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Sobre
crenças e intolerância (Jornal
do Brasil de 20.10.2001) LEONARDO BOFF
O fundamentalismo não possui apenas um rosto religioso; todos os sistemas que se apresentam como portadores exclusivos da verdade devem ser considerados fundamentalistas
A inquisição católica foi um triste exemplo de fundamentalismo » |
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Hoje
se fala muito de fundamentalismo. Fundamentalismo do mercado e do projeto
neoliberal, fundamentalismo cristão, fundamentalismo islâmico, principal
responsável pelos atentados de 11 de setembro, fundamentalismo das posturas políticas
e bélicas do Presidente Bush. Tentemos esclarecer o leitor o que seja
fundamentalismo e o risco que representa para a pacífica convivência humana e
para o futuro da humanidade.
O
nicho do fundamentalismo se encontra no protestantismo americano, surgido nos
meados do século 19 e formalizado, posteriormente, numa pequena coleção de
livros que vinha sob o título Fundamentals: a testimony of the Truth (1909-1915).
Trata-se de uma tendência de fiéis, pregadores e teólogos que tomavam as
palavras da Bíblia ao pé da letra (o fundamento de tudo para a fé
protestante é a Bíblia). Se Deus consignou sua revelação no Livro
Sagrado, então tudo, cada palavra e cada sentença devem ser
verdadeiras e imutáveis. Em nome do literalismo, esses fiéis opunham-se às
interpretações da assim chamada teologia liberal. Esta usava e usa os métodos
histórico-críticos e hermenêuticos para interpretar textos escritos há 2-3
mil anos. Supõe-se que a história e as palavras não ficaram congeladas.
Precisam ser interpretados para resgatar-lhes os sentidos originais. Esse
procedimento para os fundamentalistas é ofensivo a Deus. Por razões
semelhantes, eles se opõem aos conhecimentos contemporâneos da história, das
ciências, da geografia e especialmente da biologia que possam questionar a
verdade bíblica.
Para
o fundamentalista, a criação se realizou mesmo em sete dias. O cristianismo
detém o monopólio da verdade revelada. Jesus é o único caminho para a salvação.
Fora dele há somente perdição. Daí o caráter militante e missionário de
todo fundamentalista. Face aos demais caminhos espirituais ele é intolerante,
pois eles significam simplesmente errância. Na moral é especialmente rigoroso,
particularmente no que concerne à sexualidade e à família. É
contra os homossexuais, o movimento
feminista e os movimentos libertários em geral. Na economia é conservador e na
política sempre exalta a ordem e a segurança a qualquer custo.
O
fundamentalismo protestante ganhou relevância social a partir dos anos 50 com a
Eletronic Church. Pregadores nacionalmente famosos usam o rádio e a
televisão em cadeia para suas pregações e campanhas conservadoras. Sob Ronald
Reagan, significaram um fator político determinante. Combatem abertamente o
Conselho Mundial de Igrejas em Genebra (que reúne mais de duas centenas de
denominações cristãs) e todo tipo de ecumenismo, tidos como coisa do diabo.
O
catolicismo possui também seu tipo de fundamentalismo. Ele vem sob o nome de
Restauração e Integrismo. Procura-se restaurar a antiga ordem, fundada no
casamento (incestuoso) do poder político com o poder clerical. Visa-se uma
integração de todos os elementos da sociedade, e da história sob a hegemonia
do espiritual representado, interpretado e proposto pela Igreja Católica (seu
corpo hierárquico encabeçado pelo Papa). O inimigo a combater é a
modernidade, com suas liberdades e seu processo de secularização. Expressões
do Integrismo é modernamente o Cardeal Josef Ratzinger, presidente da antiga
Inquisição, que sustenta ainda a tese de que a Igreja Católica é a única
Igreja de Cristo, também a única religião verdadeira, fora da qual não todos
correm risco de perdição. Ou o arcebispo Marcel Lefebvre, que fundou sua
Igreja paralela, considerada a fiel detentora da Tradição e da fé
verdadeiras. Características fundamentalistas se encontram também em setores
importantes do pentecostismo, também católico e nas igrejas evangelicais
populares.
Intolerância
-
O fundamentalismo não é uma
doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É a atitude daquele
que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Sendo assim, imediatamente
surge um problema de graves conseqüências: quem se sente portador de uma
verdade absoluta não pode tolerar outra verdade e seu destino é a intolerância.
