O DISSENSO DE PORTO ALEGRE
O contraponto entre o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), e o Fórum
Social Mundial, em Porto Alegre, oferece oportuno material para reflexão. O
primeiro reúne autoridades, acadêmicos e empresários que constituem a nata do
capitalismo mundial. O encontro da capital gaúcha congrega grupos de esquerda
dos mais diversos matizes. Foi concebido para operar como um anti-Davos.
Se o encontro da Suíça é incomparável em termos de importância e de tradição,
é preciso reconhecer que Porto Alegre dá eco a um mal-estar que tem crescido
em todo o mundo.
O capitalismo globalizado tem uma capacidade de produzir riqueza sem precedentes
na história. Oferece grandes oportunidades. Ao mesmo tempo, gera e acentua
diferenças sociais. A crença de que o mundo deve seguir um modelo monolítico
condena a humanidade a uma estreiteza tão fatalista quanto duvidosa.
Num certo sentido, o presidente Fernando Henrique Cardoso está correto ao
afirmar que a manifestação de Porto Alegre é ingênua. Na multiplicidade de
grupos que acorreram à capital gaúcha, há quem acredite em propostas
realmente simplórias, incluindo a possibilidade de "derrotar" o
capitalismo pela luta armada.
Há muitas idéias verdadeiramente obsoletas, como a recusa a priori de novas
tecnologias. Os motivos vão do temor do desemprego à crença de que tudo o que
tem um dedo da ciência se opõe à natureza, tornando-se intrinsecamente mau.
Verificam-se até mesmo uniões improváveis, como a de agricultores europeus,
liderados pelo folclórico francês José Bové, e brasileiros, cujos
interesses, em princípio, são opostos. Embora Porto Alegre pretenda ter um caráter
construtivo, é altamente improvável que dali surjam propostas consistentes de
reforma da ordem econômica mundial.
Mas, num outro sentido, é o próprio presidente quem desmente sua biografia e
seu discurso para consumo externo ao criticar o encontro de Porto Alegre da
forma que o fez. O presidente, que já exerceu a sociologia de esquerda,
pretende ser um porta-voz dos países em desenvolvimento quando está no
exterior. Aqui opõe-se a tentativas de organizar reivindicações típicas de
nações pobres.
Se há uma força capaz de imprimir sentido social à lógica da economia, ela
está na mobilização de parcelas da sociedade. A social-democracia européia,
convém lembrar, surgiu como decorrência de movimentos sociais fortes e no
contexto da ameaça comunista.
O encontro de Porto Alegre e o movimento que ele representa, incluídos os
protestos em Davos, herdeiros dos de Seattle, já concorreram para modificar o
discurso de instituições e foros multilaterais, que ganhou contornos sociais.
Com o colapso do bloco comunista, os movimentos sociais se retraíram. O
consenso de Washington se impôs. Ideólogos mais exaltados chegaram a falar em
fim da história.
A convergência era circunstancial. Os movimentos sociais seguem em baixa, mas
hoje poucas são as vozes que ainda arriscam falar em consenso. Na verdade, a idéia
de que o capitalismo globalizado precisa incorporar países e populações
marginalizados está mais perto de tornar-se um consenso do que os princípios
ultraliberais que, em passado recente, nortearam a abertura econômica em todo o
mundo.
Davos e Porto Alegre têm, ambos, sua razão de ser. Se o capitalismo pretende
prosperar, vai ter de dar pelo menos algumas respostas para as dificuldades de
parcelas significativas da população mundial. Porto Alegre serve para lembrar
isso.