LIÇÕES DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

                                                                          Luiz Alberto Gómez de Souza

  Considerações preliminares

  Nossos meios de comunicação, em geral, são de um conservadorismo a toda prova. Abrem colunas e mais colunas para alguma eleição legislativa bufa e insignificante, para os maus humores presidenciais recolhidos por seus áulicos, para declarações de políticos em função de seus pequenos interesses. Baixa uma cortina de silêncio ou de má vontade diante de fatos relevantes pelo Brasil afora, de práticas criativas, de mobilizações e de redes de solidariedade que se vão formando. Até que um fato, um evento, um espaço, traga à tona todo esse movimento. O Fórum Social Mundial teve certamente este papel.

  Ainda assim, muitas das análises a seu respeito têm sido simplificadoras ou carregadas de má vontade. De meu canto de observador e de participante, quero fazer algumas observações, contaminadas certamente pelo entusiasmo da experiência. Mas as imprecisões inevitáveis podem ser menos graves do que a aparente lucidez infecunda das análises isoladas do mundo real ou dos preconceitos de alguns cronistas. Trago meu testemunho comprometido e certamente incompleto, com o intuito de questionar e de provocar.  

Cabem  antes, porém, algumas observações introdutórias. Há uma maneira míope de olhar a sociedade, observando apenas os atores em voga e os – aparentemente - mais importantes. Meios de comunicação, análises e pesquisas universitárias, quantas vezes têm ficado prisioneiros do habitual e do corriqueiro. Logo adiante, porém, se descobre que personagens à primeira vista decisivos, já estavam se desgastando e logo seriam substituídos por outros ainda na penumbra. Em 1968, em várias partes do planeta saltaram para a cena os jovens. Surpresa para muitos, pura desordem para o sistema (o chienlit do General de Gaulle). E, entretanto, não surgiram por acaso. Um elemento detonante fez aflorar virtualidades latentes, que já estavam fermentando, nas escolas, entre os jovens trabalhadores, em toda uma geração  que era fruto  do pós-guerra, mas ao mesmo tempo se sentia frustrada e crítica em relação ao seu crescimento. No leste europeu, o processo ficou estancado e a primavera de Praga desse ano foi esmagada pelos tanques soviéticos. Mas como lembrou um analista arguto, naqueles países 1968 cumpriu-se em 1989, na Revolução de Veludo da República Checa, com Solidarnosc na Polônia e, pouco depois, na própria União Soviética, - um dos grandes na bipolaridade da guerra-fria - que se liquefez, vítima de seu gigantismo paralizante e autoritário.

  O sistema hegemônico tem suas manhas. Diante de 68 tentou absorvê-lo: os símbolos viraram griffes, muitos hippies transformaram-se em yuppies. Aparentemente houve um refluxo e parte dos ativistas foi cooptada, outra caiu no terrorismo suicida. Mas Alain Touraine  viu com agudeza: 1968 não teve um dia seguinte imediato (lendemain), mas teria  futuro (avenir).[1][1]  A rebelião juvenil fermentou silenciosamente nas camadas inquietas da sociedade e foram surgindo ou se recriando outros movimentos sociais: feministas, depois de gênero, ecológicos, étnicos, todo tipo de minorias reprimidas, de cultura jovem sempre renovada.

            Com o fim do socialismo real o sistema cantou vitória. Estava aparentemente só no cenário mundial e sem alternativas. Tratou  então de impor seu “discurso único”. Negou as fissuras no interior do capitalismo real, proclamando apressado o fim da História e das utopias.  

O passado já vira coisas semelhantes, quando a Roma sofisticada de Adriano e de Trajano desprezara os bárbaros que iam chegando, ou quando a Espanha arrogante de Carlos V e Filipe II, embriagada com descobrimentos e prestígio, não percebeu a decadência penetrar-lhe pelas estruturas de poder. Certamente há que ter cuidado para não proclamar vitórias antecipadas, como os republicanos espanhóis que, ano trás ano, anunciavam o fim do franquismo. Esse momento demorou bem mais do que o desejado, mas lá pelo fim dos anos setenta, deu-se o destape em Madri e irromperam dinamismos sociais e culturais latentes.

