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Zero Hora: 18/01/2003.Edição nº 13665 Entrevista
Um novo país é possível José Luís Fiori, economista CINTIA MOSCOVICH
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A globalização não alterou as contradições do capitalismo: imagem do ensaio "Rocinha", de André Cypriano |
José
Luís Fiori, professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, uma das vozes mais respeitadas de sua área no cenário
nacional e internacional, traz ao 3º Fórum Social Mundial o volume O Vôo da
Coruja, obra lançada originalmente em 1984, agora em edição revista e ampliada.
Detendo-se sobre o núcleo político do esgotamento desenvolvimentista, Fiori
esquiva-se de recorrer aos argumentos ideologicamente liberais ou teoricamente
neoclássicos, lugares-comuns nos anos 90. A seguir, ele fala ao Cultura
(Caderno Cultura).
Cultura - O Vôo da Coruja retoma, segundo o prefácio, uma discussão
interrompida pela avalanche do neoliberalismo sobre as contradições do
"desenvolvimentismo conservador". Pode-se hoje apontar os grandes erros das
políticas neoliberais?
José Luís Fiori - Acho que sim, hoje já é possível ver que, por
trás das políticas neoliberais, havia um diagnóstico errado do que foi a crise
brasileira dos anos 80 e uma aposta equivocada sobre a natureza das
transformações mundiais das últimas duas décadas do século 20. Para os liberais,
a crise dos 80 foi uma crise fiscal provocada pelo excesso de intervencionismo
estatal e pelo populismo econômico, segundo eles a falha fundamental do
desenvolvimentismo em toda a América Latina. Por outro lado, apostaram na tese
de que a globalização apontava para a derrubada das fronteiras e para uma
integração através dos mercados que promoveria o crescimento e a convergência da
riqueza. Na verdade, a crise dos 80 não foi fiscal nem teve nada a ver com
populismo, conceito estranho quando referido à ditadura militar. E a aposta na
natureza convergente da globalização se mostrou equivocada.
Cultura - O sr. foi um dos críticos mais ferrenhos do governo Fernando
Henrique Cardoso. Já se pode ter uma idéia do que representou a era FH para o
Brasil?
Fiori - Foi um período em que o governo brasileiro abandonou a
estratégia desenvolvimentista e apostou na possibilidade de um crescimento
econômico sustentado através da integração "virtuosa" da economia brasileira no
circuito financeiro internacional. Os resultados econômicos e sociais,
entretanto, foram medíocres. Mas as mudanças liberais desta última década não
apenas perdurarão: elas pesarão decisivamente no futuro brasileiro, porque foram
muito radicais e profundas. Para começar, a forma em que foi feita a
estabilização e a maneira como o governo se aferrou à idéia do equilíbrio
fiscal, junto com a desregulação financeira e a abertura comercial, provocou
efeitos de longo prazo: aumentou enormemente a nossa dívida e nossa fragilidade
financeira externa e nosso déficit na balança de pagamentos. Além de ter
desorganizado seriamente nosso sistema de infra-estrutura, desmontou a
capacidade estruturante do Estado brasileiro. O relativo sucesso no combate à
inflação acabou se transformando na contraface de um modelo que se sustentou
ancorado por altas taxas de juros, endividamento externo, corte sucessivos dos
investimentos e gastos sociais públicos e perdas salariais contínuas. Condições
que impediram um crescimento alto e sustentado da economia. As altas taxas de
juros, que foram sistematicamente superiores às taxas de inflação e de
crescimento, se transformaram na fonte de expansão contínua dos desequilíbrios
macroeconômicos que aprisionam as políticas públicas. Para sair desse impasse,
as autoridades brasileiras recorreram ao endividamento e apostaram no
investimento externo abundante, gerando déficits e dívidas em contínua expansão.
