Zero Hora de 23.03.2003
Apenas danos colaterais
DÉCIO FREITAS/ Historiador
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Historicamente premonitória, como toda grande obra de arte, a tela Guernica, de
Pablo Picasso, anunciava um novo tipo de guerra, ainda mais absurda e cruel do
que todas as guerras havidas - a guerra contra civis.
O
novo tipo de guerra se configurou às 16h45min do dia 26 de abril de 1937, numa
pequena cidade de 7 mil habitantes do País Basco - Guernica. Fazia um ano que a
Espanha mergulhara na mais destrutiva e homicida guerra civil do século 20, na
verdade o prefácio da II Guerra Mundial. O general Francisco Franco, que
chefiava a insurgência contra a república espanhola, aliara-se ao nazi-fascismo.
Os aviões nazistas da Legião Condor passaram a bombardear pesadamente posições
do exército republicano espanhol. E então, um dia, teve-se a idéia de testar os
efeitos do bombardeio da população civil numa cidade fora do teatro da guerra. O
dia era de feira em Guernica. Durante quase duas horas, os caças nazistas
despejaram toneladas de bombas sobre os habitantes de Guernica, matando quase
30% da população e destruindo inapreciáveis relíquias históricas da pequena
cidade basca.
Nas guerras do século 20, os civis, não os militares, passaram a ser as principais vítimas
Ainda hoje, nenhuma descrição ou foto dará uma idéia mais dilacerante do que é
um bombardeio de populações civis do que a tela de Picasso. Quem não puder vê-la
no museu Reina Sofia, em Madri, poderá vê-la em excelentes reproduções.
Excelentes porque a obra-prima, em branco e preto, numa textura plana, não sofre
as costumeiras distorções da reprodução em massa.
Os
líderes das potências nazi-fascistas acharam tão eficazes os efeitos do
bombardeio de populações civis urbanas - desorganização, aterrorização e
desmoralização do inimigo - que o empregaram em larga escala na II Guerra
Mundial. Como em toda luta somos condicionados pelo inimigo, também os aliados
acabaram por bombardear populações civis. Churchill autorizou idênticos
bombardeios contra o inimigo, principalmente na Alemanha. Mais dum milhão de
toneladas de bombas foram jogadas, não só sobre grandes cidades como Dresden e
Hamburgo, mas sobre pequenas cidades, num total de 131, matando 600 mil civis. A
II Guerra Mundial foi igualmente um holocausto de civis, não apenas de
combatentes militares. Na I Guerra Mundial, 5% dos mortos haviam sido civis. Na
II Guerra Mundial, os civis foram 50% do total de mortos. Já na guerra do
Vietnã, o total subiu para 90%. No total de 187 milhões de mortos em conflitos
bélicos durante o século 20, nada menos do que 70% foram civis.
O
bombardeio de Guernica quebrou um imemorial tabu, de natureza humana, cultural e
moral - o de que militares não podiam, numa guerra, matar civis. Nas guerras do
século 20, os civis, não os militares, passaram a ser as principais vítimas. O
que suscita uma pergunta: o século 21 manterá ou superará o século 20 no número
de vítimas civis nas guerras?
O
novo século abriu logo no seu primeiro ano com uma inovação sinistra em matéria
de morte de civis. No 11 de setembro, as vítimas foram na sua totalidade civis.
A matança não foi promovida por um Estado, através de seu exército. Não se
animou do propósito estratégico de ocupar território. Não foi um ato de guerra
convencional, nem se assemelhou à guerrilha do século 20, que visava a
conquistar o poder político dum Estado. Ninguém assumiu a autoria, ao contrário
do que sempre fizeram grupos políticos irredentistas.
A
retaliação americana, mediante ataque ao Afeganistão, presumido santuário dos
terroristas, também correspondeu a um novo tipo de guerra - a guerra high-tech,
empregada pela primeira vez na Guerra do Golfo de 1991: bombas "inteligentes"
jogadas por aviões invisíveis, a grandes altitudes. O principal objetivo
consistiu em minimizar o número de militares americanos mortos, evitando reações
negativas na opinião pública do país, como sucedera na Guerra do Vietnã. Justiça
seja, assessores jurídicos acompanharam as tropas americanas, orientando-as para
evitar a infração do jus in bello, mas embora ainda não se tenham cifras
precisas sobre o número de mortos nos dois conflitos, sabe-se ao certo que
morreram muito mais civis do que militares. A destruição de pontes, usinas
elétricas, refinarias de petróleo, reservatórios de água etc. é autorizada pelas
leis da guerra para reduzir seu custo material e militar, mas quem mais sofre
seus efeitos - morte, fome, frio, doenças, desabrigo - são os civis, não os
militares de ambos os lados.
O jargão militar inclui a morte de civis na categoria dos "danos colaterais". Um eufemismo perfeitamente cínico e imoral, convenhamos.