São Paulo, domingo, 28 de janeiro de 2001 (Folha de São Paulo)


O DISSENSO DE PORTO ALEGRE

O contraponto entre o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), e o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, oferece oportuno material para reflexão. O primeiro reúne autoridades, acadêmicos e empresários que constituem a nata do capitalismo mundial. O encontro da capital gaúcha congrega grupos de esquerda dos mais diversos matizes. Foi concebido para operar como um anti-Davos.
Se o encontro da Suíça é incomparável em termos de importância e de tradição, é preciso reconhecer que Porto Alegre dá eco a um mal-estar que tem crescido em todo o mundo.
O capitalismo globalizado tem uma capacidade de produzir riqueza sem precedentes na história. Oferece grandes oportunidades. Ao mesmo tempo, gera e acentua diferenças sociais. A crença de que o mundo deve seguir um modelo monolítico condena a humanidade a uma estreiteza tão fatalista quanto duvidosa.
Num certo sentido, o presidente Fernando Henrique Cardoso está correto ao afirmar que a manifestação de Porto Alegre é ingênua. Na multiplicidade de grupos que acorreram à capital gaúcha, há quem acredite em propostas realmente simplórias, incluindo a possibilidade de "derrotar" o capitalismo pela luta armada.
Há muitas idéias verdadeiramente obsoletas, como a recusa a priori de novas tecnologias. Os motivos vão do temor do desemprego à crença de que tudo o que tem um dedo da ciência se opõe à natureza, tornando-se intrinsecamente mau.
Verificam-se até mesmo uniões improváveis, como a de agricultores europeus, liderados pelo folclórico francês José Bové, e brasileiros, cujos interesses, em princípio, são opostos. Embora Porto Alegre pretenda ter um caráter construtivo, é altamente improvável que dali surjam propostas consistentes de reforma da ordem econômica mundial.
Mas, num outro sentido, é o próprio presidente quem desmente sua biografia e seu discurso para consumo externo ao criticar o encontro de Porto Alegre da forma que o fez. O presidente, que já exerceu a sociologia de esquerda, pretende ser um porta-voz dos países em desenvolvimento quando está no exterior. Aqui opõe-se a tentativas de organizar reivindicações típicas de nações pobres.
Se há uma força capaz de imprimir sentido social à lógica da economia, ela está na mobilização de parcelas da sociedade. A social-democracia européia, convém lembrar, surgiu como decorrência de movimentos sociais fortes e no contexto da ameaça comunista.
O encontro de Porto Alegre e o movimento que ele representa, incluídos os protestos em Davos, herdeiros dos de Seattle, já concorreram para modificar o discurso de instituições e foros multilaterais, que ganhou contornos sociais.
Com o colapso do bloco comunista, os movimentos sociais se retraíram. O consenso de Washington se impôs. Ideólogos mais exaltados chegaram a falar em fim da história.
A convergência era circunstancial. Os movimentos sociais seguem em baixa, mas hoje poucas são as vozes que ainda arriscam falar em consenso. Na verdade, a idéia de que o capitalismo globalizado precisa incorporar países e populações marginalizados está mais perto de tornar-se um consenso do que os princípios ultraliberais que, em passado recente, nortearam a abertura econômica em todo o mundo.
Davos e Porto Alegre têm, ambos, sua razão de ser. Se o capitalismo pretende prosperar, vai ter de dar pelo menos algumas respostas para as dificuldades de parcelas significativas da população mundial. Porto Alegre serve para lembrar isso.

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