impede a existência de grandes contradições
entre os EUA e os seus aliados. Essas contradições não se manifestam apenas
através de interesses econômicos conflitantes. Os sistemas de segurança social
europeus, embora enfraquecidos, subsistem. A sua supressão provocaria grandes
explosões sociais. Os mecanismos redistributivos na Europa estão ainda fundamentalmente
ligados a relações de classe herdadas do pós-guerra. Nos EUA, os sindicatos
e as organizações de massas dos trabalhadores nunca tiveram força para impor
reivindicações que na Europa haviam sido aceitas há muito pelo
patronato. Essa disparidade de situações sociais e culturais contribuiu decisivamente
para as elevadas taxas de crescimento econômico dos EUA, mas também para a queda
da qualidade de vida resultante do capitalismo selvagem norte-americano.
A globalização neoliberal é um movimento orientado para a homogeneização da
economia mundial ou de partes desta. Com a peculiaridade de ser concebido para
beneficio exclusivo de um reduzido numero de sociedades e em prejuízo da grande
maioria da humanidade.
É oportuno perguntar se estamos assistindo a uma convergência sistêmica da economia
mundial para um modelo planetário único baseado sobre a economia de mercado
e formas institucionais quase similares.
As respostas a essa questão fundamental são muitas e pouco claras. Em primeiro
lugar, é imprevisível, por ora, o desfecho do antagonismo já referido entre
o funcionamento do sistema de poder norte-americano e o resto do mundo, incluindo
o binômio UE-Japão.
A AMEAÇA IMPERIAL
A teorização norte-americana sobre o estado mínimo desconhece a história. Os
estados podem desaparecer. As nações subsistem quando eles são destruídos. Braudel
falava-nos do motor histórico a três tempos: o tempo longo das mentalidades,
o tempo médio da economia e o tempo breve do que é político. A formula é polêmica.
Mas o próprio debate por ela suscitado coloca-nos perante uma duvida: provoca
a globalização uma aceleração do ritmo geral da historia ou apenas uma reorganização
dos fatores que o determinam?
Estamos longe de um consenso. Mas basta contrapormos, por exemplo, a Argentina
à multidiversidade da Índia para sermos confrontados com a distancia que nos
separa da autentica aldeia global. A unificação das culturas tardará séculos,
talvez milênios, apesar da rede da Internet.
Segundo Zbignew Brzezinski, os EUA são já a primeira sociedade global da historia
e estão criando condições para impor uma cultura universal.
A afirmação, entretanto, é apressada e pouco responsável. Em primeiro lugar
uma cultura síntese tipo Mac World, como lhe chamam, seria uma anti-cultura
e portanto a antítese do fenômeno cultural.
Não precisamos saltar da América para a Ásia para captar a tenaz resistência
das culturas a mudanças bruscas mesmo no âmbito da mesma sociedade. Numa aldeia
da Alsácia quase tudo no modo de sentir a vida difere de uma aldeia da Provença.
No Brasil, a nacionalidade comum não apaga o abismo existencial entre um gaúcho
de Porto Alegre e um caboclo do sertão baiano. O funcionamento do sistema de
poder dos EUA tende a gerar ilusões entre os próprios cérebros que contribuíram
para o seu agigantamento e para lhe imprimir a ambição e agressividade que hoje
o caracterizam.
A faceta mais inquietante desse sistema é a aspiração à hegemonia universal
e perpétua sobre o conjunto dos povos da Terra. Essa ambição encontra-se formulada
em numerosos textos e, na perspectiva militar, num muito citado relatório secreto
do Pentágono, divulgado na edição de 8 de março de 1992 do New York Times.
É uma ambição tão megalômana que entra em choque frontal com a própria lógica
da globalização neoliberal, pois é incompatível com a supremacia do mercado
sobre o estado-naçao. Retomarei a questão mais adiante.
Antes parece-me útil chamar a atenção para o fato de o sistema de poder dos
EUA, no desenvolvimento de uma estratégia autônoma que ignora os mercados, insistir
numa política imperial que, pela sua irracionalidade, configura uma ameaça permanente
à paz mundial.
