Fome zero

Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente de honra do Partido dos trabalhadores)

Nada menos de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo. No Brasil, são no mínimo 32 milhões, mais de 9 milhões de famílias, homens, mulheres e crianças que sofrem no dia-a-dia em meio a mais de 54 milhões de brasileiros pobres, quase um terço da nossa população. Esta segunda-feira, 16 de outubro, é o Dia Mundial da Alimentação, que a ONU instituiu e celebrará sob o lema “Milênio Livre de Fome", em comemoração ao aniversário de criação da FAO, em 1945.

O que o Brasil tem a comemorar em relação à fome? Na semana passada, a notícia que marcou as manchetes dos principais jornais do país informava que a pobreza voltou a crescer no Brasil durante o primeiro ano do segundo mandato de FH. Somente em 1999, mais 3,1 milhões de brasileiros - o equivalente a quase toda a população do Uruguai - passaram a não ter renda suficiente para comer, vestir-se e cuidar da saúde e da educação, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao Ministério do Planejamento. Em 1998, 33,4% da população brasileira vivia na pobreza. No ano passado, o percentual de pobres subiu para 34,9%.

Esses percentuais são altos, mas não frios. Por trás deles, há milhões de pessoas sofrendo. Uma das principais motivações para a minha luta política é a de acabar com a fome no Brasil. Tenho dito e repetido que somente haverá um mínimo de cidadania verdadeira em nosso país quando todo brasileiro puder fazer pelo menos três refeições por dia.

Já em 1991, apresentamos à sociedade uma proposta de política pública voltada para enfrentar o grave problema da fome no Brasil. O Instituto Cidadania, com a participação decisiva do saudoso José Gomes da Silva, entre muitos outros especialistas, produziu o projeto “Política Nacional de Segurança Alimentar", que inspirou a Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida, mais conhecida como "Campanha do Betinho".

Nesse projeto, já afirmávamos que é preciso realizar mudanças estruturais nas políticas agrária, agrícola, de abastecimento e de emprego para poder acabar com a fome no Brasil. Como nada disso foi feito, o que restou foi a parte assistencial da proposta, que é importante, mas não resolve o problema. Todos se lembram do exemplo de consciência e solidariedade que foi dado por parcelas significativas da sociedade brasileira durante toda a campanha do Betinho.

É por isso que é preciso retomar, ainda com mais vigor e profundidade, a luta contra a fome no Brasil. E este é um momento especial: mais de 5,5 mil novos prefeitos e dezenas de milhares de vereadores, eleitos este ano, tomarão posse nos seus cargos no dia 1o. de janeiro de 2001, no alvorecer do novo século e do novo milênio. Seria bom que todos eles assumissem um compromisso fundamental com a população brasileira que os elegeu: fome zero neste país no menor prazo possível.

O Instituto Cidadania se propõe a contribuir mais uma vez para resolver esse flagelo que infelicita tantos milhões de brasileiros e lhes encurta a vida e as esperanças. Um novo projeto será feito, reunindo os melhores especialistas em diversas áreas, apontando as mudanças estruturais indispensáveis e os prazos e custos de todas as principais medidas. Escolhi esse Dia Mundial da Alimentação para informar à sociedade brasileira dessa nova iniciativa. No próximo 7 de novembro, faremos a primeira reunião para debater o conteúdo geral do projeto com os primeiros especialistas convidados.

Nós acreditamos que o Brasil tem todas as condições para enfrentar e vencer o problema da fome. Somos um país continental, com um povo forte e trabalhador. Temos condições naturais, técnicas e de cérebros para produzir toda a alimentação de que precisamos. A fome hoje no Brasil é uma questão muito mais ligada à falta de poder aquisitivo de grande parte da população urbana e rural do que à insuficiência da oferta de alimentos.

Podemos fazer muita coisa, em nível municipal e estadual, para avançarmos em direção a essa meta de fome zero em nosso país. Mas precisamos ter consciência de que isso só será plenamente alcançado se continuarmos lutando para mudar o rumo da política econômica desse governo, que subordina os interesses do nosso país ao FMI e só faz aumentar o número de pobres e famintos no Brasil. (ZH – 15.10.2000)

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