E a intolerância gera o desprezo do outro e o desprezo, a agressividade e a
agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem
guerras religiosas, violentíssimas, com incontáveis vítimas.
Não
há nenhuma religião mais guerreira que a tradição dos filhos de Abraão:
judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual
vive da convicção tribalista de ser povo escolhido e portador exclusivo da
revelação do Deus único e verdadeiro. Essa fé deve ser difundida em todo o
mundo, em geral numa articulação com o poder colonialista e imperial, como
historicamente ocorreu na América Latina, África e Ásia.
O
fundamentalismo, como atitude e tendência, se encontra em setores de todas as
religiões e caminhos espirituais. Hoje em dia, o fundamentalismo judeu se
centra na construção do Estado de Israel segundo o tamanho que lhe atribui à Bíblia
hebraica. O fundamentalismo islâmico quer fazer do Alcorão a única
forma de vida, de moral, de política e de organização do Estado entre os islâmicos
e em todo o mundo. Todos os que se opõem a essa visão de mundo são obstáculos
à instauração “da cidade de Deus” e conseqüentemente são infiéis e
merecem ser perseguidos e eventualmente eliminados.
Verdade
— O
fundamentalismo não possui apenas um rosto religioso. Todos os sistemas sejam
culturais, científicos, políticos, econômicos e artísticos que se apresentam
como portadores exclusivos de verdade e de solução única para os problemas
devem ser considerados fundamentalistas. Vivemos atualmente sob o império feroz
de vários fundamentalismos.
O
primeiro e mais visível de todos é o fundamentalismo da ideologia política do
neoliberalismo, do modo de produção capitalista e de sua melhor expressão, o
mercado mundialmente integrado. Ele se apresenta como a solução única para
todos os países e para todos as carências da humanidade (todos precisam de um
necessário choque de capitalismo, diz-se fundamentalisticamente). A lógica
interna deste sistema, entretanto, é ser acumulador de bens e serviços, por
isso, criador de grandes desigualdades (injustiças), explorador ou dispensador
da força de trabalho e predador da natureza. Ele é apenas competitivo e nada
cooperativo. Politicamente é democrático, economicamente é ditatorial. Por
isso a economia capitalista destrói continuamente a democracia participativa.
Onde se implanta, a cultura capitalista cria uma cosmovisão materialista,
individualista e sem qualquer freio ético. Há teóricos que apresentam essa
etapa como o fim da história. Para ela não haveria alternativa. Urge
inserir-se nela. Caso contrário perde-se o ritmo da história. A condenação
é a marginalidade ou a exclusão. Eis o pensamento único e a ditadura da
globalização especialmente econômico-financeira (considero esta etapa como a
idade de ferro da globalização), hegemonizada pelas potências ocidentais.
Outro
tipo de fundamentalismo comparece no paradigma científico moderno. Ele está
assentado sobre a violência contra a natureza. Bem dizia Francis Bacon, pai da
moderna metodologia científica: há de se torturar a natureza como o faz o
inquisidor com seu inquirido, até que ela entregue todos os seus segredos. Impõe-se
esse método, fundado no corte e na compartimentação da realidade una e
diversa, como a única forma aceitável de acesso ao real. Desmoralizam-se
outras formas de conhecimento que vão além ou ficam aquém dos caminhos da razão
instrumental-analítica. Ocorre que o projeto da tecnociência gestou o princípio
da autodestruição da vida. A máquina de morte já
construída pode pôr fim à biosfera
e impossibilitar o projeto planetário humano. Na guerra bacteriológica, basta
meio quilo de toxina do botulismo para matar 1 bilhão de pessoas.
Bin
Laden -
Nos dias atuais assistimos,
estarrecidos, a dois tipos de fundamentalismo político. Um representado pelo
presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e outro por Osama Bin Laden. O
presidente americano urde seus discursos no melhor código fundamentalista: A
luta é do bem (América) contra o mal (terrorismo islâmico). Ou se é contra o
terrorismo e pela América ou se é a favor do terrorismo e contra a América. Não
há matizes nem alternativas. O ataque terrorista não foi contra os Estados
Unidos, mas sim contra a humanidade, na suposição que eles são a própria
humanidade. O projeto inicial de guerra se chamava Justiça Infinita, termo que
usurpa a dimensão do Divino. Depois com menor arrogância, mas na linguagem da
utopia, chamou-se de Liberdade Duradoura. Termina suas intervenções com “God
saves America. Há dezenas de anos que a política exterior dos Estados
Unidos maltrata as nações árabes fazendo pacto com governantes despóticos
(alguns emirados árabes nem constituição possuem) em razão da garantia do
suprimento de petróleo. A partir de 1991, por ocasião da guerra contra o
Iraque, já morreram naquele país cerca de 1 milhão de crianças por causa do
embargo que atinge os suprimentos medicinais e 5% da população foi morta em
sistemáticos bombardeios.
