São Paulo, sábado, 25 de janeiro de 2003

FÓRUM SOCIAL/FÓRUM ECONÔMICO: DIÁLOGO POSSÍVEL?

Em discurso em Porto Alegre, em que foi bastante aplaudido, presidente faz críticas aos EUA e explica o motivo de sua ida a Davos

Lula se vê como "esperança dos socialistas"

 

Sergio Moraes/Reuters

 

Lula discursa para mais de 70 mil pessoas durante o Fórum Social Mundial, ontem, em Porto Alegre

 

KENNEDY ALENCAR - ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE

Aclamado no Fórum Mundial Social, em Porto Alegre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicou a uma multidão de cerca de 70 mil pessoas o motivo de sua ida a Davos, onde ocorre o Fórum Econômico Mundial, e disse que seu governo "é a esperança dos socialistas do mundo inteiro".
"Vou dizer em Davos que não é possível que poucos possam comer cinco vezes ao dia e que muitos passem cinco dias sem comer no planeta Terra." E prometeu defender "uma nova ordem mundial", na qual riquezas sejam divididas de forma mais "justa".
Num discurso de improviso, emocional e com tom de esquerda bem ao estilo e gosto do público do evento, Lula marcou diferenças com os EUA. Criticou a possível guerra contra o Iraque: "O mundo não está precisando de guerra, está precisando de paz". Condenou o gasto com guerras, dizendo que seria melhor usar o dinheiro para comprar alimentos e matar a fome nos países pobres.
Ainda na parte em que deu estocadas nos EUA, Lula disse que não podia aceitar "o que acontece há 40 anos, o bloqueio americano" a Cuba". A pregação contrária à guerra do Iraque e pelo fim do bloqueio a Cuba são bandeiras do Fórum Social que Lula disse querer discutir em Davos.
O presidente, o primeiro a participar do Fórum Social, disse que só foi convidado para Davos devido aos membros do FSM.
Lula contou que chegou a ter dúvida sobre a ida aos fóruns. Ao justificar a ida a Porto Alegre, disse que o fez por ser o anfitrião do encontro, por presidir o Brasil, e recomendou que governantes compareçam aos próximos eventos do tipo. Ele prometeu ir à quarta edição do Fórum Social, em 2004, na Índia.

Reeleição e socialismo
Foi ainda o primeiro evento público no qual a multidão pediu a reeleição de Lula. Quando ele dizia que teria quatro anos para tentar cumprir suas promessas de campanha, o público gritou várias vezes: "Oito, oito, oito [anos"".
Desde o começo do discurso, Lula adotou uma retórica emocionada, que lembrava os comícios de campanha, para ganhar a platéia, estimada entre 70 mil e 80 mil pessoas, segundo a PM gaúcha. Os organizadores temiam que o presidente fosse vaiado por ter decidido ir a Davos, encontro "rival" de Porto Alegre por reunir representantes das grandes corporações empresariais e das maiores potências do planeta.
Mas não houve vaias. Pelo contrário. Lula foi aplaudido diversas vezes. "Eu não fui eleito por apoio de um canal de TV. Eu não fui eleito pelo sistema financeiro. Eu não fui eleito por interesses dos grupos econômicos. Eu não fui eleito por obra da minha capacidade ou inteligência. Eu fui eleito pelo alto grau de consciência política da sociedade brasileira em 27 de outubro de 2002", disse, sobre o dia do segundo turno da eleição.
Em alguns momentos, os olhos do presidente marejaram e sua voz embargou. Lula, que até ontem dizia que sabia que não podia errar, subiu o tom das perigosas expectativas que ele mesmo admitiu terem sido criadas por sua eleição: "Eu não vou errar".
Ao falar das expectativas, Lula voltou a pedir paciência. Afirmou que tentará cumprir suas promessas com "tranquilidade" e que explicará à população os motivos de eventuais feitos que não conseguir realizar. Disse que parte dos problemas dos países pobres "pode ser culpa dos países, mas uma parte é culpa de uma parte da elite" dos países pobres, que não teriam governado a favor do povo.
Lula disse ter consciência do tamanho da expectativa depositada nele e em seus ministros, muitos dos quais presentes ao discurso.
"Nunca vi na história do Brasil tanta expectativa, esperança, tanta gente pedindo a Deus para a gente acertar, pedindo, não emprego, mas dizendo para mim: "Lula, como eu faço para ajudar o nosso governo a dar certo?".
Lula disse que o êxito de seu governo ajudará outros políticos de esquerda a chegar ao poder. "Eu sei a esperança que os socialistas do mundo inteiro têm no sucesso do nosso governo. É por isso que aumenta a nossa responsabilidade." Falou de governantes latino-americanos que "saíram do poder por ter praticado verdadeira roubalheira em seus países".
Citou Fernando Collor, o peruano Alberto Fujimori, o argentino Carlos Menem e o mexicano Carlos Salinas. Disse querer ter o governo mais "honesto da história".
Bem-humorado, brincou com os aplausos à primeira-dama. "Se a Marisa continuar com essa popularidade, vai ser candidata a alguma coisa na próxima eleição."


