PÓS-CHOQUE
Para Naomi Klein, mentora de grupos antiglobalização, há tentativa de
calar vozes contrárias à política norte-americana
Crítica à hegemonia dos EUA está ameaçada, diz ativista
MÁRCIO SENNE DE MORAES
Os atentados suicidas ocorridos nos EUA estão sendo usados politicamente pelas
autoridades para silenciar seus críticos, e a provável retaliação americana
contra seus supostos autores provocará mais "estragos colaterais", de
acordo com a jornalista canadense Naomi Klein, autora de "No Logo"
("Sem Marca") e uma das maiores mentoras dos movimentos antiglobalização
oriundos de países desenvolvidos.
Para ela, o cerceamento das liberdades civis dos cidadãos por parte das
autoridades americanas para facilitar as investigações e evitar novos atos
terroristas é grave, mas não tão importante quanto a tentativa oficial de
calar movimentos que criticam a conduta do governo dos EUA e sua "obsessão
com o mercado livre", encarnada pelo fenômeno da globalização.
"A questão mais dramática diz respeito à utilização política de um
momento tão trágico. Por exemplo, qualquer pessoa que, no passado, se tenha
mostrado contrária à doutrina americana ou tenha salientado os limites do
mercado livre tem sido alvo de ataques exclusivamente políticos", disse
Klein à Folha.
"Com isso, as autoridades buscam impedir qualquer discussão crítica sobre
a política externa dos EUA ou sobre a supremacia do capitalismo neoliberal.
Elas querem que paremos de pensar. A idéia de que um "outro mundo é possível"
está ameaçada. Corremos o risco de assistir à volta da hegemonia americana,
pois a sociedade civil crítica terá dificuldade em enfrentá-la, como vinha
acontecendo recentemente."
"O governo está usando o horror da situação atual para tentar calar seus
detratores. Isso é um ataque ainda mais grave às liberdades civis do que a
possibilidade de que a CIA [agência de inteligência dos EUA] esteja
monitorando minhas conversas telefônicas", declarou Klein.
"Estragos colaterais"
Segundo ela, os políticos americanos em geral, republicanos ou democratas, também
têm utilizado o momento para convencer a população civil a entrar numa nova
guerra. Ela diz temer que essa atitude leve a um ataque cego, "a uma caça
às bruxas".
"Isso abriria caminho para mais estragos colaterais como os que, na
verdade, colocaram os EUA na situação atual. Afinal, [o milionário terrorista
saudita] Osama bin Laden nada mais é do que um estrago colateral provocado pela
Guerra do Afeganistão [1979-1989, entre a URSS e o Afeganistão]", indicou
Klein.
"O termo "estrago colateral" é terrível, pois, além da morte
de civis inocentes, engloba qualquer outra consequência não-intencional de uma
campanha militar. Ora, Bin Laden só é tão poderoso hoje por causa do apoio e
do financiamento que Washington lhe ofereceu durante a Guerra do Afeganistão, já
que ele lutava contra a URSS", acrescentou.
Para ela, os EUA "geraram esse monstro e criarão outros se atacarem
indiscriminadamente o Afeganistão em busca de vingança". "Ademais,
seu ódio foi alimentado por outros estragos colaterais, como os ocorridos
durante a Guerra do Golfo [1991]."
"As sanções contra o Iraque e os bombardeios americanos que ainda são
realizados no sul do país também se inserem nessa lógica. A idéia de que
Washington pode causar novos estragos colaterais é aterradora. Afinal, [o
iraquiano] Saddam Hussein, que lutava contra o Irã, e [o iugoslavo] Slobodan
Milosevic foram casos típicos de estragos colaterais que se voltaram contra os
EUA", disse Klein.
De acordo com a jornalista, o único modo de opor-se a essa nova ameaça é
organizar protestos contra uma resposta militar maciça aos atentados ocorridos
na Costa Leste. Contudo esse esforço não deve ser fácil, pois, no momento
atual, é difícil levantar a voz contra o governo de um país que "sofreu
um ataque bárbaro".
"Mesmo as pessoas mais aguerridas não se sentem à vontade para fazer isso
após uma tragédia tão grande. Mas é crucial lutar contra qualquer ponto de
vista que defenda mais violência."
HISTÓRIA
Surgida na península Arábica, a religião ultrapassou as fronteiras da região
e hoje os países de maior população muçulmana estão na Ásia
Islamismo viveu 800 anos de expansão
DA REDAÇÃO
Surgido no século 7º, como a última das religiões monoteístas,
o islamismo viveu um período de expansão que durou 800 anos, ultrapassando as
fronteiras da península Arábica. Atualmente, os maiores países muçulmanos não
são árabes: Indonésia, Paquistão e Bangladesh, todos na Ásia.
Vários fatores contribuíram para essa propagação rápida, entre eles as
disputas que levaram o fundador da religião, o profeta Muhammad, a ser expulso
de Meca, na época o principal entreposto comercial da Arábia Saudita e centro
de peregrinação devido a seu santuário, a Caaba -hoje o local mais sagrado do
islamismo.
Refugiado na cidade de Medina, Muhammad organizou seus seguidores num exército
que, no ano de sua morte, 632, já dominava a maior parte da península Arábica.
Os califas que o sucederam continuaram a conquista, aproveitando-se do
enfraquecimento, a oeste, do Império Romano, e, a leste, do Império Persa.
No ano 711, os chefes muçulmanos atravessaram o estreito de Gibraltar e
dominaram boa parte da Espanha. No Oriente, ao lado da atuação de guerreiros e
missionários, a atividade de comerciantes muçulmanos ajudou a propagar o islã
na Índia e até as regiões das atuais Indonésia e Malásia.
Depois dos embates das Cruzadas, o segundo choque dos muçulmanos com a Europa
veio com a expansão colonial sobre a África, a Ásia e o Oriente Médio. A força
militar, econômica e cultural das potências européias lançou os países de
maioria islâmica numa onda de choque.
Hoje, é em relação ao Ocidente que se definem muitos governos e movimentos
islâmicos. Recentemente, o ensaísta de origem palestina Edward Said, professor
da Universidade de Columbia (EUA), fez uma crítica dura das nações árabes,
berço do islamismo: "Há uma ausência de democracia. A cultura está
regredindo para uma espécie de nacionalismo passadista ou fundamentalismo
religioso. Diria que somos o único grupo importante que não passamos nos últimos
anos por uma renovação."
EXTREMISMO
Os especialistas John Esposito e Fred Halliday rejeitam "guerra de
civilizações", advertem contra generalizações e analisam causas de
fundamentalismo
Radicalização ocupa vazio social e político
DA REDAÇÃO
Não é possível falar em um só mundo islâmico, assim como
não existe um mundo cristão homogêneo. Associar os supostos autores dos
atentados ao World Trade Center a todos os muçulmanos é o mesmo que relacionar
radicais protestantes que atacam crianças na Irlanda do Norte a todo o
cristianismo. Movimentos extremistas em países islâmicos se apropriam da
religião para preencher um vazio de opções políticas e sociais.
Isso é o que pensam dois dos mais importantes especialistas em islamismo, o
norte-americano John Esposito e o britânico Fred Halliday. Em entrevistas à Folha,
eles rejeitaram a teoria do "choque de civilizações", que antecipa
um confronto entre os países muçulmanos e o Ocidente, provocado por diferenças
culturais e religiosas. À ela, contrapõem a análise histórica e política.
