Zero Hora de 16 de fevereiro de 2003. Edição nº 13694
Que Império será este?
DÉCIO FREITAS/ Historiador
O
objetivo estratégico do ataque contra o Iraque é estabelecer o controle dos EUA
sobre o Oriente Médio, não só por sua imensa riqueza petrolífera, como também
por sua condição de confluência de três continentes, por seu significado
simbólico-religioso para grande parte da humanidade e, não menos importante, por
seus conflitos que quase sempre comprometem a estabilidade mundial. A estratégia
se inscreve num processo de expansão do poder unipolar dos EUA que
necessariamente afetará toda a humanidade.
Começando pelo começo, a estratégia se definiu quando os EUA triunfaram na
Guerra Fria contra a Cartago soviética, convertendo-se na única superpotência,
ou potência unipolar do globo. No fim da Guerra do Golfo, em 1991, fizeram saber
ao mundo que estavam prontos a assumir o papel de líderes duma "nova ordem
mundial", visto serem a única potência capaz de intervir em qualquer região do
mundo. Oficialmente esta ambição foi expressa em maio de 1992 nas "Diretrizes
para a Planificação da Defesa" (Defense Planning Guimdance). Resumidamente,
cogitava-se de criar um "cinturão de segurança" planetário para conjurar as
ameaças regionais e, se necessário, combatê-las e vencê-las. Para tanto,
tratar-se-ia de impedir "todo rival até mesmo de aspirar a um papel igual".
Paralelamente a isso, os EUA declaravam-se decididos a ocupar o espaço econômico
mundial.
Os
EUA possuem hoje esmagadora superioridade nuclear, a força aérea do mundo e a
única autêntica marinha oceânica, enfim, uma capacidade única de exercer seu
poder no mundo. A vantagem é ainda maior na qualidade do que na quantidade,
através da aplicação à guerra da tecnologia mais avançada. Esta preeminência
militar custa apenas 3,5% do PIB. Como disse o historiador Paul Kennedy: "Ser o
Número 1 a alto custo é uma coisa; ser a única superpotência do mundo a um custo
tão barato é outra coisa". A dominância econômica ultrapassa a de qualquer
grande potência na história moderna. A Califórnia é sozinha a quinta potência
econômica do mundo, à frente da França. Os EUA são ainda a dominante potência
tecnológica e cultural. Nunca houve na história Estado que gozasse de tal
poderio, e não há perspectiva visível de que algum outro possa rivalizar com
ele. A União Européia rivaliza economicamente, mas não tem a possibilidade de
criar um sistema militar competitivo. Fala-se na China como capaz de enfrentar
os EUA, mas para isso será necessário, na melhor das hipóteses, pelo menos uma
geração. Este é hoje o status quo mundial.
Seja como for,
o césar americano terá um dia
que cruzar o seu Rubicão
Neste estado de coisas, o único obstáculo a que a potência unipolar estabeleça o
primado absoluto dos seus interesses estratégicos é a ONU, na qual depende da
aquiescência de Estados-membros dotados do poder de veto no Conselho de
Segurança. Então, de duas uma: ou se submete ao veto do Conselho, tornando-se
uma potência impotente que não será levada a sério por nenhum
"Estado-delinqüente", ou opera unilateralmente, colocando-se fora da lei
internacional e destruindo a ONU. Uma saída alternativa seria construir uma
maioria entre os que têm poder de veto no Conselho, o que tem sido tentado e não
deve ser considerado impossível. Pois os recalcitrantes ou são hoje
Estados-clientes, embora privilegiados, como os europeus, ou um Estado duma ou
de outra forma dependente, como a China. Todos eles opõem-se à guerra porque
terão de curvar-se a uma hegemonia ainda maior dos EUA. Seja como for, o césar
americano terá um dia que cruzar o seu Rubicão. Quando o fizer, sonhará à noite
que violou a mãe, tal como o romano?
A
palavra que acode para caracterizar o conseqüente status quo é, inevitavelmente,
Império. Muitos modernos Estados expansionistas adotaram o modelo do Império
Romano, mas copiaram muito mais os seus vícios do que as suas virtudes. Os povos
antigos aceitaram o status quo romano porque ele estabeleceu o primado da lei,
da ordem e da paz, solucionando uma crise em que se debatiam: infindáveis
desordens, matanças e pilhagens de reis ou príncipes tribais. Foi o que tornou o
Império Romano historicamente positivo.
Os EUA não têm uma tradição colonial como os modernos ex-impérios europeus. Serão com certeza um império informal. Sob pena de solapar sua própria base política interna - mesmo a política internacional é sempre, afinal de contas, política interna -, terão que promover a lei, a democracia e a paz no mundo. A menos disso, mais dia menos dia sucumbirão a alguma nova espécie de bárbaros. Nesse sentido, o 11 de Setembro vale como advertência.