  A História é cheia de ziguezagues, avanços e recuos, mas dentro dela forças profundas atuam e subvertem. E, em certos momentos, aflora um sinal de novidade, a ponta de um iceberg, uma bóia indicando vida nova que chega. Há que saber pressentir potencialidades latentes e emergentes, para além das rotinas e dos personagens habituais. Para mim o Fórum foi uma indicação significativa dessas.[2][2]

  A idéia do Fórum

            Há um detalhe interessante e inesperado, na origem do Fórum. Este não brotou na mente  de um quadro político profissional ou de um ativista de movimento, mas de um empresário brasileiro, Oded Grajew, nascido em Tel-Aviv, ex-fabricante de brinquedos, hoje à frente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e da Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania. Viajando pela Europa em férias e tendo notícias de Davos e de outros encontros internacionais, veio-lhe um pensamento: por que não organizar outro fórum, “em que o centro são as pessoas e a economia esteja a serviço das pessoas... ver o mundo a partir das pessoas, da solidariedade, da qualidade de vida, da preservação do planeta e da espécie humana”. Tão simples como isso. E tão subversivamente reorientador.[3][3]

  Chegando a Paris, telefonou para Francisco Whitaker Ferreira -  secretário geral da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ativista de tantas experiências, ex-vereador de São Paulo -  e lhe disse: “Xico, tive uma idéia”. Este topou no ato e a levaram a Bernard Cassen, do Le Monde Diplomatique e criador  da ATTAC (Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos), com quem Xico tinha um encontro marcado. Acordo rápido entre os três, que tiveram a responsabilidade de lançar a aventura. Xico seria desde então um motor infatigável nos bastidores, no seu estilo, paciente e eficiente, sem perder o sorriso e o entusiasmo.

  Onde realizar o Fórum? No sul, é claro, e sendo dois deles brasileiros, o país se impôs naturalmente. E nele, um estado e uma cidade, pelas experiências de poder local e pela possibilidade de apoio logístico. Os organizadores se comunicaram com o governador Olívio Dutra e o prefeito Raul Pont, que aceitaram ser os anfitriões. Foram  se somando, no comitê organizador, a ABONG (associação nacional de ONGs), o IBASE, e depois a CUT, o  MST, o Centro da Justiça Global.... A eles se juntaram organismos de outros países, especialmente franceses, assim como entidades de apoio brasileiras, com bom número de ONG’s, entre as quais o CERIS, onde trabalho. Ficou claro que não entrariam partidos políticos. Estava assim armada a ossatura inicial. Um secretariado mínimo asseguraria a base de lançamento e a montagem. Os governos do Rio Grande e de Porto Alegre deram a estrutura local, precisa e eficiente.

  O plano era simples: um espaço plural, aberto a muitas atividades, laboratórios e grupos de trabalho, sem direção nem orientação, e sem um documento final. Pensou-se que, por um lado, este último não conseguiria expressar toda a multiplicidade das experiências e dos debates e, por outro,  poderia ser motivo de tensões ideológicas abstratas ou de disputas por palavras-de-ordem tantas vezes  tradicionais ou impositivas.

  Foi o tempo de convidar gente do mundo inteiro. Lista ambiciosa, na confecção da qual tive a ocasião de colaborar. Muitos não puderam vir, tempo de contatos escasso, agendas cheias, como Noam Chomski que enviou mensagem. A ausência de alguns grandes nomes acabou sendo favorável, abrindo espaço para representantes de movimentos e de experiências de base. Também houve participações governamentais, como a presença de um ministro francês ( outro foi a Davos). Algumas fundações e a cooperação internacional da Europa deram bolsas de viagem para africanos e asiáticos. Porto Alegre e o estado do Rio Grande do Sul entraram com a hospedagem. Inevitavelmente, neste primeiro Fórum, a maior parte dos delegados acabou sendo de brasileiros, com boa participação de franceses e latino-americanos, especialmente argentinos.

  Foi então que o presidente brasileiro, numa de suas viagens ao exterior, esquecendo-se de seu próprio passado  e  com a falta de generosidade habitual, criticou os gastos públicos (telhado de vidro! lembrou uma jornalista gaúcha). Cálculos feitos logo depois mostraram que as receitas locais recuperaram, no mínimo, de oito a um o investimento, se apenas disso se tratasse, sem falar na visibilidade expressiva que Porto Alegre e o Brasil adquiriram em âmbito mundial.

  Anti-Davos, outro Davos?

Que fique bem claro, Davos foi o contra-ponto, o provocador. Mas não podemos reduzir o Fórum Social a uma iniciativa simplesmente reativa. Davos é uma condensação das reflexões do sistema dominante e a expressão de suas receitas e ideologia, que se costuma chamar de neoliberal, ( o que pessoalmente considero impreciso; conservadora  seria talvez preferível, mas não quero insistir em discussões semânticas secundárias ).  Nem todos os que vão a Davos vestem sua camiseta. Alguns têm a idéia, mais ou menos oportunista, de fazer bons contatos para financiar suas atividades, como certas experiências ali exibidas, não conseguindo perceber, entretanto, que acabam se transformando em alibis, instrumentalizados para fingir pluralismo e sensibilidade social.