A
atuação no conflito entre Israel e os palestinos é as posições dos Estados
Unidos visivelmente unilateral, em favor dos ataques devastadores que a máquina
de guerra israelense move contra a população palestina que usa pedras (intifada).
A Arábia Saudita é ocupada por uma poderosa base militar americana, território
sagrado do islamismo onde se situam as duas cidades santas Meca e Medina. Tal
fato é para a fé islâmica tão vergonhoso quanto um católico tolerar a Máfia
no governo do Vaticano. Coisas assim acumulam amargura, ressentimento, revolta e
vontade de vindita. É o fermento do terrorismo muçulmano cujos efeitos
nefastos todos assistimos e condenamos.
Não
menos fundamentalista é a retórica dos talibãs e de Osama Bin Laden. Este
também coloca a guerra entre o bem (islamismo) e o mal (a América). Em seu
famoso discurso após o atentado, divide o mundo entre dois campos: o campo dos
fiéis e o campo dos infiéis. “O chefe dos infiéis internacionais, o símbolo
mundial moderno do paganismo, é a América e seus aliados.” O atentado
terrorista significa que “a América foi atacada por Deus em um dos seus órgãos
vitais - Graça e gratidão a Deus”. A cultura ocidental como um todo é vista
como materialista, atéia, secularista, anti-ética e belicista. Daí a recusa
em dialogar com ela e a vontade de estrangulá-la em nome do próprio Alá.
Em
nome de que Deus ambos falam? Não é seguramente em nome do Deus da vida, de Alá,
o Grande e Misericordioso, nem em nome do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, da
ternura dos humildes e da opção pelos oprimidos. Falam em nome de ídolos que
produzem mortes e vivem de sangue.
É
próprio do fundamentalismo responder
terror com terror, pois se trata de conferir vitória à única verdade e ao bem
e destruir a falsa “verdade” e o mal. Foi o que ambos, Bush e Bin Laden
fizeram. Enquanto predominarem tais fundamentalismos seremos condenados à
intolerância, à violência e à guerra e, no termo, à ameaça de dizimação
da biosfera.
Cegos
- Não
se há de sorrir nem de chorar. Mas
de procurar entender. Todos os fundamentalismos, não obstante o variado matiz,
possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de
claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do ar
co-íris, em que a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra
indissolúvel mente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o edifício.
Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos
sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista
militante a mor te é
doce, pois transporta o mártir diretamente ao
seio materno de “Deus”, enquanto a vida é vivida como oportunidade
de cumprir a missão divina de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o
lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do
lado certo.
Como
enfrentar os fundamentalistas? Estes
são praticamente inacessíveis à
argumentação racional. Nem por
isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para
mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática
fundamentalista. Por detrás do fundamentalismo político vigora uma experiência
dolorosa e humilhação e de prolongado sofrimento. E procura-se infligir a
mesma coisa ao outro, o que manifestamente
contraditório. Trazer o fundamentalista à realidade concreta, cheia de
contradições, claro-escuros e nuances pode introduzir ele a dúvida e a
insegurança. Estas possuem uma função terapêutica. Podem abrir uma brecha
ara a luz no muro das convicções cerradas e excludentes. Dialogar até a
exaustão, negociar até o imite intransponível da razoabilidade, pode levar o
fundamentalista a reconhecer o outro, seu direito de existir e a contribuição
que poderá dar para uma convergência mínima na diversidade.
Estamos
numa encruzilhada da história humana. Ou criar-se-ão relações multipolares
de poder, eqüitativas e
inclusivas com pesados investimentos na qualidade total da vida para que todos
possam comer, morar com mínima dignidade e apropriar-se de cultura com a qual
se possam comunicar com seus semelhantes, preservando a integridade e beleza da
natureza ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo
destino dos dinossauros. Armas para isso existem e sobra demência.
Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que acúmulo de
bens matérias. Então os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa
Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao
vale de lágrimas.
-
Leonardo
Boff é teólogo e escritor, autor de A oração de São Francisco: uma
mensagem de paz para o mundo atual (Sextante)