São Paulo, quarta-feira, 31 de janeiro de 2001 (Folha de São Paulo) - COLÔMBIA

Vigência de área sob controle da guerrilha, que vence hoje, deve ser estendida, apesar da suspensão do diálogo

Sob pressão, Pastrana deve prorrogar zona das Farc

Reuters

Guerrilheiros das Farc fazem patrulha em San Vicente del Caguán diante de cartaz contra o Plano Colômbia, financiado pelos EUA


O governo colombiano estuda uma fórmula para prorrogar a vigência da zona desmilitarizada concedida às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em 1998, que expira hoje à meia-noite, e ao mesmo tempo reativar as negociações de paz com a guerrilha, congeladas desde novembro.
A credibilidade do processo de paz com o principal grupo guerrilheiro colombiano está em seu nível mais baixo desde o início do diálogo, em 1999, por causa da falta de resultados concretos em mais de dois anos.
O governo condiciona a manutenção da zona desmilitarizada ao retorno das Farc à mesa de negociações, abandonada em novembro sob a alegação de que o governo não combate os grupos paramilitares de direita que atacam os guerrilheiros.
Apesar de a guerrilha se manter inflexível diante dos apelos do governo, é pouco provável que o presidente Andrés Pastrana opte por um enfrentamento para a retomada da zona desmilitarizada.
Num episódio que poderia agravar a situação, um avião comercial da companhia aérea colombiana Satena, que transportava 31 pessoas, foi sequestrado ontem à noite em San Vicente del Caguán, que se localiza dentro da zona comandada pelas Farc.
O avião foi levado para o aeroporto de Bogotá, e a polícia cercou a área em torno dele. O sequestrador havia libertado três pessoas até o fechamento desta edição.
A identidade do sequestrador não foi divulgada. Especulou-se inicialmente que se tratava de um membro das Farc, mas a informação foi refutada por líderes da guerrilha marxista. Houve até quem dissesse que o sequestrador fazia parte de um grupo paramilitar, o que não foi confirmado.
Um oficial da Força Aérea colombiana, que não quis ser identificado, disse que se tratava de um desertor das Farc, mas isso não foi confirmado oficialmente.

Reforço militar
Na semana passada, o Exército aumentou seu efetivo no entorno da região, de 2.500 para 3.100 soldados. Apesar disso, Pastrana havia afirmado que não pretendia entrar em confronto com a guerrilha. Até ontem à tarde, no entanto, o governo afirmava que não havia ainda tomado nenhuma decisão sobre o assunto.
A zona desmilitarizada, de 42 milhões de km2 ao sul do país (área pouco maior que a Suíça), foi concedida em novembro de 1998 como condição para que as Farc, o maior grupo guerrilheiro do país, iniciasse negociações de paz com o governo.
Ontem, Pastrana se reuniu com diversas lideranças políticas e chefes das Forças Armadas para discutir o impasse nas negociações de paz.
O líder das Farc, Manuel "Tirofijo" Marulanda, pede que o governo prorrogue indefinidamente a vigência da zona desmilitarizada e que mostre o que está fazendo para controlar os grupos paramilitares como condição para voltar à mesa de negociações.
A vigência da zona desmilitarizada já havia sido prorrogada por Pastrana uma vez, em dezembro, como demonstração de boa vontade para as negociações.
Nas últimas semanas, o comissário de paz do governo, Camilo Gómez, esteve reunido diversas vezes com Marulanda para tentar reativar as negociações, mas os encontros foram infrutíferos.
Gómez disse ontem que o governo ainda não havia tomado nenhuma decisão, mas que Pastrana não decidiria motivado pelas pesquisas de opinião.
Segundo diversas sondagens divulgadas nas últimas semanas, três em cada cinco colombianos não querem a prorrogação.
"As decisões do processo de paz não devem ser tomadas pelas pesquisas. A paz neste país não é controlada pela popularidade de uma pessoa (Pastrana)", afirmou Gómez.
Pastrana vem recebendo, desde a semana passada, diversos apelos de líderes políticos locais e internacionais para que estenda a vigência da área e não entre em confronto com a guerrilha.
Representantes da ONU, da União Européia e do governo dos Estados Unidos, que financia grande parte do Plano Colômbia (de combate ao narcotráfico), pediram a Pastrana que mantivesse a zona desmilitarizada.
A Colômbia vive uma guerra civil há 36 anos, intensificada na última década, quando mais de 35 mil pessoas morreram. (DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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