Lançado o Fórum Social

 

Porto Alegre (Zero Hora de 06.09.2000 – Sérgio Gobetti)

 

O encontro contra o neoliberalismo ocorrerá em janeiro de 2001 na Capital

Foi lançado ontem, em Porto Alegre, o 1o. Fórum Social Mundial, que reunirá entre os dias 25 e 30 de janeiro de 2001, no Centro de Eventos da PUC, organizações e personalidades internacionais contrárias às diretrizes econômicas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.

O fotógrafo Sebastião Salgado e a argentina Nora de Cortiñas, representando o movimento das Mães da Praça de Maio, foram os convidados especiais do lançamento, ocorrido na Casa de Cultura Mário Quintana.

- Questiono-me sobre a verdadeira natureza do ser humano. O que vi no planeta é qualquer coisa de terrível - afirmou Salgado, que passou 12 anos viajando pelo mundo e fotografando guerras, conflitos e situações de miséria.

O governo do Estado e a prefeitura de Porto Alegre serão os anfitriões do 1o. Fórum, organizado por uma rede de ONGs que têm em comum a luta contra o neoliberalismo. O evento foi inclusive batizado de Anti-Davos, porque ocorrerá todos os anos simultaneamente ao Fórum Econômico Mundial, que reúne na cidade de Davos, Suíça, as principais autoridades econômicas do mundo.

- A visão hegemônica neoliberal traça o mundo como um enorme supermercado – declarou o governador Olívio Dutra, durante o lançamento.

O comitê organizador do fórum convidou para o encontro personalidades mundiais como o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, o pastor e líder democrata americano Jesse Jackson, o líder do Timor Leste Xanana Gusmão e a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú (Guatemala). O ex-economista-chefe do Banco Mundial Joseph Stiglitz, crítico contumaz das políticas do FMI, também está na lista de convidados.

 

Porto Alegre foi escolhida por experiências de gestão

 

Até agora, o comitê confirma a presença da ex-primeira-dama moçambicana Graça Machel (mulher de Mandela), do escritor Eduardo Galeano, do ex-prefeito de Montevidéu Tabaré Vázquez e do líder dos trabalhadores rurais franceses José Bové, que ganhou fama por comandar a invasão de uma lanchonete McDonald’s, na França, em protesto contra a globalização. Porto Alegre foi escolhida como sede da primeira edição do evento, segundo os organizadores, por suas “experiências alternativas de gestão”. A prefeitura de Porto Alegre foi uma das 20 selecionadas pelas Nações Unidas para apresentar seu modelo de gestão alternativo representado pelo Orçamento Participativo.


FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

 

LUIZ MARQUES (Secretário adjunto de Estado da Cultura)

 

A cidade de Davos, na Suíça, ficou conhecida em 1924 por ambientar o romance A Montanha Mágica, do escritor alemão Thomas Mann. Ninguém então imaginava que o aprazível lugar fosse tornar-se o símbolo da ganância e do egoísmo dos donos do mundo, os quais há três décadas reúnem-se ali na última semana de janeiro para definir as políticas que, depois, serão impostas à maioria dos países através de órgãos de poder como o FMI. Davos, assim, deixou de ser uma referência literária para converter-se na sede da insensibilidade capitalista na segunda metade do século 20. Ao abrigar o chamado Fórum Econômico Mundial trocou a vocação para a literatura pelo desejo de administrar a extração global da mais-valia.

Conforme escreveu Ignacio Ramonet, na edição de setembro do Le Monde Diplomatique, no entanto, “em 2001, Davos terá um concorrente bastante mais representativo do mundo real, o Fórum Social Mundial, marcado para Porto Alegre”. Na mesma data em que os agentes das principais multinacionais estarão debatendo suas estratégias de acumulação e rezando pelo receituário neoliberal, transformado em uma religião pelos ideólogos das classes dominantes, um caminho alternativo estará sendo pavimentado internacionalmente aqui. Na metrópole do Rio Grande do Sul, delegações democráticas oriundas de inúmeras nações, bem como personalidades do porte de Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez, José Saramago, José Bové e outros travarão discussões e sintetizarão experiências tendo como vetor a luta da humanidade contra o neoliberalismo.

A globalização excludente em curso subtrai da atualidade o presente, faz a maioria dos seres humanos viverem no passado e, uma minoria apenas, usufruir o futuro. O mesmo se pode dizer de Estados nacionais e continentes inteiros, a exemplo da África, separados dos ideais de civilização por um abismo e, por decreto, tidos como “perdidos no tempo” na linguagem dos especuladores das bolsas de valores. Para esses povos não existe auxílio possível, nem investimentos que estimulem o desenvolvimento, pois não apresentariam índices de retorno e lucratividade compatíveis com a lógica que rege a economia no capitalismo, sobretudo na atual fase. Naturaliza-se, em conseqüência, a exclusão social sistêmica, a falta de solidariedade institucional das grandes potências e a barreira que divide ecologicamente os ricos dos pobres em escala planetária. Não é verdade, porém, que a desumanização da sociedade e dos indivíduos seja uma fatalidade e que o único horizonte colocado pela história contemporânea seja a selva hobbesiana.

O Fórum Social Mundial, lançado formalmente com a presença do governador Olívio Dutra e do prefeito em exercício João Motta, não por acaso acontecerá em Porto Alegre. Trata-se de um reconhecimento de âmbito internacional, por parte de lutadores políticos dos hemisférios Norte e Sul, a um projeto que busca combater as desigualdades sociais por meio da participação popular. Porque associa a solução do problema à democracia participativa é que o município gaúcho recebeu a honra de sediar a resistência desperta dos excluídos.