Esposito, professor de religião e relações internacionais da Universidade
Georgetown, em Washington, afirma que a tendência de identificar o islã como
ameaça global veio substituir o comunismo, da mesma forma que o apelo à religião
para mobilizar a população se seguiu à falência de modelos nacionalistas e
socialistas adotados, após a independência, por países muçulmanos.
Para Fred Halliday, autor de "Islã: o Mito da Confrontação" e
professor da London School of Economics, o extremismo religioso é uma forma de
populismo:
"É uma reação demagógica contra o fracasso do Estado secular moderno,
visto como ditatorial, corrupto e incapaz de resolver os problemas sociais e
econômicos gerados pela rápida urbanização e o desemprego em massa. Tem
elementos de antiimperialismo e uma predileção por teorias conspiratórias."
A Revolução Islâmica de 1979 no Irã, diz Esposito, foi um marco disso.
"A revolução foi vista como a reafirmação da independência, da
identidade e dos valores islâmicos, e como a rejeição de governos autoritários
e da influência estrangeira excessiva."
Ambos advertem contra o risco de generalizações. "Há extremistas em
todas as religiões. O assassino do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin
é um exemplo de fundamentalista judeu que distorceu sua religião para
justificar um assassinato", diz Esposito.
"Os maiores crimes do século 20 foram cometidos por comunistas e
nazifascistas. Quem introduziu o terrorismo como arma no mundo contemporâneo
foram irlandeses, armênios e indianos", afirma Halliday.
Autor de "Islã Político, Além da Ameaça Verde", entre outras
obras, Esposito observa que a desvantagem, para os muçulmanos, é que sua
realidade é desconhecida no Ocidente: "Quando você vê notícias sobre
grupos cristãos radicais atacando clínicas de aborto nos Estados Unidos, você
automaticamente sabe que isso não representa a corrente principal da religião.
Mas, se você não sabe nada do islamismo e tudo que vê são radicais
agressivos, pode confundir a minoria com a maioria."
Esposito afirma que o problema do uso indiscriminado do termo
"fundamentalismo islâmico" é que, muitas vezes, ele inclui grupos
que atuam dentro do sistema. "Isso permite que regimes autoritários se
refiram a qualquer oposição como extremista, para justificar o uso da violência."
ENTENDA
Muçulmano - O que segue o islamismo. "Aquele que se submete a
Deus", em árabe. Nem todo muçulmano é árabe e nem todo árabe é muçulmano.
Afeganistão, Paquistão e Indonésia são majoritariamente islâmicos e não são
árabes.
Sunitas - Os que aceitaram a sucessão estabelecida após a morte de
Muhammad e seguem a "sunnat annabi" (tradição do profeta). São mais
de 85% dos muçulmanos. Arábia Saudita, Síria, Egito e Indonésia são países
com maioria sunita.
Xiitas - (de "shiaat Ali", partido de Ali). Discordam dos
sunitas e para eles, a linhagem sucessória devia ser formada por descendentes
do profeta -Ali era primo e genro de Muhammad (casado com Fátima) e devia ter
sido o primeiro califa. O xiismo é majoritário no Irã.
Jihad - "Esforço" na causa de Deus para difusão e proteção
do islamismo. Ficou caracterizado como "guerra santa" na imprensa.
Allah - Deus, em árabe.
Califa - Sucessor de Muhammad e, mais tarde, chefe político.
Fatwa - Decreto religioso.
Hajj - Peregrinação a Meca (Arábia Saudita) que todo muçulmano apto
deve fazer pelo menos uma vez.
Halal - Alimento em concordância com preceitos religiosos islâmicos.
Imã - Autoridade religiosa.
Sharia - Lei baseada no Alcorão e na Sunna, registro das ações e dos
dizeres do profeta Muhammad.
Xeque - (de ""shaikh", senhor). Líder religioso, mestre
espiritual.
Ummah - Comunidade religiosa.
Professor não acredita em guerra civil
NELSON FRANCO JOBIM
FREE-LANCE PARA A FOLHA, EM LONDRES
Existe um risco de guerra civil no Paquistão, em caso de uma violenta
intervenção militar americana no vizinho Afeganistão, mas é pequeno. A não
ser que haja uma catástrofe, as armas nucleares paquistanesas estão seguras,
afirma o professor Athar Hussain, subdiretor do Centro de Pesquisas sobre Ásia
da London School of Economics.
"Há um risco de guerra civil no Paquistão, mas não acredito que seja
grande. Os partidos fundamentalistas têm apoio de 2% a 3% do eleitorado. Essas
manifestações de rua podem degenerar em violência, mas foram autorizadas pelo
governo como válvula de escape", observou Hussain.
Athar Hussain admite que existe uma corrente fundamentalista no Exército
paquistanês, mas não vê como um golpe militar possa ser bem-sucedido.
O Exército é a pedra fundamental do Estado paquistanês. Governou o país
durante 27 dos seus 54 anos de história. Todos os golpes de sucesso foram dados
pelo comandante do Exército e todos os que fracassaram partiram de oficiais
inferiores.
Para o professor da LSE, os fundamentalistas afegãos não têm tanto apoio
popular no Paquistão, embora sejam uma peça do jogo geopolítico paquistanês
na região, servindo, por exemplo, de base de treinamento para os rebeldes da
região indiana da Caxemira, reivindicada pelo Paquistão:
"O Taleban é fruto das circunstâncias, é tão filho do Paquistão quanto
da CIA. O Paquistão está envolvido na guerra civil paquistanesa desde a invasão
soviética; a CIA também. Mas, no momento, é do interesse do Paquistão se
distanciar do Taleban. Os EUA vão suspender as sanções impostas depois dos
testes nucleares de maio de 1998 e reforçar a aliança entre os dois países,
enfraquecida com o fim da Guerra Fria."
O próprio Osama bin Laden, acrescenta Hussain, "é popular no Paquistão e
no mundo muçulmano não só porque resistiu à URSS e enfrentou os EUA, mas
também porque deixou a riqueza da família para se tornar guerrilheiro. Mas não
acredito que muita gente esteja disposta a morrer por ele".
Países do Oriente Médio vivem dilema: apoiar ou não EUA
DA REDAÇÃO
Países islâmicos do Oriente Médio enfrentam um dilema: oferecer ou não apoio
mais que retórico aos EUA, que colaboram com a manutenção de diversos regimes
ditatoriais na região, na cruzada/ jihad (George W. Bush já usou os dois
termos) contra o terrorismo. Teme-se despertar a fúria da população, que não
vê com bons olhos a aliança EUA-Israel.
A Arábia Saudita e o Egito aparecem como dois países-chave na coalizão
internacional antiterror, embora tenham dito que a cooperação deve
"desvincular terrorismo de resistência islâmica contra a ocupação
israelense".
Na categoria, estariam grupos como o Hamas (Harakat al Muqawama al Islamiia:
Movimento da Resistência Islâmica), que cometeu vários atentados contra
israelenses, e o Hizbollah (Partido de Deus), criado logo após a invasão do Líbano
em 1982, quando ao menos 20 mil pessoas morreram. O atual premiê de Israel,
Ariel Sharon, que comandou a ofensiva em território libanês, ameaça agora a
tentativa de forjar uma frente EUA-muçulmanos.
