O Gre-Nal da globalização

MARIA ISABEL HAMMES (em Zero Hora de 28.01.2001)

Davos e Porto Alegre convergem no que têm de mais elementar -  o exercício de futurologia e propostas para um mundo melhor. Mas divergem em tudo o que vem a partir daí, apesar da idéia propagada este ano de que os dois fóruns compartilham os mesmos objetivos.  

Davos é um conclave com foco no econômico, que reúne as grandes estrelas do pensamento liberal. O Fórum de Porto Alegre pretende analisar os problemas mundiais de uma perspectiva social, como a anu1ação da dívida do Terceiro Mundo, a reforma das instituições financeiras internacionais e o estabeleci­mento de novas regras para o comércio mundial, entre outros assuntos.
O  encontro da charmosa estação de esqui dos Alpes Suíços exalta as virtudes do livre mercado, com a menor interferência possível do Estado, analisando como sustentar o crescimento e reduzir as diferenças, tentando prever as perspectivas da globalização e até a pirataria na Internet. O evento defende a restauração do poder do Estado de interferir na economia.
Dizer que Davos e Porto Alegre são iguais porque tentam vislumbrar um mundo melhor equivale a afirmar que Grêmio e Internacional são clubes de futebol dispostos a vencer. O novo fórum gaúcho criado para o confronto com o evento suíço permite a comparação: o mundo das idéias ganhou um Gre-Nal.

Fórum Econômico Mundial

-       Encontro promovido anualmente para debater diversos temas relacionados à economia do mundo na cidade suíça de Davos

-          É realizado desde 1971

-          O Fórum, organizado por uma fundação suíça que como consultora da Organização das Nações Unidas (ONU), começou na quinta-feira e se estenderá até terça-feira

-          Cerca de 3 mil pessoas são esperadas para o evento, entre chefes de Estado, ministros, políticos, acadêmicos, grandes empresários e representantes de organizações não governamentais (ONGs)

Fórum Social Mundial 

-           Reunião de entidades ligadas ao pensamento de esquerda, concebida a partir dos recentes protestos contra a globalização, como o de Seatlle, em 1999, nos Estados Unidos, durante encontro convocado pela Organização Mundial do Comércio (OMC)

-          Esta é a primeira edição do Fórum, mas a decisão de seus idealizadores é que o evento se realizará anualmente. Ainda não há, no entanto, definição sobre onde será promovido a partir da segunda edição. A intenção do governo do Estado é a de que o Fórum se fixe em Porto Alegre

-          Cerca de 10 mil pessoas participam do Fórum entre políticos, intelectuais, sindicalistas e representantes de ONGs

-          Os gastos para a promoção do evento que começou na quinta-feira e se estenderá até terça-feira, são avaliados em quase R$ 1 milhão, a cargo do governo do Estado, Banrisul e Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE)

Principais temas

-           Sustentação do crescimento e redução das diferenças

-          Perspectivas da globalização

-         Orientação econômica do novo governo dos Estados Unidos

-          Pirataria na lnternet

-          Doenças originadas pela pobreza

Principais temas

-          Anulação da dívida do Terceiro Mundo

-          Reforma das instituições financeiras internacionais

-          Criação de uma taxa sobre os movimentos de capitais

-          Declaração de ilegalidade dos paraísos fiscais

-          Definição de novas regras para o comércio mundial

Esquema de segurança

Um forte esquema de segurança foi montado para proteger os participantes do Fórum de Davos. Cerca de 300 soldados patrulham as ruas da cidade, além de outros 600 que estarão em localidades próximas e poderão intervir se houver necessidade, e mais mil policiais. O temor da repetição de incidentes que perturbaram a edição anterior do encontro levou à proibição de entrada de 300 estrangeiros na cidade. Todos os acessos a Davos estão controlados pelo exército. O centro de convenções onde se realiza o debate principal, está cercado por arames, há atiradores de elite nos tetos dos edifícios e equipamentos de raio-X na entrada do prédio.

Esquema de segurança

O número de policiais militares que fazem patrulhamento nas ruas de Porto Alegre mais do que dobrou para garantir a segurança dos participantes do Fórum Social Mundial. Com um reforço de 210 PMs e 23 veículos cedidos por diversos municípios do interior do Estado, o policiamento da Capital contará com 1,3 mil homens até o dia 31. Em dias normais, esse número é de cerca de 600 profissionais. O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), especialistas em gerenciamento de crises e peritos em explosivos estarão de prontidão. Os quartéis estão sem expediente administrativo durante o Fórum, e os policiais foram deslocados para o policiamento ostensivo.

O que dizem os representantes do Fórum de Davos:

A globalização não está produzindo benefícios de forma eqüitativa - Claude Smadja, diretor-gerente do Fórum Econômico Mundial

Os EUA e o Fundo Monetário Internacional cometeram um estupro contra o países do Leste Asiático na crise de 1997/1998. Os Estados Unidos destruíram a economia dos países asiáticos emergentes. Como o FMI é dominado pelos EUA, ambos são responsáveis pelo estupro Shintaro Ishihara, prefeito de Tóquio

Nenhum país que esteja em boas condições recorre ao FMI. Não tem sentido dizer que os programas propostas pelo Fundo causam prejuízos a economias que iam bem - Armínio Fraga, presidente do Banco Central do Brasil, em resposta Ishihara

Os proponentes da antiglobalização não são necessariamente menos influenciados por interesses particulares, sobretudo aqueles que vêm das regiões mais ricas do mundoMoritz Leuenberger,  presidente da Suíça

A reunião de Porto Alegre capitaliza o êxito de Davos. Não é por coincidência que programaram a reunião na mesma data que a nossaCharles McLean, porta-voz do Fórum.

O que dizem os representantes do Fórum de Porto Alegre:

Viemos porque cremos que outro mundo é possível - Bernard Cassen, diretor do jornal Le Monde Diplomatique

Quando globalizamos a luta, globalizamos a esperança. Uma luta aqui significa gerar esperança em outros lugares do mundo Paul Nicholson, coordenador europeu da organização internacional Via Campesina

O capitalismo está vivendo a pior crise de sua História. O sistema está decadente e senil, abrindo espaço para as alternativas socialistas ou comunistas. Isso nos dá esperança de um novo horizonte - Jorge Benstein,  economista argentino

Para mudar o mundo é necessário mudar os comportamentos do homemPatrick Viveret, filósofo francês

Diz-se que só o crescimento econômico pode combater a pobreza. Mas essa tese não tem sustentação. Nas últimas décadas, a economia cresceu como nunca. E a disparidade entre ricos e pobres aumentou ainda maisRayén Martinez, economista chilena.

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