O evento, que deverá se repetir anualmente, enseja também a oportunidade ímpar de uma contra-ofensiva humanista para superar o espectro da barbárie que remete-nos de volta à Idade Média. A idéia-guia que o organiza aponta na direção de uma utopia que tenha na justiça social o denominador comum e, na qualificação em vez de na quantificação mercantilista da vida de cada um, o motivo para perpetuar nossa espécie. Não é, este, o dever ético de todos os democratas na virada do milênio?

(Zero Hora de 09.09.2000)


Por que o Fórum Social Mundial?

NOAM CHOMSKY

Essa é uma oportunidade para enfraquecer as concentrações ilegítimas de poder e estender os domínios da justiça


O Brasil se prepara para receber movimentos populares de todo o mundo, que estarão em Porto Alegre (RS) no final de janeiro, por ocasião do primeiro Fórum Social Mundial. O que representa um evento como esse, em plena virada de milênio?
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-45) a integração da economia internacional -"globalização"- vem aumentando. No final do século 20, o declínio do período entre guerras inverteu-se, chegando ao nível anterior à Primeira Guerra (1914-18) em números brutos -volume do comércio relativo ao tamanho da economia global, por exemplo. No entanto a situação hoje é muito mais complexa.
No período pós-guerra, a integração passou por duas fases:
(1) O período de Bretton Woods até o início dos anos 70, quando as taxas de câmbio eram reguladas e havia controle sobre o movimento do capital.
(2) O período desde o desmantelamento do sistema Bretton Woods. Essas duas fases são totalmente diferentes.
Por bons motivos, muitos economistas referem-se à primeira fase como os "anos dourados" do capitalismo industrial e à segunda como os "anos pesados", quando verifica-se uma nítida deterioração dos índices macroeconômicos no mundo inteiro (taxa de crescimento, produtividade, investimentos etc.), além de uma crescente desigualdade social.
A segunda fase é normalmente conhecida como "globalização". Essa fase é associada às chamadas políticas neoliberais: ajuste estrutural e "reformas", de acordo com o "Consenso de Washington". Essas políticas são aplicadas na maioria dos países do Terceiro Mundo e, desde 1990, foram também implementadas nas "economias em transição" do Leste Europeu. Uma outra versão dessas mesmas políticas destina-se aos próprios países industrialmente avançados, mais significativamente aos Estados Unidos e ao Reino Unido.
Nos Estados Unidos, o país mais rico do globo, os salários da maioria dos trabalhadores estagnaram ou caíram, as horas de trabalho aumentaram drasticamente, enquanto os benefícios e o sistema de seguridade foram reduzidos. Durante os "anos dourados" os indicadores sociais seguiam o PIB. A partir da metade dos anos 70, esses indicadores vêm declinando regularmente, atingindo índices de 40 anos atrás.
A globalização contemporânea é descrita como uma expansão do "livre comércio", mas tal denominação é enganosa. A maior parte do comércio mundial é, de fato, operada centralmente por meio de contratos entre grandes empresas. Além disso há uma forte tendência à formação de oligopólios e de alianças estratégicas entre grandes empresas em muitos setores da economia. Esse processo normalmente conta com amplo apoio do Estado a fim de socializar os riscos e os custos das empresas. Essa característica tem marcado a economia norte-americana nas últimas décadas.
Os acordos internacionais de "livre comércio" envolvem uma intrincada combinação de liberalização e protecionismo em muitos setores estratégicos, como no caso da indústria farmacêutica, permitindo que megacorporações arrecadem lucros enormes com o monopólio dos preços dos remédios que, por sua vez, foram desenvolvidos com contribuição substancial do setor público. Outra característica importante dos chamados "anos pesados" tem sido a enorme expansão do volume de circulação do capital especulativo de curto prazo, o que limita drasticamente as possibilidades de planejamento dos governos e, conseqüentemente, restringe a soberania popular dentro dos sistemas políticos democráticos.
Hoje, a configuração do "comércio" é muito diferente daquela no período anterior à Primeira Guerra. Grande parte desse comércio consiste em fluxos de manufaturas para os países ricos e é controlado por grandes empresas.
Essas práticas, além da constante ameaça das empresas transferirem sua produção de um país para outro, representam uma arma poderosa contra os trabalhadores e contra a própria democracia. O sistema emergente pode ser classificado como "mercantilismo das corporações", onde decisões sobre relações sociais, econômicas e políticas são cada vez mais centradas em instituições privadas, sem nenhum mecanismo de controle social. Essa concentração de poder faz lembrar "as ferramentas e os tiranos do governo", na frase memorável de James Madison, alertando para as ameaças à democracia que ele notara há dois séculos.
Era de se esperar que essa segunda fase do período pós-guerra tenha desencadeado protestos significativos e oposição pública de diversas formas em todo o mundo. O Fórum Social Mundial proporciona uma oportunidade sem precedentes para a união de forças populares dos mais diversos setores, nos países ricos e pobres, no sentido de desenvolver alternativas construtivas em defesa da esmagadora maioria da população mundial que sofre constantes agressões aos direitos humanos fundamentais. Essa é também uma importante oportunidade para avançarmos no sentido de enfraquecer as concentrações ilegítimas de poder e estender os domínios da justiça e da liberdade. (Folha de São Paulo: 10.09.2000)
Avram Noam Chomsky, 71, linguista e ativista político norte-americano, é professor de linguística no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Entre seus livros estão "O que o Tio Sam Realmente Quer", "Os Caminhos do Poder", "American Powers and the New Mandarins", "Camelot", "Deterring Democracy", "Free Market Fantasies" e "Manufacturing Consent".


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