Zero Hora de30/01/2003 - Editorial

A engrenagem da guerra

 

Depois de ter consumido bilhões de dólares, levado mais de 100 mil soldados à região do Golfo Pérsico e ter-se tornado quase inevitável pelo comprometimento retórico do governo norte-americano, a Guerra contra o Iraque parece agora marchar sem retorno, fazendo girar uma engrenagem que adquiriu vida própria, dinâmica independente e, de alguma maneira, fugiu do controle das autoridades mundiais. O discurso do presidente George W. Bush sobre "o estado da União" norte-americana, pronunciado na noite de terça-feira, parece confirmar essa realidade, eis que desafia a opinião - contrária à guerra - da maioria de seus aliados internacionais e joga toda a pressão da instituição presidencial norte-americana para reverter a crescente perda de apoio interno.
 

O discurso do presidente não deixou dúvidas quanto à convicção norte-americana em relação ao perigo do regime iraquiano e de sua ligação com o terrorismo internacional, em especial com a Al-Qaeda de Osama Bin Laden. A afirmação reiterada de que "horas cruciais" estão por ocorrer e de que "os prazos estão se esgotando" indica que a guerra é iminente, com ou sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU, com ou sem o apoio dos aliados tradicionais, com ou sem os riscos para a estabilidade internacional. Ao afirmar que usará em sua plenitude o poderio militar para desarmar Saddam Hussein, o presidente Bush mostrou-se convencido e tentou convencer de que há uma ameaça clara e imediata. Tal ameaça estaria no "desprezo total" do regime iraquiano pela ONU, na continuação de seus programas de fabricação e estocagem de armas químicas e biológicas e nas pretensões hegemonistas sobre a região. São de alguma maneira os mesmos argumentos políticos que os adversários fazem ao próprio Bush, de desprezar a ONU e ter pretensões imperiais no Oriente Médio.

O Brasil não pode
deixar de adotar medidas
que reduzam o impacto
interno do conflito

Os efeitos do conflito, que será mundial por seus reflexos econômicos e diplomáticos, já são sentidos num planeta que vê o preço do petróleo subir e a confiança despencar. Numa comunidade internacional que está cada vez mais convencida de que nenhum país é uma ilha, o uso de critérios unilaterais - que, como no caso, se chocam com os interesses gerais da humanidade - representa uma demonstração de prepotência incompatível com o status cultural e civilizatório adquirido pelas democracias. Não há motivos para decisões e ações apressadas, sem o aval de provas indesmentíveis de que o regime de Bagdá efetivamente esconde arsenais que põem em risco a estabilidade e a paz de outras nações. Todas essas restrições, no entanto, se tornam frágeis diante do aparato bélico que já está em movimento nos mares e nos céus que cercam o Oriente Médio.
 

Para o Brasil, que defende o direito dos povos à autodeterminação, que proclama a ONU como instância necessária e que acredita na capacidade do diálogo, a guerra representa uma frustração. Além disso, para um país como o nosso, que precisa de um ambiente internacional estimulante para resolver seus próprios problemas, o conflito chega em péssima hora. Por isso, além de somar-se ao esforço internacional para tentar inverter a tendência, o Brasil não pode deixar de adotar as providências que reduzam o impacto da guerra sobre sua economia.

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