Zero Hora de 25/01/2003. Edição nº 13672
Debates em tempos de Fórum
O escritor paquistanês Tariq Ali e o filósofo israelense Ely Ben-Gal, estrelas do 3º Fórum social Mundial, aberto na última quinta-feira, em Porto Alegre, discutem um eventual ataque norte-americano ao Iraque, as chances de paz no mundo e o papel que o Brasil poderá assumir no cenário político internacional.
CÍNTIA MOSCOVICH E LUIZ ANTÕNIO ARAUJO
Contraponto
1. Qual será o ritmo de uma eventual guerra dos Estados Unidos contra o Iraque? A campanha será longa ou rápida?
2. O livro Conflito de Fundamentalismos (de Tariq Ali) contesta a noção de que a situação mundial pós 11 de setembro seria resultado de um choque entre as assim chamadas civilizações ocidental e árabe-muçulmana. Em que termos o sr. define o conflito presente?
3. O colunista do jornal The New York Times Thomas Friedman sustenta que a paz no Oriente Médio depende da ascensão ao poder de uma nova classe dirigente, pró-ocidental, nos países da região. O que o sr. pensa disso?
4. Todos os países vêm se preocupando com a possibilidade de uma guerra entre a Índia e o Paquistão pela Caxemira. Quais são as chances do processo de paz naquela região?
5. O que o governo brasileiro pode fazer pela paz mundial?
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Tariq Ali, escritor paquistanês
O paquistanês Tariq Ali acusa o governo americano de usar os trágicos acontecimentos de 11 de setembro para promover um remapeamento do mundo contemporâneo: - Agora estão desesperados por um sucesso no Iraque.
Na interpretação desse intelectual, romancista, cineasta e dramaturgo, o Brasil deveria organizar a América Latina para que o continente apresentasse uma face única diante dos Estados Unidos e dos rumos da globalização.
Tariq Ali é formado em História pela Universidade de Oxford e tem longa militância nas filas da esquerda. Hoje, é tido como importante observador dos conflitos entre o mundo árabe e o Ocidente. No Brasil, publicou os romances A Sobra da Romãzeira, O Livro de Saladino, Medo de Espelhos, Mulher de Pedra e o ensaio Confronto de Fundamentalismos (todos pela Record). Participou das duas primeiras edições do Fórum Social Mundial. Este ano, veio como um dos conferencistas da mesa Contra a Militarização e a Guerra.
1 - Penso que assim que os inspetores das Nações Unidas fizerem seu relatório, até 27 de janeiro, os Estados Unidos terão de decidir o ritmo. Voltarão ao Conselho de Segurança da ONU? Eles poderiam fazê-lo, uma vez que a França e a Rússia já foram subornadas e a China geralmente se abstém. Mas há possibilidade de que a ONU atrase os preparativos. Seria mais simples arrastar três cientistas iraquianos para fora do país e ameaçá-los, suborná-los e cortejá-los para que forneçam “evidências” (de que o governo de Saddam Hussein possui armas de destruição em massa). Então a guerra poderia começar rapidamente. Acho que isso vai ocorrer nos próximos dois meses. Os Estados Unidos foram muito longe para recuar agora.
2 - O presente conflito é o resultado da emergência dos Estados Unidos como única potência imperial mundial. Como todos sabem, os líderes dos Estados Unidos decidiram usar os acontecimentos de 11 de setembro para remapear o mundo. A Guerra no Afeganistão foi um desastre em todos os níveis. Eles estão desesperados por um sucesso no Iraque, e por isso o peso da ocupação e os governantes fantoches a serem postos em Bagdá são temas de certa importância.
3 - Isso combina totalmente com as necessidades do Império Americano. Friedman também admitiu que a guerra é por petróleo e que isso está certo. Ele me lembra muito os ideólogos linha-dura que costumavam escrever para o Pravda no período Brejnev. O New York Times é agora o virtual Pravda dos Estados Unidos. O espaço para discordância foi enxugado ao longo dos anos, e as colunas de Op-Ed (abreviatura para Opinião-Editorial) foram confiadas a pessoas seguras e bem-pensantes.
4 - No momento as chances para a paz não são boas. Temos um regime fundamentalista raivoso na Índia que não está interessado na paz. E a Índia, como o grande poder da região, precisa tomar a iniciativa. A situação é ruim e pode facilmente se deteriorar. O sul da Ásia é um barril de pólvora neste momento, ainda que pouco seja informado em razão da obsessão com o Iraque.
5 - Penso que o novo governo do Brasil poderia pleitear, em primeiro lugar, uma mudança profunda na composição do Conselho de Segurança da ONU. Não há razão para que África do Sul, Brasil e Índia não sejam membros. Não há razão para que Grã-Bretanha e França juntas sejam membros. A União Européia deveria ter um assento em rodízio. Em segundo lugar, o Brasil deveria desenvolver uma crítica das políticas econômicas e externas neoliberais impostas em todos os continentes. As duas coisas andam juntas. Friedrich von Hayek, o fundador da economia neoliberal, era firme partidário das intervenções do Estado por meio da guerra para impor a vontade do Ocidente. O Brasil deveria tentar organizar a América Latina para apresentar uma face unitária diante dos EUA. A decisão de Lula de apoiar Chávez é positiva nesse caso, mas muito mais é necessário. A América Latina é um continente em revolta contra a forma que a globalização assumiu. Essa revolta necessita de canais políticos.
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Ely Ben-Gal, filósofo israelense
O israelense Ely Ben-Gal teme que um eventual ataque norte-americano contra o Iraque ganhe as dimensões de uma guerra ao Islã: - Começar uma cruzada contra o fundamentalismo muçulmano me parece a coisa mais perigosa do século 21 - adverte.
