Zero Hora de 21/01/2003
Fórum Social Mundial 2003
ODED GRAJEW - Diretor-presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social
Entre os dias 23 e 28 de janeiro de 2003, a 3ª edição do Fórum Social Mundial estará se realizando em Porto Alegre (RS). Diante da grandiosidade que já se pode prever para a reunião deste ano, lembro-me do início de 2000, quando representantes dos países mais poderosos do planeta encontravam-se em Davos, em seu Fórum Econômico Mundial, como o fazem anualmente. O processo de globalização caminhava a passos largos, difundindo os parâmetros do neoliberalismo.
Na verdade,
não sei se fui eu que tive a idéia
ou se foi a idéia que me teve
Foi nessa época que a idéia
do Fórum Social começou a despontar em minha cabeça. Pensei então em viabilizar
uma discussão que invertesse a lógica de Davos e colocasse a economia a serviço
do social. Esse debate teria dimensão mundial, com a participação de todas as
organizações que vinham se contrapondo à imposição do poderio econômico, num
encontro que marcaria essa posição, realizando-se paralelamente ao encontro do
Velho Mundo: o Fórum Social Mundial. Era um insight ambicioso. Na verdade, não
sei se fui eu que tive a idéia ou se foi a idéia que me teve. Afinal, hoje fica
claro que ela resultou de um longo acúmulo de persistentes idealistas e
aguerridos grupos de militantes em dezenas de países.
O desafio de organizar o novo
Fórum e mostrar que um outro mundo era possível foi assumido inicialmente por
oito entidades brasileiras. Em 2001, somaram-se a elas entidades e redes
internacionais, compondo assim o Conselho Internacional, que tem acompanhado e
articulado os fóruns preparatórios, que se multiplicam mundo afora.
O Fórum Social Mundial já se
consolidou como espaço democrático internacional de reflexão, elaboração e
articulação de propostas que visam ao bem-estar da humanidade e à
sustentabilidade do planeta. Seu caráter não deliberativo, não governamental e
não partidário foi reafirmado na Carta de Princípios elaborada em 2001.
Neste terceiro ano, os
números demonstram que o Fórum, mais do que um sucesso, reflete a ânsia de
participação democrática de todos os países que, alijados pela globalização,
desejam um mundo capaz de contemplar a diversidade, o respeito aos direitos
humanos, a paz entre os povos. Em 2001, foram 4.700 delegados de 117 países. Em
2002, 12.300 delegados de 123 países. Em 2003, perto de 30 mil delegados, de 5
mil organizações de todos os continentes se inscreveram. Dezenas de Fóruns
Sociais Regionais estão precedendo o Fórum Social Mundial, como o europeu e o
asiático, além dos Fóruns Sociais Temáticos, como o da Palestina. O Acampamento
da Juventude, que em 2001 contou com 2 mil participantes, espera receber este
ano entre 30 e 40 mil jovens. São mais de 60 mil pessoas participando de
atividades em torno de cinco eixos de discussão: Desenvolvimento democrático e
sustentável; Princípios e valores, direitos humanos, diversidade e igualdade;
Mídia, cultura e contra-hegemonia; Poder político, sociedade civil e democracia;
e Ordem mundial democrática, luta contra a guerra e pela paz.
Esse crescimento do Fórum não
se deve apenas ao desejo de discutir e produzir políticas alternativas à
hegemonia do capital e seus mercados. O planeta tem vivido o despertar de uma
consciência necessária para seu desenvolvimento e sustentabilidade, para a
erradicação da fome, para a preservação do meio ambiente, para evitar o
esgotamento da água e de outros recursos naturais. Vislumbra-se, principalmente,
o caminho da democracia, da inclusão dos povos e dos países, da tolerância
contrapondo-se à discriminação e da paz sobrepondo-se às guerras.
No Brasil, a eleição do
presidente Lula, um ex-operário que assumiu como prioridade de seu governo o
combate à fome e à miséria também se perfila nessa trincheira. No mundo dos
negócios, o crescente engajamento de empresários e executivos ao movimento pela
responsabilidade social empresarial é outro sintoma desse progresso.
Então, remeto-me novamente a fevereiro de 2000 e penso que muitos já foram os avanços. Porém, há mais ainda a ser feito. E muitos que podem ajudar a fazer. O Fórum Social Mundial, com quase 2 mil oficinas e seminários, conferências, palestras, nos mostra os muitos caminhos que empresas, cidadãos, entidades organizadas da sociedade civil e governos podem trilhar para construir um planeta onde os direitos de uma vida digna sobreponham-se à imposição dos mercados.