Folha de São Paulo de 27/01/2003
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante discurso em que defendeu fundo internacional para o combate à fome |
Dinheiro viria dos países do G-7 e de grandes investidores; para Clinton, custo
seria "modesto"
Em Davos, Lula propõe fundo internacional contra a fome
CLÓVIS ROSSI - ENVIADO ESPECIAL A DAVOS
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs ontem um "pacto mundial pela paz e contra a fome", cujo primeiro passo seria a criação de um "fundo internacional para o combate à miséria e à fome nos países do Terceiro Mundo, constituído pelos países do G-7 e estimulado pelos grandes investidores internacionais".
A proposta foi apresentada durante o discurso de Lula em sessão plenária do encontro anual 2003 do Fórum Econômico Mundial e teve consequência imediata.
Klaus Schwab, o empresário e professor suíço que preside o fórum, conversou com
Lula sobre a criação de uma força-tarefa conjunta Davos/Porto Alegre para
estudar detalhes para a implementação do fundo.
O ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que também conversou ontem com
Lula, classificou a proposta de "uma boa idéia, consistente com a declaração de
Doha e com a tese de que os países ricos devem gastar mais dinheiro para ajudar
os países pobres".
A declaração de Doha é o documento final da Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, realizada na capital do Qatar, e que decidiu pela realização de nova rodada de negociações comerciais, voltada justamente para o desenvolvimento.
Clinton afirmou que o custo seria modesto, a julgar pela avaliação dos gastos com uma série de programas sociais a favor de países pobres.
Já Nancy Birdsall, especialista em programas de combate à pobreza, enquanto foi funcionária do Banco Mundial, defendeu o conceito (reduzir as assimetrias entre ricos e pobres), mas criticou o instrumento (novo fundo). "É melhor aperfeiçoar os mecanismos já existentes no Banco Mundial e no próprio Fundo Monetário Internacional", acha Birdsall, hoje presidente do Centro para o Desenvolvimento Global (EUA).
O discurso de Lula em Davos foi coerente com a sua idéia original de construir uma ponte entre os fóruns da Suíça e de Porto Alegre. "(A ponte) não é uma idéia nova, mas, para dar certo, é preciso algo concreto. O fundo é uma coisa concreta que pode ser discutida pelos dois fóruns", disse depois o presidente, em uma conversa informal com um grupo de jornalistas brasileiros.
O discurso e os encontros em Davos renderam outros dividendos. Bill Gates, o legendário dono da Microsoft, discutiu com o presidente brasileiro a criação no Brasil de pólos de desenvolvimento de software (programas de computadores), claro que financiados pela Microsoft ou pela Fundação Bill e Melinda Gates.
Seria uma empreitada semelhante à que a Índia vem desenvolvendo com êxito há
algum tempo.
Além de um possível investimento, Gates se disse disposto a doar software para
escolas, bibliotecas e outros organismos públicos. Anunciou que um emissário seu
irá em breve ao Brasil para discutir os detalhes.
Por fim, o megainvestidor George Soros, que havia dito à Folha em junho que o eleitorado brasileiro seria forçado pelos mercados financeiros a escolher entre José Serra, candidato do governo, e o caos, agora está disposto a ajudar Lula.
Discutiu com o presidente brasileiro não o fundo internacional por ele proposto, mas um equivalente exclusivamente no Brasil.
"O senhor pretende investir nesse fundo?", perguntou a Folha a Soros: "É preciso separar as coisas. Eu tenho uma fundação e tenho investimentos. Investimentos são estritamente para lucro".
Além do "pacto mundial pela paz e contra a fome", o discurso de Lula foi muito mais Porto Alegre que Davos, como, de resto, já ocorrera na noite anterior, em sua fala no "Jantar Iberoamericano".
É verdade que Lula voltou a citar a Carta ao Povo Brasileiro, na qual o PT se comprometeu a respeitar contratos, manter a inflação sobre controle e o equilíbrio fiscal -todos itens sagrados para os investidores.
É igualmente verdade que jogou a isca da ampliação da infraestrutura no Brasil, "com a participação de capitais estrangeiros".