Nos dias seguintes aos atentados na Costa Leste, Israel invadiu diversas cidades
palestinas, como Jericó, Jenin e Ramallah, com um saldo de ao menos 20
palestinos mortos e cem feridos.
Diversos grupos extremistas islâmicos surgiram em meio ao conflito israelo-árabe
ou em resposta à presença de tropas estrangeiras no golfo Pérsico, convocadas
após a invasão do Kuait. Outros combatem o regime de seu próprio país -caso
do Egito.
Segundo o filósofo palestino Edward Said, "para a maioria das pessoas no
mundo islâmico e no árabe, os Estados Unidos oficiais são sinônimo de poder
arrogante, conhecido sobretudo por seu apoio hipocritamente generoso não apenas
a Israel como também a numerosos regimes repressores árabes, e por seu
desinteresse pela simples possibilidade de diálogo com pessoas e movimentos
seculares com queixas concretas".
Os EUA ajudaram a derrubar governos democraticamente eleitos em países islâmicos
e bloquearam as diversas tentativas de exigir na ONU a devolução de territórios
palestinos e sírios.
Desde a Guerra do Golfo (1991), o país mantém aviões e navios no golfo Pérsico,
incluindo a Arábia Saudita, o Kuait, os Emirados Árabes Unidos e Bahrein.
Nas raras entrevistas que concedeu, Osama bin Laden acusa os EUA de
"profanar" com sua presença militar a Arábia Saudita, berço do
islamismo, além de acusar os norte-americanos de apoiar incondicionalmente
Israel. O extremista também defende o fim de "comportamentos
ocidentais" em Estados muçulmanos.
A Arábia Saudita, país tradicionalmente refratário a influências
estrangeiras onde as lojas fecham, por lei, durante o horário da oração muçulmana
pode ver surgir focos de instabilidade com o envolvimento em um conflito no
Afeganistão. (PDF)
Para feminista, véu representa ícone da exploração
Osama bin Laden é um produto dos EUA que se revoltou
contra o país, diz escritora
DA REDAÇÃO
O véu "faz da mulher um ser marginal e resignado" e demonstra a
suposta submissão imposta a muçulmanas, na opinião da escritora egípcia
Aafaf Assaid, 38, autora de livros como "Assdqan Arrafiaah lilkzb" (As
pernas finas da mentira), "Saradib" (labirintos) e "Provat"
(ensaios), entre outros.
A seguir, trechos da entrevista que Aafaf concedeu do Cairo. (PAULO
DANIEL FARAH)
Folha - Como os intelectuais egípcios reagiram aos atentados na Costa
Leste dos EUA?
Aafaf Assaid - O sentimento aqui não difere do que se verificou no
mundo inteiro. Como qualquer ser humano de bom senso, condenamos a morte de
civis. Os intelectuais egípcios exortaram a uma reflexão e à condenação do
terrorismo contra civis, apesar das divergências muito fortes com os Estados
Unidos e com sua interpretação de terrorismo.
Escritores e ONGs condenaram qualquer tipo de terrorismo, incluindo o
norte-americano, que muitas pessoas consideram responsável pelo que aconteceu
em Nova York e nos arredores de Washington. A principal fábrica de terrorismo
do mundo, segundo alguns analistas, são os EUA. Osama bin Laden é um produto
norte-americano que se revoltou contra o país. Os EUA também fabricaram a
principal máquina terrorista do mundo: Israel.
Folha - Que tipo de medida a sra. acha que os EUA vão tomar?
Assaid - O que posso dizer é que, evidentemente, tenho medo do que vai
acontecer ao Afeganistão e de uma eventual vitória do terrorismo organizado,
que se esconde debaixo das asas do direito internacional. O que os EUA promovem
não é uma guerra, como dizem, pois a maior parte dos afegãos não têm armas.
Folha - Qual a situação das mulheres no Egito e em países do Oriente
Médio?
Assaid - Ainda há muito o que melhorar, mas houve alguns avanços nos
últimos anos.
Incomoda-me a utilização do discurso religioso para tentar justificar algumas
práticas. O sistema do casamento vigente e a necessidade de obediência cega são
lamentáveis, contrários ao humanismo. Já há leis que responderam à voz das
ruas, como a que permite à mulher, quando se divorcia, exigir do marido o dote
e os presentes, a fim de obter sua liberdade sem restrições.
Folha - Qual sua opinião sobre o uso do véu?
Assaid - A questão é complexa do ponto de vista teológico. Diversos
religiosos consideram o véu uma forma de proteger a mulher dos males da
sociedade. Muitas jovens o usam simplesmente para preservar as aparências.
Outras o fazem porque a família considera a menina uma bomba-relógio que deve
ser controlada para não explodir sua sexualidade. O véu, nesse caso, serve
para esconder a obviedade de que se trata de uma mulher.
Folha - A sra. costumava usar véu alguns anos atrás, não?
Assaid - De fato. Eu já passei por essa experiência. Costumava usar o
"niqab", que cobria todo o meu corpo e todo o rosto. Mas o "niqab"
não cobriu meus pensamentos nem minha consciência. Nenhum tipo de cobertura
foi capaz de obscurecer ou anular o vulcão da vida em minha mente e em minha
alma. Se observarmos a filosofia do véu, vamos compreender que ele é uma arma
arriscada para o corpo. Talvez seja, como dizem, um símbolo da submissão
intelectual e corporal que apenas a mulher tem de assumir. O véu é uma idéia
machista que favorece a sociedade beduína e faz da mulher um ser marginal e
resignado.
Em minha opinião, o véu não simboliza uma resistência cultural, como muitos
dizem, mas é um ícone da exploração e da posse impostas ao corpo feminino,
considerado pelos beduínos sua honra e seu território.
O véu invadiu a sociedade do Egito, berço da civilização onde a mulher tinha
liberdade completa e participava socialmente em pé de igualdade com o homem. A
mulher egípcia era sagrada.
Folha - Como a sra. vê as críticas e a possível punição à
feminista egípcia Nawal al Saadaui, que disse que a peregrinação a Meca foi
herdada do paganismo?
Assaid - Com muita preocupação. Estamos promovendo uma campanha para
ajudá-la.
Folha - Qual sua análise da participação de grupos religiosos na política
do Egito?
Assaid - Movimentos islâmicos possuem pouco menos de 5% das cadeiras do
Parlamento, mas são organizados e influentes. Oferecem serviços sociais e médicos.
HERANÇA
Enquanto a Europa atravessava a "era das trevas", os países da órbita
islâmica aprimoravam a filosofia, a medicina, a matemática e a astronomia
Época áurea legou avanços na ciência e na cultura
"Meu querido pai, você me pergunta se deve me trazer
dinheiro. Saiba que, quando deixar o hospital, receberei roupa nova e cinco
moedas de ouro, o que permitirá que eu não volte a trabalhar tão cedo. Mas
você deve se apressar caso ainda queira me encontrar. Estou no serviço de
ortopedia, ao lado da sala de operação. Para me achar, após atravessar o portão
principal, pegue a galeria sul. Fica aí a policlínica para onde me levaram
depois que eu caí. Os doentes são examinados nesse local, quando chegam, pelos
médicos assistentes e pelos estudantes. Aos que não precisam ser
hospitalizados, é entregue uma receita preparada ao lado, na farmácia do
hospital. Assim que o exame terminou, registraram-me e fui levado ao médico-chefe.
