Folha de São Paulo, domingo, 30 de setembro de 2001
O ímpeto suicida do capitalismo
Robert Kurz
Catástrofes de grandes proporções e dimensão
simbólica têm sido sempre, na história da humanidade, ensejo para uma ponderação
cuidadosa em que os poderosos do mundo perdem sua hybris, sociedades refletem
sobre si mesmas e reconhecem seus limites. Nada disso se pode observar na
sociedade mundial capitalista depois do ataque kamikaze aos centros nervosos dos
EUA. Chega a parecer que o ataque bárbaro vindo das trevas da irracionalidade
teria arrasado não apenas o World Trade Center mas também os últimos resquícios
de capacidade de julgar da opinião pública democrática mundial. Essa sociedade
não quer reconhecer a si própria no espelho do terror; na verdade, sob a
impressão do horror, ela se torna mais presunçosa, mesquinha e irrefletida que
antes. Quanto mais violentamente lhe apontam seus limites, mais fortemente ela
se agarra a seu poder e mais cegamente cultiva sua unidimensionalidade. Depois
do ataque terrorista, o funcionalismo de elite, a mídia e o populacho do sistema
global de "economia de mercado e democracia" estão se comportando como se fossem
todos atores e figurantes numa encenação real do filme "Independence Day".
Hollywood pressentiu um acontecimento apocalíptico e o filmou como representação
de patriotismo kitsch e moral jeca. Assim a indústria cultural banalizou e
tornou irreal a realidade da catástrofe antes que esta se tornasse mesmo real. O
luto espontâneo e a perplexidade dão lugar aos falsos rituais de um padrão
programado de reação, que impossibilita a compreensão de qualquer nexo interno
entre terrorismo e ordem dominante. Fica claro o endurecimento da consciência
democrática oficial, transformada em furiosa falta de ponderação, quando o ator
diletante presidente dos Estados Unidos jura uma "luta monumental do bem contra
o mal". Retratando o mundo assim de modo "naïf", as próprias contradições
internas são projetadas para fora. É o esquema elementar de toda ideologia: em
vez de revelar o contexto repleto de implicações em que se está envolvido, é
preciso encontrar uma causa exterior para os acontecimentos e definir um inimigo
externo. Mas, diferentemente dos mundos de sonho juvenis de Hollywood, não
haverá "happy end" na dura realidade da sociedade mundial que se despedaça. Em "Independence
Day" são, como convém, extraterrestres que atacam a própria "terra de Deus" e,
claro, acabam sendo heroicamente rechaçados. Esse papel de alienígena, à margem
do planeta, à margem do capitalismo e da razão, pelo visto agora deverá ser
assumido pelo islamismo militante, como se se tratasse de uma cultura estranha e
recém-descoberta, revelando-se como ameaça sombria. Em busca da origem do mal,
folheiam o Alcorão, como se ali pudessem encontrar os motivos para os atos que
de outro modo seriam inexplicáveis.
Falsa pré-modernidade
Intelectuais ocidentais perturbados declaram mais do
que depressa, sem a menor vergonha, considerar o terrorismo expressão de uma
consciência "pré-moderna", que teria desconhecido o Iluminismo e por isso teria
de "satanizar", com atos de ódio cego, a maravilhosa "liberdade de
autodeterminação" ocidental, o livre mercado, a ordem liberal e, enfim, tudo o
que há de bom e de belo na civilização ocidental. Como se nunca houvesse
existido uma reflexão intelectual sobre a "dialética do esclarecimento" e como
se o conceito liberal de progresso não tivesse caído em descrédito há tanto
tempo na catastrófica história do século 20, reaparece como fantasma, no
desconcerto diante do ato inédito de insânia, a burguesa filosofia da história
dos séculos 18 e 19, ao mesmo tempo arrogante e ignorante. Na tentativa forçada
de atribuir a nova dimensão do terror ao outro, um ser exterior, o bom senso
ocidental-democrático definitivamente despenca para o mais baixo nível
intelectual. Porém não se pode manter com tanta facilidade essa definição
distorcida do nexo que há de fato entre todos os acontecimentos na sociedade
globalizada: após 500 anos de sangrenta história colonial e imperialista, após
um século de uma industrialização estatal-burocrática fracassada e modernização
descompassada, após 50 anos de integração destrutiva no mercado mundial e dez
anos sob o absurdo domínio do novo capital financeiro transnacional, não há
mais, na verdade, nenhum território exótico oriental que se possa conceber como
estrangeiro e externo. Tudo o que acontece hoje é produto imediato e mediado
pelo sistema mundial unificado de modo forçado. O capital "one world" é o
próprio ventre gestante do megaterror.