"O meu desejo de ser presidente da República era o de saber se, eleito, eu seria capaz de atender às minhas própria reivindicações"
"Qualquer governo em qualquer país do mundo pode errar, porque é muito normal que governantes errem. Mas eu não posso errar. (...) Eu sei a expectativa que estou gerando. (...) Eu não vou errar"
"Quando surgiu o convite para Davos, em princípio eu falei: "O que é que eu vou fazer em Davos?"
"Não podemos aceitar o que está acontecendo durante 40 anos, bloqueio em Cuba, não podemos aceitar que países sejam marginalizados durante séculos e séculos"
"Eu sei a esperança que os socialistas do mundo inteiro têm no sucesso do nosso governo. É por isso que aumenta a nossa responsabilidade"
"Até a vitória, se Deus quiser, companheiros"
 


TANTAS EMOÇÕES

Em café da manhã, junto com cantor mirim, de 6 anos, presidente promete tirar crianças da rua

Lula chora e canta com ex-menino de rua

DOS ENVIADOS ESPECIAIS

Luiz Inácio Lula da Silva chorou ontem ao encontrar o adolescente Daniel Bastos, um ex-menino de rua que completa hoje 17 anos, e o garoto Luan Conceição, um cantor de músicas gauchescas de apenas seis anos.
Segundo Daniel, Lula prometeu "tirar da rua todos os meninos de rua". Indagado se a promessa não era muito difícil de cumprir, disse: "Acredito nele e que ele vai conseguir fazer isso".
Daniel e Luan participaram de um café da manhã com o presidente, num hotel da capital gaúcha, onde se realiza o Fórum Social Mundial. O encontro foi um presente de aniversário para Daniel, atendido pelo Programa de Atenção Integrada a Crianças e Adolescentes em Situação de Rua, um dos principais projetos sociais da prefeitura de Porto Alegre, administrada pelo PT.
Segundo contou Daniel, ele disse a Lula que, assim como o presidente, morou em favela e passou fome. Ao ouvir isso, o presidente teria dito que os dois tinham uma história de vida semelhante. Foi quando Lula o abraçou e chorou, disse Daniel.
O cardápio do café da manhã era o mesmo da Escola de Porto Alegre, onde estudam ex-meninos de rua como Daniel: achocolatada, chimia (uma pasta doce tradicional do RS) de morango e pão. Luan, que conheceu Lula num comício durante a eleição e que emocionou o então candidato ao cantar para ele, repetiu seu repertório ontem. Cantou "Querência Amada", dos gaúchos Osvaldir e Carlos Magrão.
Lula chorou ao ouvir o garoto cantar o seguinte trecho: "Quem quiser saber quem sou/ Olhe para o céu azul/ Cante junto comigo/ Viva o Rio Grande do Sul".
Emocionado, o presidente resolveu cantar outra música, "Gaúcho de Passo Fundo", de Teixeirinha, que tem um trecho que diz: "Sou gaúcho lá de Passo Fundo/ Trato todo mundo com muito respeito/ Mas se alguém me pisar na Pala/ Meu revólver fala e o bochincho está feito".
O presidente convidou Daniel e Luan para visitá-los em Brasília. Ambos disseram ter gostado do encontro. "Já dei muitas entrevistas", disse Daniel, contente com o assédio da imprensa.
(KA e PF)
 

Retorna