Depois disso, um enfermeiro me transportou para a seção dos homens, me fez
tomar um banho e me deu uma roupa limpa. Então você deve virar a esquerda
junto à biblioteca e ao grande anfiteatro onde o médico-chefe ministra seus
cursos... Se ouvir música ou cantos através da divisória, adentre a sala. É
possível que eu esteja na sala de estar reservada aos convalescentes, onde a
gente se diverte com música e livros. Esta manhã o médico-chefe veio, como de
costume, fazer sua turnê, acompanhado de seus assistentes e de seus
enfermeiros. Depois de me examinar, deu uma ordem ao médico responsável por
mim. Este me informou que eu poderia me levantar no dia seguinte e que em breve
sairia do hospital. Mas saiba que eu não tenho a mínima vontade de ir embora.
Tudo aqui é tão claro e tão limpo!"
PAULO DANIEL FARAH
DA REDAÇÃO
Essa carta foi escrita há cerca de mil anos. As instalações descritas não se
encontram em muitos dos hospitais atuais. No século 10, a cidade de Córdoba,
na Península Ibérica, possuía 50 estabelecimentos hospitalares. Ao contrário
dos hospitais europeus, onde era oferecido conforto religioso mais que
tratamento médico, os do mundo islâmico eram vistos como um lugar em que os
doentes podiam talvez ser curados.
Escolas de medicina e bibliotecas se ligavam aos hospitais. Os alunos aplicavam
o que tinham aprendido na sala de aula no atendimento aos doentes, na ala
masculina ou na feminina. No século 11, já havia clínicas móveis, que
levavam assistência médica aos que moravam longe ou estavam enfermos demais
para ir ao hospital.
No mesmo período, o Cânone (Qanun) de Abu Ali al Hussain Ibn Sina (Avicena)
trouxe descrições de doenças e tratamentos. A obra do médico, filósofo,
astrônomo, físico, músico e poeta foi usada nas escolas de medicina durante
mais de 700 anos.
O uso da anestesia em cirurgias foi observado nessa época, assim como o estudo
da ótica. A ciência da visão combinava conhecimentos de disciplinas muito
diferentes: a anatomia do olho e do sistema nervoso óptico foi descrita na
literatura médica; a psicologia da percepção era uma questão de filosofia; a
natureza da luz era abordada pela física propriamente dita. O tratado de Ibn al
Haytham -"A Ótica"- foi traduzido para o latim e exerceu grande
impacto sobre a ciência européia.
Um dos primeiros tratados farmacológicos foi feito em 760, por Jabir ibn Hayyan,
considerado o pai da alquimia árabe. A farmacopéia era extensa e incluía a
descrição da origem geográfica, das propriedades físicas e dos métodos de
aplicação do que pudesse ser útil ao tratamento. Os farmacêuticos muçulmanos
introduziram vários medicamentos na prática clínica, como a cânfora, o sândalo,
a mirra, o mercúrio e outros.
No início do século 9º, as primeiras farmácias particulares foram abertas em
Bagdá -os preparados eram disponibilizados sob várias formas: pomadas, pílulas,
elixires, tinturas, supositórios e inalantes. Na cidade iraquiana, que foi um
grande centro civilizatório ao lado de Damasco e Cairo, Ibn Barmak inaugurou o
primeiro hospital particular em 803.
Arrazi (conhecido na Europa como Razes) escreveu mais de cem trabalhos científicos,
incluindo a primeira avaliação clínica da varíola. O debate em torno da ética
médica foi outra contribuição importante de muçulmanos.
Enquanto a Europa atravessava a "era das trevas", os países da órbita
islâmica aprimoravam diferentes áreas da ciência.
Produziu-se um conjunto significativo de literatura científica na língua árabe,
com livros traduzidos do grego, sânscrito, siríaco e pérsico, além de muitos
tratados originais. O islã serviu como uma ponte entre a antiga cultura grega e
a chamada Idade Moderna.
Segundo o filósofo palestino Edward Said, "toda a criação de uma retórica
científica em ótica, em física e em astronomia, principalmente do século 10
ao século 15, foi invenção dos árabes".
Foram matemáticos árabes que introduziram na Europa os algarismos indianos
(também conhecidos como arábicos) e o conceito do número zero, fundamental
para chegar aos números negativos. A trigonometria e a álgebra (aljbr) foram
desenvolvidas sobretudo por adeptos do islã.
Em 875, Muhammad al Khwarizmi (de onde veio o termo algarismo) utilizou uma
letra para representar a incógnita. O uso do "x" vem de "shay"
(coisa, em árabe). A classificação de equações segundo seus graus, por Omar
Khayyam, em 1131, é outra contribuição matemática.
O desenvolvimento dos astrolábios permitiu a confecção de tabelas astronômicas
precisas, necessárias a fiéis que precisavam orar voltados em direção a
Meca. Muito antes de Nicolau Copérnico, o astrônomo Abu Reyhan Biruni
(973-1048) descreveu o sistema solar com precisão, desafiando os dogmas que
faziam da Terra o centro do universo. Abu Nasr al Farabi (872-950), mestre de
Biruni e de Avicena, era conhecido como "almuaalem aththani" (o
segundo mestre da humanidade -o primeiro era Aristóteles).
No século 8º, muçulmanos estudaram as mecânicas celestes e elaboraram
tabelas astronômicas a partir do desenvolvimento do astrolábio. Uma teoria
embrionária da gravidade apareceu no Livro da Sabedoria (1121-2).
Muçulmanos conceberam equipamentos para destilação, evaporação e outros
processos no século 9º. No século seguinte, a divisão entre animais,
vegetais e minerais foi estabelecida. Descreveram-se substâncias como amônia e
ácido nítrico, e foi realizada a extração do álcool (do árabe alkuhul).
Todo esse conhecimento transferido de muçulmanos para a Europa foi matéria-prima
vital para a revolução científica.
A primeira palavra revelada ao profeta Muhammad, dizem os muçulmanos, foi
"Leia" (Iqra'). Entre os ahadith (ditos atribuídos a Muhammad), há vários
que incentivam a pesquisa, como "busque o conhecimento do berço até o túmulo"
e "a tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir".
O humanismo acuado pela injustiça
Em clima de emoção ainda exacerbada, é difícil distinguir uma religião dos desvios que ignorantes podem praticar
JOÃO BATISTA NATALI
Tahar Benjelloun, 57, escritor marroquino radicado na França, narra a cena em
que sua filha de sete anos o procurou há dias para saber "se é verdade
que os muçulmanos são gente do mal".
A opinião, por mais simplista e caricatural que seja, é um novo subproduto dos
atentados cometidos em Washington e Nova York, e cujos autores Benjelloun
qualifica de "ignorantes" dos fundamentos islâmicos.
Benjelloun é autor de 25 livros, dois deles publicados em 2000 no Brasil:
"Os Frutos da Dor" (Record) e "O Racismo Explicado a Minha
Filha" (Via Lettera).
Leia abaixo os principais trechos de sua entrevista.
Folha - O sr. acredita ser possível conter o sentimento antiislâmico
despertado pelos atentados em solo norte-americano?
