São Paulo, terça-feira, 30 de janeiro de 2001 (Folha de São
Paulo)
MARCIO AITH
O Japão e o fórum anti-Davos
Faltou ao
encontro anti-Davos, em Porto Alegre, a presença do maior núcleo
antiglobalização no mundo hoje: o governo do Japão.
Tóquio resiste, há
três anos, a um bombardeio político e de mídia, originado nos EUA, para
reduzir a tradicional rede de proteção social no país e entregar seus
ativos a empresas e bancos norte-americanos por preços que consideram
injustos.
A ofensiva e a resistência japonesas escaparam da atenção dos
militantes em Porto Alegre porque, veladas e dissimuladas, estão distantes
das formas mais festivas de combate ao chamado consenso de
Washington.
Mas talvez lá esteja um exemplo eficaz de resistência ao
pensamento hegemônico no mundo econômico.
As pressões contra o Japão
começaram depois da crise asiática, em 1997, quando os bancos japoneses
entraram no vermelho ao verificarem que o preço das garantias que haviam
recebido -ações e imóveis- despencara.
Segundo cálculo mais amplo do
ministro das Finanças japonês, Yoshiro Mori, empresas e cidadãos perderam
US$ 8,55 trilhões devido à queda de preços de ativos dentro e fora do
país. Os créditos podres acumulados por todos os bancos japoneses na
década passam de US$ 1 trilhão.
Em 1998, o Japão voltou à recessão e
até hoje não se recuperou de uma paralisia econômica motivada pelo
desânimo dos consumidores e da quase inexistência de crédito. Os juros
próximos de zero não reanimam a economia, porque, enquanto não recolocarem
seus balanços no azul, os bancos resistem em emprestar.
Dado o quadro
de estagnação, duas receitas surgiram para tirar o país da crise. A
norte-americana sugere a abertura da economia para o capital estrangeiro,
o fim da garantia vitalícia de emprego e a possibilidade de os japoneses
guardarem suas economias em instituições financeiras estrangeiras -os
japoneses têm a maior poupança popular do mundo (US$ 9 trilhões em
1998).
A receita dos próprios japoneses está baseada na paciência.
Embora não reconheçam publicamente, eles consideram ser do interesse
nacional permanecer mais tempo em crise, mantendo seus ativos e garantias
sociais enquanto os ventos não lhes forem favoráveis. Preferem isso a
induzir um crescimento rápido do PIB desnacionalizando a economia.
Os
poucos ajustes feitos até o momento pelos japoneses foram fusões e
associações que, embora confusas e distantes dos padrões mais tradicionais
de contabilidade, mantêm os ativos nas mãos do capital nacional. O Japão
sabe que, num mercado global volátil, os preços de terras e de ações podem
voltar a subir no futuro -ao contrário dos papéis da maioria das empresas
de Internet nos EUA.
Os japoneses conhecem a parcela hipócrita do
discurso norte-americano e sabem o que está por trás de críticas, quase
racistas, de que não sabem consertar sua própria economia. Quando a
japonesa NTT (a telefônica semi-estatal do país) tentou comprar a ISP
Verio, provedora norte-americana de Internet, o FBI congelou a operação
por três meses por "preocupações de segurança nacional". Quando o
"hedge-fund" norte-americano LTCM entrou em colapso, em 1998, o Fed (banco
central dos EUA) salvou-o com dinheiro público, em vez de deixá-lo
quebrar. A arrogância oficial brasileira diante de Porto Alegre é igual à
arrogância americana diante do Japão -as duas têm aquele ar de
superioridade de quem acha que está entendendo tudo.
Marcio Aith é correspondente da Folha em
Washington.
RETORNA