Não quero desviar-me do nosso tema e analisar aqui o significado da política
de destruição do Iraque como Estado independente após a guerra do Golfo. Também
não vou deter-me na política que levou à intervenção na Bósnia e à imposição
da falsa paz de Dayton, política que teve continuidade na agressão à Iugoslávia,
usando a OTAN como instrumento militar de um projeto mais amplo de dominação
dos EUA sobre o conjunto dos Bálcãs.
Chamarei, porem, a atenção para um aspecto importantíssimo da política de expansão
para o leste europeu, de que quase não se fala no Brasil, apesar de ela constituir
hoje uma peça fundamental da estratégia imperial dos EUA.
Em Março do ano passado, participei em Belgrado de um Seminário Internacional
de solidariedade com o povo da Iugoslávia. Durante esse evento, membros da delegação
russa, quase todos acadêmicos de prestigio, fizeram revelações importantes que,
lamentavelmente, não obtiveram divulgação no estrangeiro.
Um desses intelectuais, Vassilevich Morosov, esboçou um quadro assustador do
papel que a Rússia desempenha hoje como alvo e peça na estratégia do sistema
de poder dos EUA.
Na sua opinião, a guerra do Kosovo prosseguiu na Chechênia. E terá continuidade
noutros conflitos que Washington tentará criar (e financiar) artificialmente
no território russo, estimulando tendências separatistas latentes. O objetivo
é provocar a repressão, ou seja a intervenção do exército federal russo. O
sistema midiático
cumprirá então o seu papel. Pelo mundo afora a Rússia será acusada de espezinhar
os direitos humanos e de negar o direito à autodeterminação de um povo que se
bate pela liberdade. Os intelectuais ingênuos voltarão a morder o anzol. A Rússia
aparecerá perante a "comunidade internacional" - expressão que designa
cada
vez mais os EUA e os seus aliados - sentada no banco dos réus. Segundo Morosov,
depois da Chechênia chegará a vez do Daguestão. Posteriormente seria a Kalmuquia.
O concerto midiático trataria de pedir solidariedade para um povo descendente
dos mongóis, oprimido pelos russos a sudoeste do delta do Volga. O folhetim
perverso tende a repetir-se. A grande mentira do Kosovo funcionou como escola.
Afastar a Rússia do Cáspio e do leste do Mar Negro parece ser uma
prioridade para os ideólogos do sistema de poder dos EUA que traçam as linhas
mestras da estratégia de dominação imperial perpetua da "nação predestinada"
para tornar a humanidade feliz.
Não foi por acaso que na minha exposição entrei, embora superficialmente, pelo
afluente da estratégia norte-americana que visa a transformação da Rússia numa
potência periférica de segunda classe. Quis chamar a atenção para um confronto
muito complexo que se esboça já no horizonte. O componente político-militar
do sistema de poder dos EUA tende em tempo relativamente breve a entrar em
conflito com a estratégia do neoliberalismo globalizado, imposta pelas transnacionais
e aceita pela Troika. Ora, essa estratégia, como é do domínio público, coloca
o mercado acima dos Estados, admitindo que é do seu livre funcionamento que
dependem o rumo e o progresso da humanidade.
Para ser mais claro insisto num aspecto dessa temática muito pouco lembrado,
mas que, a meu ver, é prioritário na reflexão sobre o processo da globalização
neoliberal.
Refiro-me à complementaridade existente entre o poder imperial norte-americano
e a engrenagem financeira de um mercado que pretende funcionar com autonomia
absoluta, desconhece fronteiras e se sobrepõe aos Estados.
Estamos perante - repito - uma complementaridade que carrega as sementes de
futuros conflitos de proporções imprevisíveis. A globalização neoliberal não
seria aquilo que é sem o apoio, caberia dizer, o incentivo recebido dos Estados
da Troika e mais especificamente do sistema de poder dos EUA, a potência tutelar
do
moderno capitalismo.