Desvarios neo-ideológicos
Foi a ideologia militante do totalitarismo econômico ocidental que preparou o terreno para os igualmente militantes desvarios neo-ideológicos. O fim da era do capitalismo de Estado e de suas idéias foi tomado como ensejo para silenciar a própria teoria crítica. As contradições da lógica capitalista não puderam mais ser discutidas, foram declaradas inexistentes, e a questão da emancipação social para além do sistema produtor de mercadorias, considerada irrelevante. Com a suposta vitória definitiva do princípio de mercado e concorrência, a capacidade de reação intelectual das sociedades ocidentais começou a se extinguir. Os homens deste mundo deveriam tornar-se idênticos em suas funções capitalistas, embora a maioria já estivesse carimbada como "supérflua".
Enquanto os mecanismos de crise do capitalismo financeiro tipo "shareholder value" lançavam milhões de pessoas à pobreza e ao desespero, a maioria da intelligentsia global entoava, como a escarnecer, o canto do otimismo democrático da economia de mercado. Agora estão recebendo a conta: quando a razão crítica se cala, é o ódio assassino que toma o seu lugar.
A insustentabilidade objetiva dos modos de produção e de vida vigentes já não se impõe mais de maneira racional, mas irracional. Assim, o recuo da crítica teórica foi seguido pela marcha do fundamentalismo religioso e etno-racista.
Enquanto a crítica emancipatória por princípios ao capitalismo não se reorganizar, os acessos de paranóia social e ideológica deverão transformar-se no único instrumento para medir as proporções que as contradições da sociedade mundial atingiram. Nessas condições, o novo tipo de megaterror nos EUA significa que a crise do sistema capitalista globalizado, oficialmente ignorada e desprezada, assumiu uma nova dimensão.
O que parece uma fúria incomum do terror encontrou
solo fértil não somente na economia de mercado "one world" mas também foi
cultivada pelos aparatos de poder repressor das democracias ocidentais que agora
querem lavar as mãos.
Hollywood pressentiu um acontecimento apocalíptico e o filmou como representação de patriotismo kitsch e moral jeca; a indústria cultural banalizou a realidade da catástrofe
É gente que saiu errante da Guerra Fria e das
guerras da ordem mundial democrática que se seguiram. Saddam Hussein adquiriu no
Ocidente os armamentos usados contra o regime iraniano dos mulás, que por sua
vez saía de baixo das ruínas de modernização do regime dos xás. Os integrantes
do Taleban foram paparicados, instruídos e armados com eficientes mísseis de
defesa aérea, porque na época todos aqueles que se pusessem contra a União
Soviética eram contados no reino dos "bons". E Osama bin Laden, com sua mente
insana, agora transformado em figura mítica do mal, pela mesma razão, entrou
inicialmente como "predileto" dos serviços secretos ocidentais na arena mundial
da paranóia abastecida de munição. O imperialismo "de segurança" da Otan
(aliança militar ocidental), que quer a todo o custo manter sob controle a
humanidade que não se reproduz mais pelo capital, se utiliza ainda hoje de
regimes tolerantes com a tortura e de diversas formas de insânia, na Turquia, na
Arábia Saudita, Marrocos, Paquistão, Colômbia etc. etc. Mas, como o mundo vai se
desmantelando, ganha vida própria um aborto da natureza após outro. O
"predileto" de hoje é sempre o "monstro incompreensível" de amanhã. Os príncipes
do terror, protagonistas de guerras santas e milícias formadas de clãs, não são,
no entanto, de modo nenhum meras forças instrumentalizadas fora do Ocidente -que
agora começariam a fugir a seu controle. Mesmo suas condições psíquicas não são
"medievais", e sim pós-modernas. As semelhanças estruturais entre a consciência
da "civilização" da economia de mercado e a consciência dos terroristas
islâmicos não devem causar tanto espanto, se pensarmos que a lógica do capital
consiste num irracional fim em si mesmo que representa nada menos do que
religião secularizada. Também o totalitarismo econômico divide o mundo entre
"fiéis" (credores) e "infiéis". A vigente "civilização" do dinheiro não é capaz
de analisar racionalmente a origem do terror, porque afinal teria que questionar
a si mesma. Assim, se o supostamente esclarecido Ocidente define o islamismo
como "obra do demônio", o mesmo ocorre vice-versa. As irracionais imagens
dicotômicas de "bem" e "mal" igualam-se até beirar o ridículo. O que se passa na
cabeça dos líderes terroristas não é substancialmente mais bizarro do que o modo
como os "managers" da economia global de mercado percebem e classificam o ser
humano e a natureza sob a pressão destrutiva do abstrato cálculo administrativo.
O terror religioso golpeia, cego e insensato, da mesma maneira que a "mão
invisível" da concorrência anônima, sob cujo domínio permanentemente milhões de
crianças morrem de fome -só para dar um exemplo que põe sob um foco de luz bem
estranha o comovido culto que se celebra às vítimas de Manhattan.
Razão instrumental
Quando a mídia revela em suas entrelinhas uma
admiração secreta pelas capacidades técnicas e logísticas, de que não se tinha
idéia, demonstradas pelos terroristas, também aí fica claro como os dois lados
são quase almas gêmeas: ambos são igualmente adeptos da "razão instrumental".