Do ponto de vista estrutural, desmontou-se o velho tripé desenvolvimentista. O
setor público perdeu fôlego em favor do capital privado internacional, que
abocanhou também uma boa parte da indústria brasileira. Houve uma gigantesca
troca de patrimônio, mas não houve uma inovação na composição do capital privado
brasileiro. A novidade foi a entrada de novos bancos e sócios nas privatizações,
sobretudo na telefonia. Essas transformações estruturais, junto com a abertura
comercial, permitiram uma modernização micro-econômica que não foi acompanhada,
entretanto, pelo aumento sistêmico da competitividade. Pelo contrário, sem
políticas específicas e investimentos públicos, desmontou-se a infra-estrutura,
romperam-se cadeias produtivas, e, como conseqüência, aumentaram as importações
de bens de capital, com pressão adicional e estrutural sobre nossas contas
externas. Do ponto de vista social, o balanço é ainda um pouco pior. O Plano
Real de 1994 inicialmente reduziu a inflação, expandiu a economia e reduziu o
desemprego. Mas a partir do segundo semestre de 1996 houve reversão, o
desemprego aumentou e os salários caíram a uma média de 7% ao ano. Segundo um
estudo recém-publicado pela Unicamp, mas com base em informações do IBGE, a
desigualdade social agravou-se no Brasil entre 1992 e 1998, enquanto a massa
salarial que era de 44% do PIB, em 1993, caiu para 36% no final da década. A
participação dos lucros no PIB, durante o mesmo período, passou de 35% para 44%
do PIB. O desemprego aumentou, com cifras que variam em torno de 16% em todas as
metrópoles, e a renda per capita cresceu quase nada, ou mesmo caiu 6%, no ultimo
ano, quando medida em dólares, como aparece nos Indicadores Mundiais de
Desenvolvimento do BIRD.
Cultura - Na edição de 1984 de O Vôo da Coruja, o sr. dizia-se incapaz
de prever o desdobramento da crise. Já há, hoje, possibilidades de fazer algum
prognóstico?
Fiori - Estou otimista com relação ao futuro e ao longo prazo,
apesar de que o futuro imediato será complicado e enfrentará inúmeras crises. O
que parece essencial neste momento, entretanto, é que o país parece disposto a
construir um futuro diferente. Depois de um século republicano de resistência
conservadora, a grande novidade é a vitória de um partido de esquerda com um
projeto popular e nacional de democratização do desenvolvimento, uma inovação
histórica, em todos os sentidos. A viabilidade do projeto dependerá de sua
capacidade de mobilizar o povo e construir uma vontade nacional, obrigando as
elites a se voltarem para sua própria terra e sua gente. Se isso ocorrer, o
Brasil passará a ter uma posição e um poder externo independente do contexto
mundial conservador e recessivo, até porque o mundo precisa de substitutos na
hora da morte da utopia da globalização.
Cultura - Um dos temas mais candentes do Fórum Social tem sido a
globalização. Alega-se que os países da periferia capitalista são empurrados
cada vez mais para a periferia. O que há de procedente nessa verdadeira e
constante grita?