Ben-Gal tem doutorado em Sociologia e Estudos Políticos pela Universidade de Paris. Foi assistente de Jean-Paul Sartre e é reconhecido pelos seus esforços pacifistas. Mora no Kibutz Baram, na fronteira de Israel com o Líbano, e leciona História Judaica da Universidade de Bar Ilan, Israel. Viveu no Brasil nos anos 60 e, por conta disso, fez questão de dar a entrevista a seguir em português.
É autor de Mardi, chez Sartre: Un Hébreu à Paris (não disponível em português), no qual fala de sua longa amizade com o pensador existencialista e com Simone de Beauvoir.
Ben-Gal veio a Porto Alegre como palestrante do seminário Diálogos pela Paz, evento paralelo ao 3º Fórum Social Mundial. O evento propõe a elaboração de um documento que proponha soluções pacíficas para o conflito no Oriente Médio.
1 - Não sou um especialista na questão militar. Sou um intelectual israelense, que leciona História Judaica na Universidade. De qualquer forma, me parece que o exército iraquiano não tem como resistir por muito tempo a um ataque dos Estados Unidos. A maior questão é saber qual será a reação dos outros países muçulmanos se houver um ataque americano. A capacidade dos Estados Unidos para aniquilar uma oposição militar iraquiana é muito grande. Eu não sei o que os americanos vão fazer depois de ter invadido o Iraque. Talvez tenha de se organizar o país, convocar eleições, colocar alguém no lugar de Sadam Hussein. Nós não sabemos: é, ainda, uma grande aventura para os americanos atacar o Iraque.
2 - Ainda não está muito claro se vai ser, realmente, uma luta de civilizações, coisa de que tenho muito medo. Os Estados Unidos ainda não definiram sua meta. Mas se a meta deles é tirar a possibilidade das armas das mãos de um ditador furioso, como é Sadam Hussein, que significa perigo para todos seus vizinhos, isso é uma coisa. Se, por outro lado, os americanos querem começar uma cruzada contra o Islã, isso me parece uma loucura. Um ataque ao Islã, na figura de Sadam Hussein, pode reforçar o sentimento de alguns árabes, para os quais os Estados Unidos querem impor uma civilização que os muçulmanos não aceitam, coisa que reforçaria o próprio fanatismo. De um lado, pôr fim a uma ditadura como ação política, autorizada pela ONU, pode ser justificado. Começar, por outro lado, uma cruzada contra o fundamentalismo muçulmano me parece a coisa mais perigosa do século 21.
3 - Por enquanto, não há um bloco oriental contra os Estados Unidos. Não há duas alternativas. Hoje, os dirigentes de Israel e os palestinos estão sem perspectivas a longo prazo: dedicam-se a resolver problemas imediatos. Não há uma classe dirigente, nem israelense ou palestina, capaz de nos levar para a paz. Deve-se separar os dois adversários fisicamente para impedir uma nova guerra e esperar que, nessa situação mais ou menos calma, durante longo tempo, apareça uma liderança pacífica. Acho que a responsabilidade de Arafat para o contexto atual é grande. Foi ele que levou Sharon para o poder. A mesma opinião pública israelense que quer a paz levou para o poder Ehud Barak e, depois que a sua proposta pacífica foi recusada, a reação simplista, violenta, sem perspectiva de Sharon foi a única possibilidade, na visão da opinião pública israelense. A maior parte dos israelenses quer a criação de um estado palestino, mas não há com quem falar. Isso nos explica que não há perspectivas de paz. O máximo que podemos esperar agora é uma situação intermediária entre paz e guerra para permitir aos dois lados que criem, ou que deles nasça, uma classe diretiva, o que pode levar uns 5 ou 10 anos.
4 - Eu não quero dar conselhos para outros povos. O problema é bem difícil em nossa região. Por exemplo, eu, como judeu, vivendo no Estado judaico, não estou pronto a justificar a política de violência horrível do Putin e dos russos contra os chechenos. Nenhum homem de paz pode aceitar esse horror. Aqui não se fala da Índia e do Paquistão, que têm meios de lutar. O povo checheno não tem como se defender. É necessário pôr um fim ao terrorismo de Estado com os russos na Chechênia.
5 - Eu vi, nas ruas de Porto Alegre, uma propaganda histérica, fanática: um outdoor que mostrava soldados israelenses atirando em crianças árabes. Eu tenho certeza de que o governo brasileiro não é responsável por isso. Mas aqui, no Fórum, dentro do espírito antiglobalização e anticapitalismo, acho que a opinião pública é completamente identificada com esse tipo de coisa. Há problemas, no Brasil e no mundo, de racismo, de intolerância religiosa, de discriminação contra as mulheres, mas nem todos têm a mesma resposta: não é coisa de se colocar Deus de um lado e o diabo de outro. Acho que Lula provou que é capaz de ter uma politica esquerdista sem ser cega e fanática. Vi na imprensa francesa e estive falando com alguns esquerdistas daqui que há uma grande tendência a puxar o Lula para um caminho simplista, tentando não colocar forças liberais dentro do governo dele. Lula se mostrou um homem de esquerda, corajoso, sem ceder ao simplismo de uma certa esquerda que perdeu todas as guerras. Espero que o presidente não seja demasiadamente influenciado pelo simplismo esquerdista europeu, notadamente o francês. Uma posição calma, programática e prudente de Lula e da esquerda brasileira em relação a todos os problemas do mundo e em especial no Oriente Médio pode abrir um novo caminho para a esquerda mundial, que não tente diabolizar os oponentes. Acredito que o Brasil possa ter um papel muito importante no diálogo. Ninguém pode acusar os brasileiros de imperialistas e reacionários. Acho que os israelenses e palestinos aceitariam um diálogo na frente dos brasileiros.