O Fórum Social Mundial e o Direito

 

MAGDA BARROS BIAVASCHI (Juíza do TRT da 4a. Região) e RAUL ZORATO SANVICENTE (Juiz do Trabalho)

 

A civilização do século 19 ruiu quando suas instituições entraram em colapso. Alicerçada num sistema de equilíbrio de poder, padrão-ouro, mercado auto-regulável e Estado liberal, seu sistema institucional tinha como chave as leis que governam a economia de mercado. Com seus destinos dirigidos pelo mercado, os homens e o ambiente natural viam-se despojados da proteção das instituições, sucumbindo ao assalto de moinhos satânicos.

No início deste novo século 21, acelera-se a unificação desigual do mundo sob a égide do capital financeiro. As grandes potências afirmam seu poder hegemônico. Os índices de pobreza e concentração de renda são alarmantes. As redes de solidariedade esgarçam-se frente à pressão do individualismo e da força dos valores da concorrência desregulada. Mesmo assim, adeptos do pensamento único insistem em retomar caminhos que se mostraram desastrosos no final do século 19. Presos a concepções individualistas e comprometidos com uma política econômica subordinada apenas aos comandos de um mercado auto-regulado, apostam na flexibilidade de direitos como forma de ”equilibra’ interesses e de “harmonizar” as relações sociais. Para eles, as formas de convivência que o mercado engendra são as únicas capazes de preservar a liberdade do individuo contra as pretensões de despotismo do poder político. Mas há os que pensam de forma diversa. Reunidos no Fórum Social Mundial, resistem. Discutem. Propõem. Acreditando que as promessas de liberdade, igualdade e fraternidade somente podem ser universalizadas quando a força desigualadora do capitalismo e os instintos destrutivos do homem são refreados pela ação do Estado e regulados por um estatuto fundado no interesse público e no bem comum, buscam formas mais soberanas de inserção no mundo globalizado e que afirmem a liberdade positiva.

No Fórum Social Mundial, o tema do Direito recebe destaque. Fórum esse que inaugura o milênio, sua cara é nova. Não mais a única, simbolizada pela gélida Davos. Mas múltipla, viva, de muitas cores. Experiência democrática, pluralista e de repercussão global, projeta Porto Alegre para além-fronteiras e inicia uma trajetória marcada pela crença de que um novo mundo é possível.

Em cerca de 420 oficinas, discutiram-se caminhos que possam levar a esse outro mundo. A sociedade, através das associações, sindicatos, ONGs, se fez atuante. Nessa diversidade, um não à globalização, centrada no poder do dinheiro que aprofunda a distância entre ricos e pobres. Entidades de operadores jurídicos, unidas, ofereceram oficinas com temas do mundo do trabalho, trabalho infantil, reforma do Judiciário, dívida externa, dano ambiental, ensino jurídico, informática, linguagem dos novos direitos e Direito versus Barbárie.

Na oficina Direito versus Barbárie, a partir de teses de diferentes locais do mundo, denunciou-se o aprofundamento das desigualdades sociais. Desnudou-se a lógica privatista das reformas do Poder Judiciário para a América Latina e Caribe propostas pelo Banco Mundial, oferecendo-se alternativas centradas numa visão de independência democrática e comprometimento social do Judiciário. Enfatizou-se o uso abusivo, no Brasil, das medidas provisórias. Sublinhou-se a importância do debate sobre a regulação do sistema financeiro internacional. Estabeleceu-se consenso quanto à importância do Direito como um estatuto civilizatório, com ênfase a direitos assegurados constitucionalmente, como um dos contrapontos à barbárie neoliberal, na perspectiva de um mundo possível. E a aprovação de moção reivindicando para Porto Alegre a sede do pr6ximo Fórum, além de expressar o sentimento dos operadores que acreditam no Estado democrático de direito e numa sociedade melhor, simboliza o aplauso ao Fórum Social e à sua continuidade, como forma de resistência ao assalto de moinhos satânicos.


Réquiem

 

PAULO DO COUTO E SILVA (Advogado)

 

 

O Fórum Social Mundial, reunido em Porto Alegre, cujos ecos ainda não se apagaram, reservou os seus mais calorosos aplausos a agitadores, narcotraficantes, inimigos jurados do Estudo de direito e, sobretudo, Cuba - assim apontada como modelo social e político daquele encontro.

Não houve, entretanto, nenhuma referência ao menino Elián, sobrevivente de naufrágio pouco antes ocorrido, em barco que pretendia atravessar da ilha para a costa americana. A preocupação maior, que levantou interesses políticos e reuniu multidões, em Cuba e na Flórida, estava em estabelecer em qual daqueles cenários se deveria processar a formação moral, cultural e cívica do futuro cidadão Elián.

Esse debate apagou a lembrança de outra personagem, vítima do trágico acidente - a mãe de Elián. Razões de imensa força haveriam de fazer com que essa senhora adotasse a opção quase suicida de se lançar a uma aventura marítima de 90 milhas de distância, entre a costa da ilha e a da Flórida, em embarcação precaríssima, em perigosas águas infestadas de tubarões. Ela sabia que, só no ano de 1992, cerca de 2,6 mil cubanos tentaram o mesmo caminho de fuga de seu país, mas a proporção de êxito nessas iniciativas foi sempre trágica - apenas um dentre quatro fugitivos chegou vivo às praias norte-americanas. No total, desde 1959, quando Fidel Castro alcançou o poder, foram cerca de 20 mil.

Mas a decisão da mãe de Elián fundava-se menos em buscar uma perspectiva de normalidade democrática, em país regido por uma constituição vigente havia mais de 200 anos, do que eliminar, mesmo ao preço de risco altíssimo, o desesperador pesadelo de viver em regime de contínua violência a todos os direitos básicos da cidadania, inexistentes em Cuba.

É de ampla notoriedade que durante largo tempo a URSS forneceu a Fidel Castro não apenas aportes financeiros mas também suas técnicas repressivas de eliminação das liberdades que compõem o Estado democrático de direito, suprimindo qualquer possibilidade de crítica ou de oposição política. Partidos e eleições são assuntos proibidos. Violações de direitos humanos, torturas, tanto físicas quanto psicológicas, seguem os rituais da melhor experiência stalinista. Execuções em massa, no celebrado paredón, constituem até hoje cerimônia de rotina. Em alguns casos, os fuzilamentos são precedidos pela retirada quase total do sangue das vítimas.

Todo esse painel de horrores está muito mais detalhadamente descrito no site da Anistia Internacional www.amnesty.org e também no www.nocastro.com, permitindo caracterizar o regime ditatorial cubano, iniciado em 1959, como distanciadamente o mais feroz e mais trágico já acontecido nas Américas.

A prova de ser tudo isso verdade está neste fato notório: milhares continuam fugindo do país e dos arbitrários controles policiais de suas vidas.

Foram exatamente essas evidências que levaram a mãe de Elián a tomar a dolorosa decisão, de suprema coragem e heroísmo, no sentido de correr o risco e enfrentar o desafio enorme. Decisão que envolvia a sorte do seu filho, a quem ela almejaria garantir o futuro, nos amplos horizontes de um país aberto e livre. Ela morreu, suas intenções acabaram por isso defraudadas. Mas o seu nome ficará esculpido na história, representativo de milhares de outros que também sonharam em trocar o país em que nasceram, agora mergulhado em barbárie, pela esperança e a alegria de uma vida melhor: Elizabeth Broton - heroína de Cuba, pela Liberdade.

(Zero Hora de 08.02.2001 – pg. 21)

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