Nunca é demais recordar o famoso desabafo de Thomas Friedman publicado no New
York Times. Esse destacado conselheiro de Madeleine Albright, ex-secretária
de Estado norte-americana, não hesitou em afirmar que - cito - aquilo de que
o mundo precisa, a globalização não funcionaria se os EUA não agissem com todo
o seu poder de superpotência. E por quê? Ele responde com cínica franqueza:
"a mão invisível do mercado nunca funcionará sem o punho invisível. Mac Donald não
pode ser prospera sem Mc Donell Douglas que construiu os F-15. O punho escondido
que garantiu um mundo seguro para a tecnologia de Silicon Valley chama-se o
exército, a aviação, a marinha e o corpo de fuzileiros dos EUA".
São múltiplas as mensagens desta confissão arrogante. Uma delas é dirigida aos
teólogos do mercado. Ela lembra-lhes que devem ser realistas na sua reflexão
sobre o papel do Estado. Sendo um fato que as políticas neoliberais são responsáveis
por uma drástica redução desse papel na quase totalidade dos países que a elas
se submeteram, não é menos verdade que a teorização sobre o Estado Mínimo,
brutalmente aplicada no Terceiro Mundo, não o tem sido nos principais países
capitalistas. No caso paradigmático dos EUA, o Estado agigantou-se e intervém
cada vez mais em todas as esferas da atividade humana, incluindo a econômica.
Dialeticamente, gerou-se uma situação potencialmente conflitante, pois a criatura
- o mercado que se arroga uma autonomia decisória praticamente ilimitada - tende
a entrar em choque com as próprias forças institucionais que lhe asseguraram
e asseguram o domínio atual que exerce no mundo onde impera a globalização neoliberal.
Os defensores mais ortodoxos da corrente que se autodefine como neoclássica-neoliberal
não tomam conhecimento das desigualdades que o funcionamento da globalização
imperial aprofunda dramaticamente em escala mundial. Na pratica a exclusão social
é eliminada do seu campo de visão e logicamente do seu projeto de economia-mundo.
A sua estratégia assenta os pilares na edificação compensatória de um paradigma
fictício, cimentado em harmonias imaginarias, crescimento
garantido e equilíbrios ótimos.
Estamos perante um paradigma imensamente ambicioso com pretensões cientificas
e aspirações à universalidade. Uma constante nele – como salienta Remy Herrera,
do CNRS de Paris - é a apologia de um capitalismo novo visto e apresentado como
o único concebível à luz da teoria. Esse sistema, suprema conquista da inteligência,
seria um horizonte inultrapassável. O norte-americano Francis Fukuyama, um
hegeliano fora de tempo, sintetizou a aspiração e a formula num livro-slogan
que correu pelo mundo: "O Fim da História".
Puro engano. A historia continua. São fantasistas os perfis de uma geografia
humana nova que traduziria o estado natural e definitivo da sociedade universal.
É muito cedo para se prever com um mínimo de rigor que efeitos terá no rumo
do processo da globalização neoliberal o arrefecimento comprovado da economia
norte-americana. Se ele evoluir, como muitos esperam, para uma recessão, as
contradições entre o sistema de poder dos EUA e o mercado financeiro serão agravadas.
Alan Greenspan, da Reserva Federal, não esconde a sua preocupação com "a
exuberante irracionalidade dos mercados". Stiglitz, o ex-chefe dos economistas
do Banco Mundial, exige hoje a urgente "regulamentação dos fluxos financeiros".
E George Soros expressa o desejo de um maior protagonismo dos Estados perante
o mercado, afirmando que "talvez seja ainda possível salvar o
capitalismo do neoliberalismo".
Mas a anarquia financeira introduzida pelo jogo do dinheiro nos mercados e as
devastações sociais dela inseparáveis criaram uma situação em que o criador
principia a ter medo da monstruosa criatura por ele concebida.
