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Zero
Hora, Porto Alegre, 23 de janeiro de 2003. Edição nº 13670Editorial Na encruzilhada do planeta
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A
realização do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, que hoje abre
solenemente sua terceira edição consecutiva, tem o sentido histórico,
reconhecido globalmente, de buscar novos caminhos para a sociedade humana.
Nasceu como o contraponto à esquerda daquele conjunto de idéias e políticas
articuladas a partir do Consenso de Washington, transformadas em práticas
governamentais que se espalharam pelo mundo pelas experiências do presidente
Ronald Reagan e da primeira-ministra Margaret Thatcher e estimuladas pelo Fórum
de Davos, que abre hoje sua 33ª edição. Para a sociedade brasileira, o FSM tem
também um sentido elogioso e destacável: ele se originou de iniciativas
concretas e prosperou graças ao amplo e irrestrito clima de liberdade que o país
conquistou depois da Constituição de 88. Sem essas duas circunstâncias
conjugadas, muito dificilmente Porto Alegre teria tido condições de ser essa
alternativa a Davos e essa sementeira de idéias e projetos.
Com rituais e climas distintos, os dois importantes fóruns de discussão de âmbito mundial estão sendo abertos com a marca das profundas transformações registradas no último ano no cenário internacional. As conseqüências mais visíveis são uma inegável moderação no tom dos discursos do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e, da mesma forma, o inédito espaço aberto em Davos para as manifestações de organizações não-governamentais críticas às deformações da globalização. Sintomática, neste sentido, será a presença do presidente brasileiro nos dois eventos, retratando essa distensão e simbolizando a necessidade de pontes entre os mundos.
O fórum tem o mérito
de agitar uma diversidade
impressionante de idéias
Nos
dois casos, os eventos propõem uma redefinição nas relações globais entre
economia e sociedade, o que é positivo tanto no que diz respeito às propostas de
líderes de organizações da sociedade reunidos no Brasil como de líderes
políticos e empresariais que se encontram na Suíça. O fato de o encontro de
Davos ter privilegiado justamente a necessidade de restabelecimento na
confiança, como forma de contornar problemas gerados pelos escândalos contábeis
em grandes corporações, a fragilidade financeira exposta pelos atentados
terroristas nos Estados Unidos e a ameaça de guerra, entre outros fatores de
perturbação mundial, favorece a discussão de uma nova ordem mundial. O
restabelecimento da confiança na capacidade do mercado de fornecer respostas,
objetivo ambicionado pelos líderes mundiais, abre mais espaço para a ênfase à
solidariedade, que é o objetivo dos representantes sociais reunidos em Porto
Alegre.
Estão em causa, pois, os caminhos do mundo para o século 21. Gestos de generosidade e de compreensão recíproca ou críticas ao unilateralismo, à insensibilidade e à guerra surgem como necessários e inevitáveis no começo de um ano em que as sombras de conflitos armados toldam os horizontes mundiais. Mesmo sendo um conclave predominantemente de esquerda, com pouco espaço para contrapontos, o FSM de Porto Alegre tem o mérito de agitar uma diversidade tão impressionante de idéias e iniciativas que o torna um pólo efervescente do que há de mais criativo num planeta que tenta encontrar caminhos. Por isso e por colocar o nome de Porto Alegre de maneira tão expressiva na encruzilhada das idéias de um mundo novo, a cidade e os gaúchos não podem deixar de se sentir orgulhosos por terem a honra e a responsabilidade de sediá-lo.