  Até então, a tática, que foi nascendo, durante as reuniões da Organização Mundial do Comércio,  do FMI, do Banco Mundial ou do Grupo dos Oito, em Seattle,  Praga e outras cidades, era a de organizar contramanifestações do lado de fora dos encontros dos poderosos. Mobilizações ruidosas, para encurralar as delegações, que se encolhiam amedrontadas em suas limusines confortáveis. Isso servia para mostrar ao mundo que o sistema tinha seus oponentes. Ações que cumpriam até certo ponto o pretendido, mas que se inscreviam numa estratégia defensiva. Por que não dar um passo adiante, abrindo um espaço alternativo? Em lugar de anti, o adjetivo outro, que encaminhava a novas propostas. Daí o lema: Um outro mundo é possível. Criou-se assim uma polarização planetária, como escreveu recentemente Immanuel  Wallerstein: “Davos x Porto Alegre, campeonato mundial de futebol?”.[4][4]

  Fica ainda um equívoco a superar: de um lado haveria um Fórum Econômico, Davos, preocupado com a produção de bens, de outro um Fórum Social, Porto Alegre, pensando na distribuição; de certa maneira, insinuavam alguns, os dois poderiam até se completar. Falso. Davos também diz se interessar pela pobreza e pelo emprego, ainda que suas receitas só agravem os problemas. Por outro lado,  em Porto Alegre, já o primeiro eixo temático era: a produção de riquezas e a reprodução social, desdobrando-se em sistema de produção e serviços,  comércio internacional,  sistema financeiro e  funções da terra. Porto Alegre apresentou um temário socio-econômico-político-cultural. Não fora o antipático sociologuês da expressão, eu diria societal.

  A dinâmica

  O Fórum inovou em muitas coisas, inclusive na dinâmica. Em seu desenrolar houve vários momentos: quatro mesas redondas paralelas pelas manhãs, com cerca de mil pessoas cada, cerca de 400 grupos de trabalho e oficinas na primeira parte da tarde, espalhados pelos vários dias, logo depois reuniões de articulação, sessões para testemunhos pessoais e finalmente noites culturais.

  As mesas redondas lançaram quatro eixos temáticos durante os quatro dias: dezesseis espaços de grandes debates. Assinalei o primeiro eixo. Os outros: o acesso às riquezas e a sustentabilidade, a afirmação da sociedade civil e dos espaços públicos, poder político e ética na nova sociedade. Uma visão tradicional privilegiaria as exposições das manhãs, com bons debatedores, mas quando o público só podia se manifestar por escrito através de perguntas. Alguns panelistas foram excelentes: Boaventura Santos, de Portugal, Ermínia Maricato, do Brasil, Patrick Viveret da França, para dar alguns exemplos. É verdade também que num ou outro caso, os escassos vinte minutos foram  ocupados na denúncia do neoliberalismo ou da concentração do poder econômico, para um público já ultraconvencido disso, ficando assim pouco tempo para indicar ou descrever  possíveis saídas. Mas foi exceção o que é comum em   tantos debates que temos assistido, quando se salta de diagnósticos  paralizantes e sem alternativas à vista, para propostas voluntaristas que surgem sem base nos fatos. Há hoje também um cansaço crescente pelas denúncias repetidas e acumuladas, que freqüentemente não escondem a própria falta de confiança ou a superestimação do adversário. No conjunto, esse clima felizmente foi superado.

  Porém a grande novidade veio nas tardes. Ali, num enorme número de oficinas, grupos de discussão, laboratórios, encontros de redes, lançamentos de livros e de filmes com debates, era o espaço para apresentar, não vagos e futuros bons propósitos, mas as práticas que já estão ocorrendo, os achados, as novidades, novos rumos, outros estilos de ação e de intervenção. Debatiam-se os mais variados temas, entre tantos, direitos da terra, cidades justas e democráticas, poder local , setor informal, renda mínima, direitos reprodutivos, mulheres negras e poder político, bioeconomia, novos paradigmas... Faltou da parte dos organizadores uma melhor distribuição dos grupos de trabalho, para agrupa-los  tematicamente e evitar duplicações. Nesse momento se visibilizava o emergente. Inevitavelmente aqui e ali se corria o risco da idealização e de uma  inclinação para pregar receitas  infalíveis ou mágicas. Muitos dos que testam novas experiências podem se  tornar obsessivos e tediosos, fechados no que fazem, exagerando sua dimensão e impacto. Mas na maioria das vezes havia um clima de criticidade, sentido dos limites e da fragilidade do experimental, consciência dos riscos de cooptação, da não lineariedade dos processos e das  possíveis derrotas. Realizava-se uma fecunda troca de experiências e de saberes, com a finalidade de avançar conjuntamente e de  revisar e aperfeiçoar ações.