O enorme poder dos EUA não esconde as suas vulnerabilidades. Elas foram geradas
pelo sistema. Os EUA são o país mais endividado do mundo. A engrenagem da sua
economia funciona de tal maneira, prisioneira de interdependências tão complexas,
que bastaria por exemplo que o Japão suspendesse a compra de títulos do Tesouro
norte-americano e vendesse parte dos que acumulou para que os EUA caminhassem
para a falência. Claro que o Japão não tomará tal iniciativa. Porque ela o lançaria
também, tal como a União Européia, numa crise de proporções catastróficas.
O exemplo serve, porem, para iluminar a fragilidade dos mecanismos da hegemonia
norte-americana. O império cuja imagem de poder aparece no dólar como moeda
praticamente universal tem, afinal, pés de barro.
A CRISE GLOBAL E A ESPERANÇA
Nunca como no inicio deste Terceiro Milênio a humanidade concentrou tanto saber.
Se o usasse em beneficio de si mesma teria a possibilidade de erradicar do planeta
a fome, a miséria, a ignorância. As prodigiosas conquistas da revolução tecno-científica
permitiriam, se bem utilizadas, que as sociedades humanas evoluíssem
na Terra numa atmosfera de paz, progresso e bem estar crescentes. Mas aquele
que poderia ser o melhor dos tempos apresenta-se como o mais perigoso dos tempos.
A globalização neoliberal e o sistema de poder que lhe assegura o funcionamento
distanciaram-se da própria lógica do capitalismo clássico. Assumiram características
de fenômenos marcados pela irracionalidade. O novo capitalismo, a que Yann Moulier
Boutang chama capitalismo cognitivo, deixou se ser um problema da mais-valia
retida e da riqueza monetária. Transformou-se num objetivo louco. Em breve se
tornará incontrolável se o mecanismo não for quebrado. A
multiplicação do dinheiro como meta absoluta, a valorização do valor como estratégia
política assume, em sociedades dominadas pelo poder crescente das transnacionais,
um caráter quase religioso. Seria preciso um novo Kafka para descrever o absurdo
da engrenagem em que os homens do capital passam a ser funcionários a serviço
do dinheiro. Nesse sistema anti-humano os homens, como prevê o alemão Robert
Kurz, terão em breve de se vender a si mesmos como
combustível indispensável ao funcionamento da maquina do novo capitalismo.
Falei de irracionalidade. Uma irracionalidade que assume também uma
globalidade ameaçadora. Porque não se manifesta apenas nos mercados financeiros.
Ela está presente na ideologia e no funcionamento do componente imperial da
globalização neoliberal ou seja no sistema de poder que tem o seu pólo hegemônico
nos EUA.
O modelo de sociedade que esse sistema tenta impor na Terra não só é incompatível
com aquilo que de melhor existe na condição humana como envolve uma ameaça concreta
à própria continuidade da vida no planeta.
Nas ultimas décadas foram consumidos mais recursos naturais não renováveis do
que nos últimos dois mil anos. Essa dilapidação resulta de um modelo que, invocando
a civilização, reflete um espírito de barbárie. A devastação das florestas e
a desertificação avançam num ritmo alarmante. Milhares de espécies animais e
vegetais desapareceram no ultimo século. O uso de pesticidas altamente tóxicos
torna improdutivos milhões de hectares de terras. A pretexto de combater a droga
os EUA envenenam as águas dos rios da Amazônia colombiana. As emanações de dióxido
de carbono estão destruindo a capa de ozônio que garante a vida na Terra. O
governo dos EUA, principal responsável pela contaminação progressiva da atmosfera,
cede à pressão das transnacionais e nega-se a cumprir resoluções de
Reuniões de Cúpula internacionais relativas à defesa do planeta.
A agressão ao Ambiente assume os contornos de catástrofe ecológica. A grande
maioria da Humanidade, entretanto, não tem consciência da gravidade dos perigos
que a ameaçam.
Isso porque a produção e o controle da informação instantânea estão nas mãos
dos responsáveis pela situação criada.