Fiori - A primeira coisa é esclarecer sobre o que se quer dizer
exatamente quando se fala em processo de globalização. O economista
norte-americano John Kenneth Galbraith, por exemplo, declarou numa entrevista
que "a globalização não é um conceito sério", afirmando em seguida que "nós, os
americanos, inventamos esse conceito para dissimular nossa política de entrada
econômica nos outros países". Tendo um pouco mais de boa vontade do que ele,
entretanto, é possível reconhecer na palavra globalização uma referência
imprecisa a um conjunto de transformações mundiais, políticas e econômicas, que
começaram na década de 1970, mas que se aceleraram na década de 1990. Sobretudo
no campo da integração financeira dos mercados nacionais de capital, e no campo
da afirmação inconteste do poder imperial norte-americano. Quando falamos em
"processo de globalização" portanto estamos nos referindo ao mesmo tempo ao que
foi uma tendência permanente do próprio sistema moderno capitalista e
inter-estatal, e a uma conjuntura particular deste processo em que a
desregulação dos mercados e a vitória americana na Guerra Fria deram um novo
impulso à integração financeira da economia mundial. Como no século 19, as
palavras mágicas voltaram a ser o "livre-câmbio", "o livre-mercado", etc, etc,
pedra angular da utopia liberal desde o século 18. Mas desde o século 18 o
livre-câmbio promete o crescimento e a convergência da riqueza de todos os
povos. E o que se assistiu neste 200 anos, como agora nesta nova conjuntura de
hegemonia das idéias liberais, foi um aumento constante da concentração da
riqueza e do poder em algumas regiões do mundo e nas mãos apenas de alguns
povos. Outra idéia muito associada à palavra globalização, como um fato ou como
um desejo, é a do fim dos estados ou de sua importância na "lógica global do
sistema", como se pode ler, por exemplo, no livro Império, de Michael Hardt e
Antonio Negri, dois autores de esquerda. Do meu ponto de vista, se trata de uma
idéia equivocada que não coincide com o que de fato ocorre no sistema mundial,
que sempre foi hierarquizado e dirigido por um pequeno núcleo de grandes
potências. Aconteceu que o número de Estados independentes passou de algo em
torno de 60 para 190, nos 50 anos posteriores à II Guerra Mundial, e a grande
maioria destes novos Estados nunca foi soberano, se é que em algum momento foram
efetivamente Estados. Com a hegemonia das idéias e da utopia neoliberal da
globalização, depois do fim da URSS e da Guerra Fria, acreditou-se que o Sistema
Mundial pudesse ser governando apenas através do poder ou da política econômica
das Grandes Potências e em particular dos Estados Unidos, e que, além disso,
elas promoveriam uma convergência da riqueza das nações. No final da década já
se via o fracasso dessa utopia, mesmo antes que o governo Bush trouxesse de
volta a "política do poder e das armas". Rapidamente, as pessoas compreenderam
que a tal da "governança global" só é possível na medida em que as grandes
potências e sobretudo a potência hegemônica ou imperial empreste seu poder para
que seja possível operar o tal governo global. Essa potência só empresta esse
poder na medida em que as ações conseqüentes mantenham ou defendam seus
interesses. Essa é a contradição insalvável do sistema, às vezes esquecida pelos
teóricos ou ideólogos da globalização.
Cultura - E qual é, segundo seu juízo, a importância do Fórum Social
Mundial?
Fiori - É muito grande na medida em que se transformou num ponto de encontro de centenas de movimentos sociais de todo mundo, a maior parte deles sem militância partidária direta e sem envolvimento na luta pela tomada de governos voltados para políticas de desenvolvimento. Em geral representam causas parciais ou segmentadas. Neste sentido, o Fórum recoloca o velho problema das relações entre as lutas nacionais e as causas e mobilizações internacionalistas. Muitos lhe cobraram soluções e planos concretos de governo. Mas o Fórum não é, nem poderia ser, uma reunião destinada a formular um projeto alternativo de governo. É um encontro entre centenas de movimentos sociais com programas absolutamente claros e afirmativos. Como as causas são especificas e heterogêneas, recoloca-se a tensão entre os movimentos sociais e a política, e o desafio de juntar todos esses programas num projeto maior. Isso só se pode fazer na política, e a política só pode ser eficiente onde exista poder a ser conquistado. Nenhum projeto maior e de síntese política terá sentido se não existir esse centro de poder, e esses centros de poder seguem organizados de forma territorial e nacional. Essa sempre foi uma dificuldade para todos os internacionalismos "anti-sistêmicos". A globalização atual não alterou algumas condições e contradições do capitalismo, e ainda existem coisas que jamais serão globalizadas, porque não é do interesse das grandes potências, como é o caso da pobreza que os europeus exportaram para a América, mas isso já não se repetirá. Ou seja, as redes de dominação imperial e das altas finanças se globalizam, mas os espaços de luta dos trabalhadores, pobres e excluídos segue delimitado pelas fronteiras dos estados nacionais.