Tahar Benjelloun - Não será fácil, sobretudo porque são de carne e
osso aqueles que utilizaram o Islã para cometer esses crimes. Nesse clima de
emoção ainda exacerbada, é difícil para as pessoas distinguir uma religião
e sua cultura dos desvios catastróficos que ignorantes podem praticar. É
preciso, de qualquer modo, insistir no fato de que o islamismo é uma religião
de fundamentos humanistas, e que no Alcorão não há um único versículo que
justifique o assassinato ou o suicídio. São atos claramente proibidos e
punidos pela religião muçulmana.
Folha - Mas a questão não é teológica. Ela se tornou política.
Benjelloun - Com certeza. Daí derivam as dificuldades de esclarecê-la
às pessoas.
Folha - Os países árabes teriam credibilidade para fazer algo?
Benjelloun - Os mundos árabe e muçulmano não foram hábeis na propagação
de uma imagem mais apropriada do islamismo. Da mesma forma com que não
demonstraram competência na neutralização de grupos de extremistas que,
dentro de suas fronteiras, exercem suas atividades.
Folha - Mas esses grupos não atuam a partir do nada. Eles evocam
sempre algum pretexto.
Benjelloun - Isso é exato, e cito dois exemplos. As pessoas tendem a
ignorar que há anos a aviação norte-americana bombardeia alvos civis
iraquianos. A população, já vítima da ditadura de Saddam Hussein, torna-se
também vítima da ação de uma superpotência. Digamos que não se pode
esperar que famílias assim atingidas demonstrem afeto pelos EUA. Um segundo
exemplo: o quadro de tensões no Oriente Médio está distante de uma solução.
Que cessem a ocupação e a colonização das terras palestinas por Israel, que
não mais se enviem mísseis contra campos de refugiados palestinos. Sem uma
solução de paz, justa para israelenses e palestinos, os militantes movidos
pelo ódio continuarão a atuar.
Folha - O sentimento antiislâmico seria hoje tão forte quanto em
1972, quando do atentado palestino na Olimpíada de Munique?
Benjelloun - Em verdade, vivemos momentos cíclicos de crise desde 1948,
quando os palestinos foram expulsos de suas terras e se sucederam conflitos
entre árabes e Israel. Basta conversar com as pessoas em aldeias da Líbia ou
do Egito para colher opiniões sobre o paradoxo da posição dos EUA em muitos
desses episódios. "Se é um país que defende as liberdades, ele deveria
se posicionar do lado dos mais fracos", ouvi muitas vezes. O atentado de
Munique, por mais condenável, bárbaro e injustificável que tenha sido, foi no
fundo uma maneira de chamar a atenção mundial para a persistência do problema
palestino.
Folha - Antes mesmo de 1948 o mundo árabe não teria tido sua imagem
desfavorecida pelo colonialismo europeu?
Benjelloun - Isso é verdade. O colonizador enxerga o colonizado como um
inferior. Mas a descolonização ocorreu há quatro décadas, e desde então o
mundo árabe teve a infelicidade de reunir governantes que não promoveram o
desenvolvimento econômico e não criaram padrões que lhes dessem
respeitabilidade internacional. Mesmo os emirados do Golfo utilizaram os petrodólares
para equipar seus Exércitos e enriquecer um punhado de famílias.
Folha - Seria essa a raiz de um mal-entendido?
Benjelloun - O islamismo é mal compreendido. Li dia desses que na França
as livrarias estão vendendo grande quantidade de exemplares do Alcorão. Mas não
é nele que estão as respostas para a compreensão dessa cultura e dessa
civilização. Elas estão na literatura, nos estudos econômicos, políticos,
sociológicos. Que, aparentemente, não despertam a mesma curiosidade do público.
Folha - O atentado de Oklahoma, em 1995, foi praticado pela
extrema-direita norte-americana. Mas não se assistiu na época uma caça aos
direitistas. Por que?
Benjelloun - Em verdade, existe uma diferença na percepção do
terrorismo, por mais que ele seja sempre e visceralmente condenável. Os
atentados na Irlanda ou na Espanha têm como autores cidadãos ocidentais. A
Espanha, que tem no turismo externo uma grande fonte de renda, nunca foi vítima
de campanhas que a considerassem perigosa para os estrangeiros. Mas no Egito um
atentado provocou o cancelamento maciço de vôos e excursões. Há dois pesos e
duas medidas.
Folha - São os únicos exemplos que o sr. tem para dar?
Benjelloun - Eu também citaria o caso do escritor francês Michel
Houlebecq, cujo romance "Plateformes", lançado em agosto, traz dos árabes
uma visão racista e difamatória. Perguntei a amigos o que ocorreria caso se
tratasse de um romance anti-semita. A indignação seria com certeza geral.
Folha - A visita do presidente Bush a uma mesquita não foi um gesto
apaziguador?
Benjelloun - É logicamente um gesto positivo. Mas se iniciativas como
essa não se multiplicarem, os muçulmanas continuarão a conviver com o medo.
Folha - O sr. constata esse medo também na França?
Benjelloun - Eu constato esse medo dentro de minha própria casa. Dia
desses minha filha menor, de sete anos, procurou-me para dizer que "os muçulmanos
são gente do mal". Precisei então explicar que o islamismo nunca prometeu
o paraíso para os terroristas, e que entre nós os assassinos também vão para
o inferno.
Séculos de confronto nos Bálcãs
RODRIGO UCHÔA
Nos séculos 6º e 7º, mais ou menos no mesmo período histórico em que o
profeta Muhammad fez a sua peregrinação de Meca para Medina, os eslavos se
assentaram numa região montanhosa que hoje conhecemos como Bálcãs. Alguns séculos
depois, a história de eslavos, de gregos e de albaneses se cruzaria e se
confundiria de modo indelével com a história do islã.
Os turcos otomanos, povos não-árabes convertidos ao islamismo, conquistaram
Constantinopla no século 15, acabando com o Império Bizantino. A expansão
otomana os levou a dominar a península balcânica, de tradição religiosa
ortodoxa grega. Só foram detidos às portas de Viena.
"Em quase 300 anos, a coexistência era mais aceita no Império Otomano do
que em toda a cristandade", afirmou à Folha Mark Mazower, especialista em
história dos Bálcãs, autor de vários livros sobre o assunto e professor da
Universidade de Londres.
Para o historiador, a intolerância religiosa entre católicos romanos e cristãos
ortodoxos era enorme. Os camponeses teriam se beneficiado do governo otomano.
"Não havia um senso geral de igualdade, mas, de um modo ou de outro, eram
todos súditos do sultão."
De fato, cristãos e judeus eram tolerados como "povos do livro",
apesar de enfrentar diversas discriminações: pagavam mais impostos do que os
muçulmanos; não podiam andar a cavalo; não podiam usar verde -cor do islã-;
havia limitação de altura para suas igrejas; e outras várias.
Em 1517 e em 1647, os otomanos cogitaram a islamização forçada dos Bálcãs,
mas a oposição religiosa no próprio islã foi enorme, já que a lei corânica
proíbe isso. "Já que os otomanos cobravam mais impostos de praticantes de
outras religiões, não fazia sentido islamizar à força", diz Mazower.