A engrenagem político-econômica e militar que impõe a sua vontade aos povos
da Terra e promove a difusão do seu modelo de contra-civilização apresenta-se
como benfeitora da humanidade.
A farsa dramática da eleição presidencial nos EUA permitiu, na virada do século,
iluminar uma realidade pouco conhecida: o ventre apodrecido de um sistema de
poder que insiste em exibir-se como modelo de virtudes democráticas e defensor
de valores e princípios que ele próprio calca aos pés.
Um presidente sem prestigio colocado na Casa Branca no rescaldo de um processo
de contagem de votos marcado por incontáveis fraudes e pressões vai agora, dotado
de enormes poderes, dirigir um Estado que se arroga o direito de levar a guerra
a qualquer lugar do mundo em suposta defesa dos seus interesses vitais.
Esse presidente marionete, George W. Bush, será apenas um instrumento do sistema
de poder que pela ambição e irracionalidade constitui uma ameaça para o conjunto
da humanidade. Mas a consciência da sua própria fragilidade e mediocridade poderá
torna-lo paradoxalmente mais perigoso. Porventura não recorreu Clinton a agressões
armadas contra povos indefesos (Bósnia, Iraque,
Iugoslávia) para desviar as atenções de problemas internos, alguns pessoais,
que o incomodavam?
Mas a historia ensina-nos que não há impérios eternos. Embora a resistência
às forças políticas e econômicas que estão a empurrar o mundo para uma catástrofe
seja ainda descoordenada e insuficiente, ela vem crescendo de ano para ano.
É uma dupla resistência dirigida simultaneamente contra a tirania do poder imperial
e contra o poder mais fluido, menos direto mas não menos perigoso, exercido
pelos
mercados financeiros erigidos em guia da humanidade submetida á religião do
dinheiro.
É uma ilusão acreditar que o mundo tem um centro permanente em torno do qual
vegetam periferias cuja função seria servi-lo.
Por si só, o crescimento seguro da China e da Índia - países cujas
opções de desenvolvimento não figuram nas receitas dos teóricos da globalização
neoliberal -, os êxitos econômicos desses gigantes que concentram mais de um
terço da população da Terra - constituem uma advertência e uma esperança.
Gerard Kebabdjian, da Universidade de Paris- lembra-nos oportunamente que "o
fato de muitos atores disporem, muito ou pouco, de uma parcela de poder, convida
à criação de estruturas de cooperação e coloca um problema de organização à
potência hegemônica porque a existência de uma instancia simplesmente coercitiva
não basta para promover a convergência pretendida pelo hegemon como nos
sistemas hierárquicos".
Promovendo uma forma de transnacionalidade do seu interesse no campo das relações
econômicas e financeiras, as potências da Troika e especialmente os EUA tendem
a esquecer que outras modalidades da transnacionalização em marcha geram solidariedades
que funcionam como frentes de resistência planetária. É o que acontece já relativamente
às lutas que envolvem a defesa do Ambiente, a preservação de Culturas ameaçadas,
à recusa de políticas racistas no terreno da imigração e das que privatizam
a Seguridade Social e suprimem conquistas históricas dos trabalhadores.
Tensões sociais crescentes em escala planetária obrigam os sacerdotes do capitalismo
cognitivo a tomar, finalmente, consciência de que o espaço criado pela globalização
resulta do desenvolvimento de realidades financeiras, produtivas, culturais,
ecológicas, alimentares, biológicas e outras que estão ocorrendo em escala
mundial num complexo, perigoso, mas também fascinante processo de interações
cujo desfecho final é ainda uma incógnita.
Seminários como este, em Porto Alegre/RS inserem-se no amplo, indispensável,
mas ainda muito incipiente e descoordenado movimento de resistência contra a
ameaça que representa para o homem e para a vida a globalização neoliberal.
Nada, felizmente, está decidido. E os povos são o sujeito social da história.
O jornalista e intelectual
português Miguel Urbano Rodrigues é
especialista em análise política internacional.