Zero Hora de 25/01/ 2003. Edição nº 13672
Davos e Porto Alegre: conflitantes mas complementares
Eduardo Giannetti, economista
CÍNTIA MOSCOVICH
Aos 45 anos, mineiro radicado em São Paulo, o economista Eduardo Giannetti da
Fonseca é pólo referencial sempre que se discutem os rumos financeiros do país.
Professor de História do Pensamento Econômico da Universidade de São Paulo
(USP), Giannetti tem o grau de PhD em Economia pela Universidade de Cambridge,
na Inglaterra. É autor de livros como Vícios Privados, Benefícios Públicos? e
Ética na Riqueza das Nações. Em sua mais recente obra, Felicidade (Companhia das
Letras, 232 páginas, R$ 31,50), sintetiza os estudos que vem realizando há quase
20 anos e que têm por base o bem-estar da humanidade segundo a tradição
iluminista do século 18. Dono de lógica impecável, de raciocínio ponderado e
flexível, Giannetti falou ao Cultura sobre o Fórum Social Mundial, de Porto
Alegre, e o Fórum Econômico Mundial, na Suíça:
- Porto Alegre e Davos não precisam virar um confronto burro de dogmatismos.
Há muito que poderiam aprender um com o outro.
Cultura - Em Felicidade, livro seu lançada pela Companhia das Letras, o
foco gira em torno dos ideais do Iluminismo, que, trazendo o progresso nas
ciências e nas artes, significaria a porta para a felicidade individual e das
nações. Em épocas de Fórum Social Mundial, que parece ter como tema as utopias,
pode-se aparentá-lo, de alguma forma, ao quimérico ideal iluminista?
Eduardo Giannetti - O equívoco fatal é imaginar que exista
algum sistema econômico ou programa de engenharia social que vai finalmente
resolver por nós o desafio da felicidade e da realização pessoal. As miragens
coletivistas desse tipo causaram enormes tragédias e sofrimento. Nada se revelou
mais devastador de vidas e valores humanos no século 20 do que as guerras, os
golpes e os conflitos motivados pela convicção fanática de alguns sobre a
superioridade de suas religiões, partidos ou ideologias. A economia é, no fundo,
como a saúde. Quando vai muito mal pode arruinar a vida, mas quando vai bem não
garante a felicidade. O fundamentalismo e as utopias autoritárias precisam ser
combatidos sempre, venham de onde vier: Porto Alegre ou Davos.
Cultura - Parece que a tendência geral é dividir o mundo entre Davos e
Porto Alegre. Há, em verdade, contraposição entre esses dois fóruns?
Giannetti - Há uma predileção humana demasiado humana por
oposições binárias e visões maniqueístas: o bem contra o mal, deus X diabo, os
que são da tribo e os que não são. Não é à toa que, como observa Jonathan Swift,
"a maior parte das coisas que divertem os homens são imitações de combates".
Davos e Porto Alegre dão voz a posições conflitantes, mas são também
complementares. Se o econômico não estiver bem encaminhado, fica difícil avançar
no campo social. Mas se o quadro social degringola, o desempenho econômico fica
comprometido. O sonho desprovido de senso prático naufraga; o senso prático
desprovido de sonho não voa. Além disso, basta examinar a lista dos palestrantes
dos dois eventos para constatar que há enorme diversidade de posições dentro de
cada um deles. O economista Amartya Sen, por exemplo, talvez o maior
especialista mundial no problema da fome, estaria perfeitamente à vontade em
Porto Alegre, embora participe do Fórum de Davos. Da mesma forma, creio que o
pacifismo de Noam Chomsky teria inúmeros adeptos no encontro suíço. A imaginação
humana gosta se apegar a oposições binárias radicais, mas a realidade é
complexa. Davos e Porto Alegre não precisam virar um confronto burro de
dogmatismos. Há muito que poderiam aprender um com o outro.
Cultura - Por outra parte, parece que Porto Alegre está muito preocupada
com Davos. Será que Davos se preocupa com Porto Alegre?
Giannetti - É natural que assim seja. Afinal, o Fórum Social é
uma espécie de rebento ou filho rebelde do Fórum Econômico e foi criado com o
intuito deliberado de se contrapor a ele. Os poderes constituídos costumam ser
mais importantes aos olhos dos que pleiteiam o poder do que vice-versa. As
elites, entretanto, circulam. Os papéis podem se inverter. Eu não me
surpreenderia se, ao final do mandato, Lula só estiver sendo convidado para o
encontro de Davos.
Cultura - Lula, acompanhado de uma comitiva que inclui o ministro da
Cultura (que não virá a Porto Alegre), vai à Suíça. O ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, afirmou
recentemente que Lula brilhará no Fórum Econômico. Lula será a estrela de Davos?
Giannetti - Estrela me parece exagero, mas certamente sua fala
despertará grande curiosidade, até pelo fato de que ele será o primeiro chefe de
Estado a participar, no mesmo ano, dos dois encontros. Lula fez bem de aceitar.
Eu torço para que seja feliz em ambos. O Brasil tem um pé em cada mundo.
Cultura - O slogan do Fórum Social Mundial é "Um outro mundo é
possível". O caminho para o "novo mundo" passa, realmente, pelos seminários e
painéis de Porto Alegre?
Giannetti - A desigualdade de renda entre os países do mundo é maior do que a desigualdade dentro de qualquer país do mundo (Brasil inclusive). Um outro mundo é, sim, possível. A grande dificuldade é formular propostas exequíveis que ajudem a reduzir a privação material de forma duradoura, sem paternalismo, sem populismo e sem sacrifício da liberdade individual. Os encontros do Fórum Social Mundial costumam ser fartos de "happenings", diagnósticos e acusações, mas magros de ações, alternativas e sugestões convincentes.