O sultão Mehmed 2º reconheceu, em meados do século 18, cristãos e judeus
como "zimmi" (povos protegidos). Foi nessa época que a Igreja
Ortodoxa Grega adquiriu poderes políticos e tornou-se "a voz dos súditos
ortodoxos no império", segundo o sultão.
"Ser grego era ter certo prestígio, mas a maioria dos cargos militares e
de administração só podia ser ocupada por muçulmanos, o que levou muitos
albaneses e bósnios a "abraçar" a religião muçulmana", diz o
jornalista cazaque Nursulan Surayev, que está escrevendo um livro sobre história
econômica do islã.
"Constantinopla era um centro econômico importantíssimo. Só para dar uma
idéia de sua pujança, em 1600, a cidade tinha cerca de 250 mil habitantes;
Londres e Paris tinham por volta de 200 mil, cada; Roma, 100 mil; e Viena, 50
mil. Valia a pena se integrar ao império", afirma Surayev.
Nacionalismos
Antes do século 19, um camponês bósnio não diria que era tão diferente de
um camponês búlgaro, por exemplo. Para Mazower, "havia cristãos e muçulmanos.
Apesar do grande número de línguas e culturas, era essa a diferença essencial
entre as pessoas".
Mas, após a Revolução Francesa, a idéia de Estado-nação montado sob uma
população etnicamente homogênea tomou força.
Para o cientista político Carl Anheim, da Universidade de Londres, foi entre os
séculos 18 e 19 que se formaram os ódios religiosos e étnicos presentes até
hoje.
Para ganhar a independência, gregos e eslavos acabaram pedindo ajuda aos impérios
que estavam em conflito com os otomanos: "Os britânicos tinham interesses
enormes na África; os russos -ortodoxos e eslavos como os sérvios, por
exemplo- queriam garantir uma saída do mar Negro para o Mediterrâneo e estavam
em expansão na Ásia Central", conclui Anheim.
Com a ajuda desses impérios, os Estados balcânicos que deram origem aos atuais
acabaram se formando entre os séculos 19 e 20, agrupando importantes minorias
religiosas e étnicas.
São essas minorias, hoje, que pedem autonomia nos países de religião
ortodoxa, como Iugoslávia e Macedônia. Foi esse caldo de séculos de lutas que
desembocou na intolerância e na barbárie que vimos nos conflitos da Bósnia,
de Kosovo e da Macedônia.
RELIGIÃO
Três correntes disputam conceitos
MATEUS SOARES DE AZEVEDO
O desafio representado pelo modo de vida ocidental moderno provocou as mais
diversas reações por parte dos povos islâmicos. Poder-se-ia falar em três
tipos principais de posturas, uma das quais engendrando, em seu extremo limite,
o movimento de intolerância que levou ao suposto terrorismo por parte de Bin
Laden e outros.
A primeira dessas correntes pode ser caracterizada como a do "aggiornamento",
para usar termo cunhado por modernistas católicos que levaram a cabo política
de "acomodação" da Igreja às tendências secularizantes.
Essa tendência também se manifestou no mundo islâmico, sem propor exatamente
mudanças na doutrina e nos rituais, mas "compromisso" com o Ocidente
moderno, sua cultura, seus costumes e sua ideologia, seja ela liberal ou
marxista. Os "modernistas islâmicos" abrangem um espectro amplo de
posições políticas, sociais e religiosas, incluindo o "nacionalismo árabe"
de Nasser, o "socialismo islâmico" da Argélia e até mesmo, em certa
medida -já que seu ideário encampa teses "fundamentalistas"-, a
Revolução Islâmica de Khomeini. A idéia predominante é a de "acomodação"
com as ideologias modernas.
O segundo grupo, que pode ser denominado de "Islã tradicional", é a
tendência mais tolerante para com outras religiões e culturas e também a mais
mística e contemplativa, corporificando-se sobretudo nas fraternidades sufis,
as "tariqahs". Existentes por todo o "Dar el Islam" até
hoje, os sufis são responsáveis pelas principais produções da cultura e da
arte.
Apesar disso, do ponto de vista da força política, essa corrente não tem a
presença material das duas outras tendências principais. Não obstante, ela
acredita no "poder da verdade" e, mesmo minoritária, continua
influente tanto entre a elite intelectual quanto entre o povo mais piedoso.
Essa perspectiva, que chamamos de "tradicional", é pacífica e
prefere recorrer à oração, à meditação e à prática das virtudes
fundamentais, como a generosidade, do que pegar em armas para fazer valer seu
ponto de vista.
A terceira corrente, que nos interessa mais no momento, é a que mais comove o
Ocidente. Trata-se do chamado "fundamentalismo". Como as outras duas,
abrange vasta gama de posições, desde a que implica uma interpretação
literal das injunções corânicas, dos "hadiths" (ditos tradicionais)
e da "sunna" (modos e costumes do profeta), mas que são pacíficos,
até aqueles que, como Osama bin Laden, propõem diretamente o terror contra o
Ocidente.
Essa posição quer, de certa forma, retornar à "primitiva pureza" do
Islã, baseando-se exclusivamente no Alcorão e nos "hadiths",
interpretados de maneira literal e limitada. Desejam, do mesmo modo, descartar
todas os desdobramentos culturais, filosóficos e artísticos que acompanharam a
história da civilização islâmica e seus contatos com vários povos e
culturas do mundo.
Entre os corifeus dessa tendência fundamentalista, menção deve ser feita ao
"pai" da Arábia Saudita, Mohamed ibn abd al Wahab, de quem deriva o
termo "wahabismo". Os wahabistas têm uma visão bastante jurisdicista
da tradição e apegam-se estritamente às injunções da sharia, a lei islâmica.
Combatem todos os aspectos da civilização ocidental, sempre de maneira emotiva
e tacanha.
Os fundamentalistas lutam em geral pela independência política dos países islâmicos
e contra a influência ocidental, em favor dos costumes primitivos e da aplicação
rigorosa da lei islâmica. Ao mesmo tempo, são, por assim dizer, indiferentes
ao rico legado filosófico, artístico e místico do Islã medieval e de suas
contribuições para toda a civilização ocidental.
Nas bordas extremas dessa corrente, ou em seus "porões", grassam
grupos minoritários, condenados pela maioria dos muçulmanos, que propõem e
praticam o terror para chegar a seus objetivos. Entre eles, destaca-se o grupo
de Osama bin Laden, o Al Qaeda (a base), que distorce versículos do Alcorão
para legitimar sua ideologia e seu terrorismo.
Segundo a perspectiva islâmica tradicional, esses movimentos extremistas
pervertem os versículos corânicos que tratam da jihad, que literalmente
significa "esforço" e que implica limites precisos. Exclui, por
exemplo, a luta por uma causa mundana. Se seu objetivo é a obtenção de
riquezas, a glória pessoal ou o ódio contra outro povo, não é jihad.
Esses agrupamentos militantes e extremistas têm um vínculo superficial com o
Islã, aderem a ele como se adere a uma torcida organizada de futebol, de forma
apaixonada e cega. A última coisa que se encontra neles é espiritualidade, que
constitui justamente o cerne da mensagem islâmica.
Mateus Soares de Azevedo é mestre em História das
Religiões pela USP e autor de "Iniciação ao Islã e Sufismo"
(Record), "Mística Islâmica" (Vozes) e "Religião e
Esoterismo" (no prelo).