  No mundo de hoje uma idéia-chave é a de redes, presente tanto na base material da telemática, quanto na organização da sociedade, a primeira fazendo possível o desenvolvimento da segunda. Rede é uma maneira  de comunicar informações ou práticas, entrelaçando diretamente vários atores, sem a necessidade de centros de poder aglutinador que dirijam, orientem ou selecionem verticalmente. Com isso vai sendo possível superar estruturas piramidais, na articulação horizontal e flexível de ações e de conhecimentos.[5][5]

   No Fórum viveu-se esse clima de redes, da intercomunicação horizontal do concreto, das práticas compartidas , indicando que há um tecido social que se refaz, na participação comunitária e democrática, num complexo processo de mutações e de ensaios a muitas mãos. Não se tratava  de enunciar resoluções sobre o que se deveria fazer mais adiante, mas sobretudo de explicitar o que já se está fazendo. Apresentavam-se redes de trocas recíprocas de saberes, redes comunitárias de serviços, moeda social e trocas solidárias, propostas de renda mínima, práticas de economia solidária e autogestão... Abriam-se assim pistas múltiplas, contraditórias, às vezes irresumíveis em sínteses gerais que as empobreceriam. Entretanto, apesar disto foram surgindo textos os mais variados, para descrever esses processos e práticas e que estão sendo disponibilizados no site do Fórum.[6][6]

  O clima

  Havia que caminhar pelos corredores da PUC de Porto Alegre e também pelas salas da Universidade Federal, bem longe dali, para sentir no ar uma atmosfera de 1968, de Woodstock social e que me fez pensar no 10º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, (CEB’s), que vivi o ano passado em Ilheus.

  A Universidade Católica dos Irmãos Maristas tem uma estrutura colossal, com ares de shopping-center ultra-moderno, a própria armação física de um sistema opulento que, paradoxalmente, se abria ao alternativo, dando-lhe  sustentação material. Um enorme auditório que se desdobrava em três grandes salas de conferências, espaços para encontros, alimentação e serviços os mais variados. Ali os organizadores e a equipe de apoio souberam fazer tudo  funcionar com presteza, secundados por um público pronto para colaborar. Do contrário não se entenderia a facilidade em transitar, resolver dúvidas, aplacar a sede num verão gaúcho terrível, trocar experiências e informações. Cada um se sentia pessoalmente responsável, nas filas do elevador e do restaurante, pronto a colocar-se à disposição do companheiro que estava do lado. Havia como que uma cumplicidade generalizada no ar. Em algum momento, empurrões para ouvir Eduardo Galeano ou Lula, numa tietagem ainda inevitável; o movimento negro protestou ruidosamente pelas acomodações que lhe ofereceram, fora da PUC; houve corre-corre quando chegou a notícia da possível expulsão de Bové. Mas as manifestações que passavam pelos corredores eram, em geral, expressivas e alegres, como aquela pela descriminalização do aborto, ou os grupos de jovens e indígenas que vinham de seus acampamentos no centro da cidade.

  A pluralidade e a diversidade

  Algumas informações transmitiram a impressão de que houve um discurso monocorde, um outro pensamento único de uma velha esquerda ideológica. É certo que havia propostas de esquerdas tradicionais; mas isso era esperado e normal nesse clima pluralista. Assim, num cantinho da entrada, um jovem sério e compenetrado, barbicha ponteaguda, se espelhava num enorme retrato de Trotsky, seu mestre espiritual. Outro brandia uma foto de Lênin, livros amarelados da Editora Progresso da defunta União Soviética estavam espalhados na entrada. A “cubanofilia” era explícita, estava lá, certamente fora de lugar, um autoproclamado guerrilheiro colombiano (não esqueçamos  que também havia pacifistas desse país) e até a presença inquietante de alguém possivelmente próximo à ETA de tantos assassinatos. Tudo isso é verdade, mas foi uma pequeníssima parte do conjunto. Como as bandeiras reduzidas do PSTU, estrategicamente colocadas, multiplicavam nas aparências uma presença relativamente secundária.

  Mas para além dessas tendências, até certo ponto inevitável que se fizessem presentes -  e que estavam obrigadas a conviver com outras, o que já representava uma lição para elas - o espaço foi principalmente ocupado por muitas e muitas organizações e pelos mais diferentes movimentos, visíveis nos quiosques e balcões de ONGs, de governos locais, de troca de saberes ou de bens, de educação popular, de mulheres, de ecologia, da denúncia das minas terrestres, da defesa da vida em tantos e tantos aspectos, etc. Se alguma coisa perpassava em todas essas práticas era talvez uma sensibilidade ecológica, um cuidado especial na relação pessoa-planeta.