Pois a ambos se aplica aquilo que o estranho capitão Ahab diz, no "Moby Dick" de
Melville, grande parábola da modernidade: "Todos os meus meios são sensatos, só
meu objetivo é desvairado". A economia do terror e o terror da economia
correspondem-se como imagens em um espelho. Desse modo, o autor de um atentado
suicida se mostra como a consequência lógica do indivíduo isolado na
concorrência universal que não lhe oferece perspectivas. O que então se revela é
o ímpeto de morrer do sujeito capitalista. E que esse ímpeto para a morte é
inerente à própria consciência ocidental, e não apenas desencadeado pela
desesperança intelectual do sistema totalitário de mercado, dão provas os casos
frequentes de psicopatas que invadem escolas norte-americanas para assassinar em
série filhos da classe média e o atentado de Oklahoma, reconhecidamente um
produto genuíno do delírio interior dos Estados Unidos. O ser humano reduzido a
funções econômicas enlouquece da mesma maneira que aquele cuspido como
"supérfluo" pelo processo de aproveitamento. A razão instrumental dispensa seus
filhos.
Como o núcleo irracional de sua ideologia é tal e qual o do fundamentalismo islâmico, o capitalismo nada mais pode que conclamar a uma cruzada, à "guerra santa" da "civilização" ocidental
Pessoas e não-pessoas
Como o núcleo irracional de sua ideologia é tal e qual o do fundamentalismo islâmico, o capitalismo nada mais pode que conclamar a uma cruzada, à "guerra santa" da "civilização" ocidental. Somente aquelas vítimas -as colunistas mais famosas dos EUA, corretores em Manhattan e cidadãos da liberdade ocidental- são vistas como vítimas reais e pranteadas em missas à sua memória.
Por outro lado, os civis iraquianos mortos e crianças sérvias esfaceladas por bombas atiradas de uma altura de dez quilômetros, porque a pele preciosa dos pilotos americanos não podia sofrer um arranhão, não aparecem como vítimas humanas, e sim como "efeitos colaterais". Mesmo diante dos mortos o apartheid global não cessa. O conceito ocidental de direitos humanos contém como pré-requisito tácito saber se o indivíduo tem valor de venda e poder de compra. Quem não preenche esses critérios na verdade não é mais um ser humano, mas uma porção de biomassa.
Dessa maneira, o fundamentalismo ocidental divide o
mundo no "reino" supostamente civilizado, de um lado, e nos "novos bárbaros", de
outro -como o jornalista francês Jean Rufin já constatava no início dos anos 90.
O império balança. Dentro de poucos meses o mito da invulnerabilidade econômica
será desmascarado pela crise da nova economia. No momento o mito da
invulnerabilidade militar está em chamas com o Pentágono.
O pensamento utilitário do funcionalismo de elite tenta tirar proveito até mesmo dessa catástrofe. Pois, com os mercados financeiros despencando, consegue-se de repente conteúdo para uma versão forjada dos fatos: não é a ordem vigente que está obsoleta, se outras bolhas financeiras estão estourando e a economia mundial de mercado porventura está entrando em colapso. O "choque externo" do ataque terrorista, sim, é que teria sido a causa disso -segundo Wim Duisenberg, presidente do Banco Central Europeu. O fracasso do sistema é redefinido pela maldade externa dos outros, "infiéis", mas com ela é irreversível.
Ao mesmo tempo, espalha-se uma onda de propaganda de guerra igualmente histérica e sentimentalóide, como se estivéssemos vivendo o agosto de 1914. Por toda parte estão se apresentando voluntários aos montes, em meio ao crash sobem as ações da indústria de armas, quase já se começa a desejar uma situação de cruzada. Mas grupos clandestinos de homens armados de facas e lâminas de cortar tapete não desafiam a mobilização das massas e o agrupamento de todas as forças sociais. O terror não representa nenhum império opositor externo, com status de Estado e economia de guerra. Ele é a própria nêmesis interior do capital globalizado. Por isso não pode provocar um novo boom armamentista.
Também no âmbito militar a cruzada vai dar em nada. Aconteçam possíveis ataques de retaliação por parte dos EUA a dez quilômetros de altitude, como infelizmente é de costume, dizimando uma população civil qualquer, ou saiam tropas terrestres, mesmo sofrendo muitas baixas, vagando por distantes regiões montanhosas, como o Exército da União Soviética teve de experimentar no Afeganistão, uma coisa é certa: dessa pseudoguerra movida contra os demônios da crise mundial que o próprio capitalismo apresentou não sairá fonte de alimento de que o capitalismo possa se amamentar para sobreviver.
Também se ouvem vozes razoáveis, de bombeiros em
Nova York a jornalistas e políticos isolados, que pelo menos dizem que uma
guerra é absolutamente sem sentido. Mas essa razão ameaça permanecer desamparada
e ser arrastada pela onda de irracionalidade se não proceder a uma análise das
circunstâncias da crise. Para realmente afastar o terror do terreno que lhe é
fértil, só há um caminho: a crítica emancipatória ao totalitarismo global da
economia.
Tradução de Marcelo Rondinelli.