Mas a essência da fala foi ou social ou de crítica às desigualdades tanto no plano interno como entre países.
Exemplo: "Mais de dez anos após a derrubada do Muro de Berlim, ainda persistem muros que separam os que comem dos famintos, os que têm trabalho dos desempregados, os que moram dignamente dos que vivem na rua ou em miseráveis favelas, os que têm acesso à educação e ao acervo cultural da humanidade dos que vivem mergulhados no analfabetismo e na mais absoluta alienação". Criticou duramente o protecionismo dos países ricos: "De nada valerá o esforço exportador que venhamos a desenvolver se os países ricos continuarem a pregar o livre comércio e a praticar o protecionismo".
Acrescentou, já na fase de perguntas e respostas: "Podem ficar certos de que vocês vão ouvir falar muito de um presidente briguento e que defende os interesses de seus país. Não queremos ser tratados como cidadãos de segunda categoria. Respeito é bom, nós damos e gostamos de receber".
Terminada sua experiência no Fórum de Davos, motivo de polêmica no PT e em círculos ligados ou simpáticos ao partido, Lula ironizou: "O fantástico é que vou voltar para o Brasil e meus companheiros do Fórum Social Mundial vão perceber que estou voltando inteiro, ninguém comeu nenhum pedaço de mim. E o Lula não comeu nenhum pedaços deles (o pessoal de Davos)". Foi prolongadamente aplaudido.
Folha de São Paulo de 26/01/2003
No
Fórum Social, ministro se contrapõe a debatedores e critica proposta de
suspensão do pagamento da dívida externa por países pobres
Dirceu defende taxa social sobre capital
PLÍNIO FRAGA - ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE
O
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, defendeu ontem a taxação do fluxo do
capital financeiro internacional. "É uma taxa que seria usada para o combate à
fome e à miséria no mundo", declarou o petista.
Dirceu participou de uma "mesa de diálogo e controvérsia" no Fórum Social
Mundial em que o tema era a crise econômico-financeira mundial.
Bastante aplaudido pelas cerca de 1.500 pessoas presentes ao ginásio de esportes
Gigantinho, anexo ao Estádio do Beira-Rio, Dirceu posicionou-se de forma mais
conservadora do que os demais debatedores.
Num dos momentos mais aplaudidos da discussão, a parlamentar argentina Alicia
Castro defendeu a suspensão do pagamento da dívida externa por parte dos países
pobres. Foi apoiada pelo ugandense Yashpal Tandon, integrante de uma organização
não-governamental africana.
"Suspender o pagamento da dívida externa levará à suspensão do pagamento da dívida interna, o que significa prejudicar também os poupadores internos. Consequentemente, além de aumento da inflação e do desemprego, essa medida não trará unidade nacional. Significa desligar o país do circuito financeiro internacional. Não é viável nem politicamente", contra-argumentou Dirceu a uma platéia silenciosa.
"Não
adianta pagar e abrir mão de investimento sociais e de definir uma política
nacional própria. Não se tratar de obter dólares do sistema financeiro
internacional. Mas de parar com que levem os dólares que produzimos", rebateu
Castro.
Dirceu também defendeu o diálogo com os Estados Unidos, criticado por sua
preponderância política, econômica e militar.
"Não é uma boa política o confronto ideológico com os americanos. O Brasil já
tem um contencioso enorme comercial, diplomático e militar. Discordamos deles
sobre a Colômbia, sobre Cuba, sobre o Protocolo de Kyoto [que prevê redução da
emissão de gases poluentes], sobre o Tribunal Penal Internacional. A margem de
manobra não é grande", afirmou o ministro da Casa Civil.
O ponto comum entre os debatedores -entre os quais ainda estavam Eveline Herfkens (coordenadora de metas de desenvolvimento da ONU), Mark Weisbrot (de uma ONG dos EUA) e Patrick Viveret (ONG francesa)- foi a condenação da guerra contra o Iraque. "É uma aventura. Não se pode dizer o que acontecerá no lado econômico e político", analisou o ministro brasileiro.