Porto Alegre, Zero Hora de 28/01/2003.- Editorial
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Os fóruns e a paz
Ao optar por uma manifestação contra a guerra como
marco simbólico do encerramento dos trabalhos do Fórum Social Mundial 2003, os
participantes do encontro externaram um ponto em comum com a maioria dos
presentes ao Fórum Econômico Mundial na Suíça. Ao mesmo tempo, ratificaram o
discurso antecipado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para militantes de
esquerda em Porto Alegre, que diante da elite econômica em Davos propôs um pacto
internacional pela paz e contra a fome. Além de lembrar que o país defende a
solução de controvérsias "por vias pacíficas e sob a égide das Nações Unidas", o
presidente advertiu que o fanatismo e a intolerância emergem muitas vezes de um
caldo de cultura engrossado pela fome e a miséria. O alerta de um
ex-sindicalista habituado a transitar entre pólos opostos precisa servir para
conter intransigências tanto entre os que se reuniram ao Norte como ao Sul.
Como lembrou o presidente em Davos, num recado
válido também para os que deram ênfase ontem ao debate de saídas pacifistas no
encontro de Porto Alegre, a paz não é só um objetivo moral. É, também, "um
imperativo de racionalidade". O discurso que acabou marcando o ponto alto dos
dois fóruns surgidos e mantidos até agora pelo antagonismo é coerente com a
trajetória do presidente. Na quarta tentativa de chegar ao poder, e já durante a
campanha eleitoral, ficou visível a tentativa de colocar em prática a
alternativa ao ideário dominante em Davos e em Porto Alegre que o sociólogo
inglês Anthony Giddens batizou de terceira via. Ao se definir por uma política
econômica alinhada com a de seu antecessor e a da maioria das nações
desenvolvidas, mas com ênfase no social, mostrou que o modelo pode ir além de
promessas eleitorais. Na prática, é a concretização de ações que, até os
atentados de 11 de setembro, vinham sendo debatidas tanto por influentes líderes
europeus como pelos ex-presidentes Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso.
Enquanto o mundo se prepara para um
confronto,
Davos e Porto Alegre têm um papel importante
para desarmar espíritos
Até mesmo pela preocupação de tentar conciliar os
avanços sociais sobre as bases atuais da estabilidade, o governo brasileiro dá
um exemplo de que os debates nos dois maiores eventos mundiais de discussão de
idéias podem ser conflitantes, mas são também complementares. Como ressalta o
economista e cientista social Eduardo Gianetti, se o quadro econômico se
complica, o desempenho social acaba comprometido. Ou, nas suas próprias
palavras, "o sonho desprovido de senso prático naufraga; o senso prático
desprovido de sonho não voa". A aproximação entre esses dois pólos é uma missão
para a qual o próprio Brasil e os brasileiros precisam descobrir o seu próprio
caminho. Com a fragilidade de sua economia e as graves carências na área social,
porém, o país precisará contar com efetivo apoio externo para ser bem sucedido.
É positivo, portanto, que enquanto o mundo se prepara mais um confronto, Davos e Porto Alegre têm um papel importante para desarmar espíritos, ainda que de forma incipiente. Depois de abrir espaço para a mensagem do presidente brasileiro contra a fome e pela paz, o Fórum de Davos precisará agora confirmar que é capaz de levá-la adiante. Da mesma forma, é impositivo que o Fórum de Porto Alegre deixe de ser excludente com aqueles que não compartilham integralmente do ideário socialista. Acima de tudo, é essencial que os dois fóruns rejeitem todos os tipos de intolerância, como forma de assegurar pelo diálogo um mundo de menos miséria e mais paz.
O relatório e a guerra
A sorte da paz ou da guerra poderá ser proclamada
solenemente hoje no discurso do presidente George W. Bush fará ao Congresso
sobre o "estado da União". A ausência de conclusões objetivas por parte da
equipe de inspetores de armas, que ontem apresentaram seu relatório ao Conselho
de Segurança pedindo mais tempo à ONU e mais colaboração ao Iraque, não chegou a
constituir fato novo na aparentemente implacável marcha dos acontecimentos.
Quase ninguém duvida que, qualquer que tivesse sido o relatório dos inspetores,
não afetaria uma decisão sobre o conflito que, tudo indica, está tomada. O
secretário de Estado, Colin Powell, afirmou domingo no Fórum de Davos e o
embaixador britânico na ONU repetiu ontem que "o tempo está se esgotando".
A poderosa máquina de guerra anglo-norte-americana,
que já dispõe mais de 150 mil soldados na região, poderá ser afinal movimentada
contra o regime de Saddam Hussein. No entanto, por mais que o mundo reconheça
que o governo de Bagdá representa uma ditadura sanguinária e irresponsável, não
há certeza na comunidade internacional de que são verdadeiras e suficientes as
alegações norte-americanas para atacá-la. Os inspetores da ONU não confirmaram
até agora nenhuma das alegações feitas pela Casa Branca. Além de achados de
menor monta, como as ogivas descarregadas ou os documentos na residência de um
cientista, a maior queixa da equipe de inspetores é de que o governo de Saddam
não está prestando a colaboração "imediata, incondicional e ativa" determinada
pela Resolução 1441 do Conselho de Segurança, limitando-se a uma cooperação
apenas formal e insuficiente.
O mundo logo saberá
que o bom senso é que
está perdendo mais essa batalha
O Conselho de Segurança, se for acionado,
provavelmente se pronunciará contra as pretensões belicistas, seja pela votação
da maioria de seus membros, seja pelo veto de alguns dos países que têm direito
a esse recurso, especialmente França, Rússia e China. Foi neste sentido,
igualmente, a advertência do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, de que, se os
inspetores precisam de mais prazo, este lhes deve ser concedido.
Tendo esse pano de fundo é que o mundo aguarda o discurso do presidente Bush. Os tambores da guerra, que já soam desafiadoramente no interior dos Estados Unidos e nos arredores do Golfo Pérsico, poderão ter nesse pronunciamento um comando mais explícito. Infelizmente, a sorte da paz ainda fica na dependência da manifestação do arbítrio de apenas um governante ou da vontade de uma só nação. É fundamental, por isso, que as reservas de prudência e de serenidade da comunidade dos países sejam mobilizadas sob a proteção e a garantia das Nações Unidas. Afinal, a quem interessa um conflito que - além de provocar mortes e sofrimentos - gera retração mundial, promove instabilidade no comércio e lança dúvidas sobre o futuro das instituições criadas há 60 anos para promover a paz? Quem ganha com isso? Desafortunadamente, tudo indica que o mundo logo saberá que o bom senso é que está perdendo mais essa batalha.