Entre as riquezas do passado e as incertezas do presente
FRANK USARKI
Tradição e modernidade disputam palmo a palmo os meandros do islã, uma das
religiões menos compreendida pelos olhos apressados do Ocidente. Para seus
adeptos, entretanto, o "progresso", pelo menos o econômico, tem
vantagens somente para poucos, ressalta Peter Antes, 59, professor de ciência
da religião na Universidade de Hannover, um dos maiores conhecedores do
islamismo na Alemanha e presidente da Associação Internacional para a História
das Religiões.
Doutor em teologia católica e em filosofia pela Universidade de Freiburg, ele
pesquisa os problemas atuais da ética islâmica, religiões e comunidades
religiosas na Europa contemporânea.
Leia os principais pontos da entrevista de Antes à Folha.
Divisões do islã
A divisão mais visível, no mundo islâmico, é entre os sunitas [85%" e
os xiitas [15%". Mas a situação não se restringe a isso. Dentro dos
sunitas se desenvolveram diversas escolas jurídicas, que impuseram diferentes
interpretações da religião. Por exemplo, os hanbalitas, que exercem
autoridade na Arábia Saudita, são considerados conservadores, enquanto os
shafiitas, fortes no Egito, representam uma das linhas mais liberais do islã.
Além disso, há outra divisão principal: entre o islã da sharia [lei islâmica]
e o islã místico, ou seja, o sufismo. O primeiro é caracterizado por regras
de conduta de acordo com a ordem divina. A corrente mística dá mais valor à
experiência religiosa.
Existem ainda novos grupos que se formaram em reação à modernidade. Há, como
pólos extremos, adaptação total e rejeição total, mas, na prática, a
maioria dos grupos recentes defende posições intermediárias.
Tensões internas
No momento, o tema predominante é a identidade islâmica, incluindo a questão:
qual foi, no passado, o islã que deve ser restaurado ou preservado atualmente?
Para muitos a resposta é clara: é o islã da sharia ou seja, o islã numa época
em que as escolas jurídicas já tinham sido estabelecidas e respondiam
sistematicamente a todas as perguntas que passaram a surgir a partir de então.
Seu ponto de referência é uma fase histórica do islã que começou cerca de
200 anos depois da morte do profeta e que tem influenciado grande parte do mundo
islâmico, tanto na sua legislação quanto na vida cotidiana do povo.
Outros grupos, por exemplo os ismaelitas, sob a liderança de Agha Khan,
destacam a necessidade de distinguir no Alcorão os conteúdos que são
eternamente válidos daqueles temporalmente condicionados.
Jihad
A guerra contra Israel ou a Guerra do Golfo contra os americanos foram chamadas
jihad, o que implica a idéia de que cada muçulmano que morre em combate é um
mártir e entra automaticamente no paraíso. Mas representantes oficiais da
teologia e da jurisdição islâmica sempre se articularam de um jeito muito
mais cauteloso. Quanto a ações terroristas, a situação é ainda mais clara:
do ponto de vista "ortodoxo", não é adequado legitimá-las como
jihad.
Fundamentalismo
Originalmente, o termo fundamentalismo foi cunhado para designar certas
manifestações no protestantismo americano. No fim dos anos 70, foi transferido
para a Revolução Islâmica no Irã e depois também para outros grupos
extremistas, por exemplo, na Argélia ou no Egito. Finalmente, o termo se impôs
como nome genérico para todos os grupos extremistas em todas as religiões.
O termo é popular porque sua generalidade serve para reduzir a complexidade ao
reunir grupos diferentes sob a mesma categoria. Assim, o termo impede uma percepção
detalhada, mas aponta para qualquer aspiração contra a modernização da
sociedade, em favor da restauração de padrões tradicionais da vida e das
estratégias violentas para realizar suas finalidades.
Perspectivas
Muitos muçulmanos no Oriente acham que o chamado "progresso" tem
vantagens somente para poucos, enquanto a maioria da população é cada vez
mais marginalizada e os jovens não têm perspectivas para o futuro. Antigamente
comunismo, marxismo e socialismo criticavam tais tendências e exigiam mais
justiça social. Hoje, todas essas ideologias importadas do Ocidente foram
deixadas de lado, uma vez que o capitalismo triunfou. A força que ganhou
contribuiu para o crescimento da globalização, sem que as calamidades fossem
reparadas.
É nesse contexto que se fortalece a religião que critica a exclusão e a
marginalização e enfatiza que a situação atual não corresponde à vontade
de Deus e ao sentido da sua criação.
ISLÃ POP
Rap norte-americano é território dominado por artistas convertidos que
fazem de suas letras um lugar de pregação
Guerrilha urbana ataca com ritmo e poesia
MARIO CESAR CARVALHO
Allah, que ouve tudo e tudo vê, sabe que a guerra é inevitável e que eu sou o
terror. Quando granadas cruzarem os céus causando pura destruição, queimando
completamente a Babilônia, os demônios comedores de animais envenenados saberão
que nós -os deuses, os pais da civilização, o homem original, o creme do
planeta Terra- somos os escolhidos porque nenhum demônio consegue enganar um muçulmano
nos dias de hoje."
Não, a mensagem acima não é uma suma das idéias do terrorista saudita Osama
bin Laden. É uma montagem de frases retiradas do disco "Wu-Tang Forever"
(1997), do grupo de rap Wu-Tang Clan. Demônios ou comedores de animais
envenenados, uma referência aos porcos proibidos pelo islamismo, são formas
como eles designam os brancos.
Wu-Tang Clan é o mais radical, mas não é único grupo de rap dos EUA formado
por muçulmanos. A lista de rappers que se proclamam muçulmanos é tão extensa
quanto os palavrões que eles intercalam nas letras: Public Enemy, Ice Cube,
Afrika Bambaataa, Digable Planets, A Tribe Called Quest, Everlast, Gang Starr,
Eric B and Rakim, Sister Souljah, Queen Latifah, Brand Rubian, Big Daddy Kane,
Poor Righteous Teachers e Nas. Até cantoras mais pop, como Lauryn Hill, se
dizem simpatizantes do islamismo.
"No rap americano, os artistas muçulmanos são os mais importantes e os
mais influentes", disse à Folha a pesquisadora norte-americana de rap
Adija Banjoko, que está escrevendo um livro sobre o tema chamado "A Luz do
Oriente: a História da Influência islâmica na Cultura Hip Hop". Segundo
Adija, ela própria uma muçulmana convertida, nenhuma outra religião afetou
tanto o rap como o islamismo.
Os números ajudam a atestar a idéia de Adija de que o rap cantado por
americanos convertidos em muçulmanos é hegemônico hoje: só o Wu-Tang Clan
vendeu mais de 30 milhões de CDs pelo mundo. O CD com as barbaridades citadas
na abertura desse texto vendeu 3 milhões de cópias no mês de lançamento nos
EUA. Superou até Spice Girls.
O rap como propaganda
Com cerca de 6 milhões de adeptos nos EUA, o islamismo é a religião que mais
cresce naquele país. Os seguidores norte-americanos não cansam de repetir que
essa cifra supera a soma de mórmons, testemunhas de Jeová, adventistas do Sétimo
Dia, "quakers" e cientistas cristãos.
O avanço do islamismo nos EUA começou nos anos 60 com um golpe de marketing
que se repete até hoje: a conversão de pessoas famosas. O marco zero dessa
estratégia talvez seja a adesão de Cassius Marcelus Clay Jr., um dos
boxeadores mais mitológicos da história. Em 1965, quando já havia jogado num
rio a medalha de ouro que ganhara numa Olimpíada, em razão do crescente
racismo nos EUA, ele torna-se Muhammad Ali, ou "o adorado de Allah".
Ali aderiu à Nação do Islã, a mais estridente das facções islâmicas dos
EUA naquela época. Foi o próprio Malcolm X, o mais famoso pregador da Nação
do Islã, quem converteu Ali.
O radicalismo político que acompanharia certos grupos islâmicos também nasceu
com Ali. Em 1966, ele alegou razões de fé para não lutar na Guerra do Vietnã,
para deleite dos esquerdistas e fúria dos republicanos.
Quase 30 anos depois, Mike Tyson seguiria o mesmo caminho de Ali. Sua conversão
ocorreu na penitenciária, espaço em que os islâmicos têm uma presença tão
forte quanto os evangélicos nas prisões brasileiras.
Foi nos subúrbios pobres, onde os islâmicos começaram a pregar durante a
Depressão dos anos 30, que o discurso dos muçulmanos e o rap se encontraram.
Tanto o Harlem quanto o Bronx, os berços do rap, têm mesquitas desde os anos
50, pelo menos.
Um dos primeiros rappers a entremear citações a Allah com incitamentos à
derrubada do poder foram os do Public Enemy, talvez o grupo mais influente na
história do rap, ainda na década de 80.
No disco "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back", de 1988,
eles aconselhavam: "Farrakhan é um profeta que eu acho que você deve
ouvir".
Louis Farrakhan é o líder da Nação do Islã e organizador da marcha que
levou mais de 1 milhão de pessoas a Washington em 1995. Ele sabe perfeitamente
que o rap é a melhor forma de propaganda entre os negros pobres: "Um rap
é muito mais valioso para vocês do que mil dos meus discursos", disse num
encontro de rappers em junho deste ano.
Morte aos brancos
Seria ingênuo imaginar uma unidade no discurso dos rappers ditos islâmicos. Há
pacifistas ferrenhos (Afrika Bambaataa), islâmicos que flertam com o marxismo (Digable
Planets e seus tributos aos Panteras Negras, grupo esquerdista dos anos 60) e
rappers que pregam a supremacia negra, caso do Wu-Tang Clan e Poors Righteous
Teachers.
Na década de 80, o discurso radical de certos grupos islâmicos parecia
substituir para os jovens a militância de esquerda, praticamente inexistente
nos EUA.
Nos anos 90, porém, a ascensão de um subgênero de rap que prega abertamente a
violência dos negros contra os brancos (chamado "gangsta") vai
desembocar na intolerância, e os rappers ditos islâmicos não ficam incólumes
a esse fenômeno.
O discurso do orgulho negro, cuja divisa é uma frase de James Brown dos anos 70
("Eu sou negro e me orgulho disso"), é substituído pela misoginia,
pela pregação da supremacia negra e pelo anti-semitismo.
Os pregadores da supremacia negra são ligados a um grupo islâmico chamado 5%
Nação do Islã. Criada em 1964, a facção tem uma mitologia muito peculiar:
os 5% se referem aos integrantes do grupo, que se autodenominam
"deuses", e se consideram os escolhidos de Allah. Acreditam que Deus
é negro e que os negros são os homens originais da Terra. Chamam Manhattan e
Brooklyn, respectivamente, de Meca e Medina, as cidades sagradas do islamismo.
O fato de esses rappers serem cultuados tanto nos guetos pobres habitados por
negros e latinos e nos subúrbios brancos de classe média é, paradoxal e
perturbador, segundo o antropólogo Ted Swendenburg, professor da Universidade
de Arkansas.
É paradoxal, nota Swendenburg, porque os jovens brancos estão dançando com um
som que prega a morte deles. É perturbador porque revela a incapacidade dos
norte-americanos de entender a diferença. O maior sintoma dessa incapacidade,
diz Swendenburg, é o silêncio das elites pensantes sobre esse tipo de música.
Árabes viraram "turcos" no Brasil
DA REDAÇÃO
O número de muçulmanos no Brasil chega a 1,5 milhão, segundo a Federação
Islâmica Brasileira. "Os muçulmanos se concentram nas cidades que têm
mesquitas e escolas islâmicas -ao menos 40. A maior comunidade islâmica está
no Paraná e no Rio Grande do Sul, mas há grupos importantes em cidades de São
Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. A predominância é de sunitas, embora
nos anos 1980 tenha havido uma grande imigração de xiitas devido à Guerra do
Líbano", diz o historiador André Castanheira Gattaz, 33, que defende uma
tese de doutorado sobre emigração libanesa para o Brasil na próxima terça,
no departamento de história da USP (Universidade de São Paulo).
Os brasileiros aprendem a rezar em árabe, pois as orações (cinco por dia)
devem sempre ser feitas nessa língua. O país abriga a primeira mesquita da América
Latina. Inaugurada em 1956, a Mesquita Brasil reúne em torno de 600 pessoas às
sextas-feiras -dia sagrado para o islamismo.
O brasileiro Muhammad Ragip converteu-se ao islamismo em 1990, na Turquia.
Antes, era católico. Os pais e a mulher dele também se converteram.
Sem ascendência árabe -o nome foi adotado após a conversão-, o xeque Ragip
evitava falar sobre o assunto no trabalho.
"Como existe um preconceito muito forte contra o islã, durante quase oito
anos eu omiti. Quando as pessoas sabem que você é muçulmano, normalmente
demonstram forte reação negativa. Se perguntassem, dizia que minha religião
é a submissão a Deus, que é o significado de islã", afirma.
Segundo Ragip, "a ênfase do sufismo (denominação que segue, marcada pela
mística) é a busca de Deus pelo caminho do amor".
"As três religiões [islamismo, cristianismo e judaísmo" têm a
mesma origem, o mesmo fundamento, a mesma visão", afirma o xeque Armando
Hussein Saleh.
"A imigração árabe a rigor engloba outras nacionalidades, como egípcios,
palestinos, sauditas, iraquianos e outros, porém os libaneses respondem por
cerca de 70% dos imigrantes árabes no Brasil", afirma Gattaz.
"Nos primeiros 50 anos da imigração, isto é, dos anos 1880 a 1930,
predominou a imigração de libaneses cristãos. Até os anos 1920, o principal
motivo que levou essas pessoas a emigrar, além da falta de perspectivas econômicas
num país pequeno e superpovoado, era a oposição ao governo turco-otomano, que
gerou um grande movimento emigratório de cristãos no início do século.
Muitos sírios e libaneses fugiram para não ter de servir o Exército turco.
Como em seus papéis anotava-se a nacionalidade turca, ao chegar ao Brasil começaram
a ser chamados de "turcos", o que para eles era uma ofensa", diz.
"Em minha tese, revelo que a imigração libanesa não se constituiu apenas
de cristãos, como os autores que estudaram o assunto antes de mim deram a
entender, ao não considerar a imigração islâmica como parte da imigração
libanesa", explica o historiador. (PAULO DANIEL FARAH)