  É claro que, sendo o Fórum em Porto Alegre, houve uma natural visibilidade do PT gaúcho, até pelo impacto e  pela criatividade das experiências de poder local participativo. Mas reduzir o clima a um petismo, só a má  vontade, um certo despeito, ou a incompreensão de Brizola ou de Roberto Freire. Vale dizer que o MST, como sempre muito visível e atuante, membro da equipe organizadora, não quis acaparar todas as atenções, sabendo compartir o cenário, participando ativamente na troca de experiências. Sobre MST e Bové voltarei adiante

  Sabemos que uma das idéias centrais de uma proposta  democrática e participativa tem a ver com a defesa do pluralismo e da diversidade. E os movimentos feministas e femininos têm sido os principais responsáveis pelo fortalecimento da categoria  da diferença, no esforço por uma igualdade diversificada, enriquecedora e não massificante. O Fórum foi  a explosão do múltiplo e do respeito pelo diferente.

  Alguém sugeriu que estávamos próximos talvez do espírito que deu origem à primeira internacional, quando socialistas e anarquistas conviviam, antes de divisões e intolerâncias que vieram nos momentos seguintes. Entretanto, não podemos esquecer que naqueles tempos, baixo o nome ambicioso de internacional, se agrupavam representantes de uns poucos países do ocidente que se industrializava. Agora sim é que estamos diante de um planetário em gestação muito mais abrangente.

  O novo e o velho convivendo

  Já na chegada, Stella Sette Ferreira, a companheira de Xico Whitaker, me dizia: “tenho a impressão de que, às vezes, estamos pondo vinho novo em odres velhos”. A imagem é feliz e eu completaria: vinho velho e novo, dos mais inesperados e surpreendentes sabores, em odres velhos e novos, alguns de configuração imprecisa e ambígua.

  Para dar um exemplo, referi-me antes à organização em redes horizontais, nova articulação bem diferente dos partidos de quadros e das centrais piramidais. Mas atenção, sob o nome novo de redes podem se perpetuar velhos hábitos, e esconderem-se talvez disfarçados, pequenos caciques ou mesmo gurus intolerantes. Num certo momento das tardes do Fórum presenciei o encontro de redes que tinham caminhado paralelas umas às outras, ainda que tratando de temas bem próximos. Num primeiro instante pareciam olhar-se de esguelha, com seus estilos e jargões próprios. Um clima novo as foi desarmando e levou ao surgimento de redes  mais abrangentes,  redes de redes, englobando-as. Como se os riachos particulares fossem engolidos pelo turbilhão de um rio mais amplo, absorvendo e integrando desconfianças, sem anular a riqueza das diferenças. Nesse tipo de experiência coletiva há mudanças nos hábitos. Mais adiante se verá se o tradicional  não vai tentar retomar seu lugar, na reconstituição de espaços fechados de poder e de influências. Em outros casos, pelo que me informaram, não houve ainda suficiente integração. Como se diz no meu Rio Grande, o velho e o novo andam entreverados.


[1][1] Alain Touraine, Le communisme utopique. Le mouvement de mai 1968, Paris, Ed. du Seuil, 1968, p.53.

[2][2] O Fórum me confirmou na convicção de que temos uma sociedade muito criativa e vital; os analistas é que não sabem ou não querem ver . Indicava isso em artigo escrito pouco antes do Fórum: L.A. Gómez de Souza, “Um país dinâmico, um pensamento claudicante”,  revista Estudos Avançados, São Paulo, USP, n. 40, setembro - dezembro 2000, seção “Brasil, dilemas e desafios III”, pp. 77-90.

[3][3]Entrevista com Oded Grajew,  “A elite mudou”, revista Isto É, 31 de janeiro de 2001, pp.7-11. Em lugar de simples protestos, “apontar caminhos e soluções possíveis, além de mostrar experiências concretas já desenvolvidas...”

 

[4][4] Immanuel Wallerstein, “Davos vs. Porto Alegre: The World  Soccer Cup?”, Comment n. 57, 1 de fevereiro de 2001, Fernand Braudel Center, Binghamton University,  <http://fbc.binghamton.edu/commentr.htm>.

[5][5] Ver Francisco Whitaker,  Rede: uma estrutura alternativa de organização, in  <http://www.rits.org.br> ( o que são as redes) : “seus integrantes se ligam horizontalmente a todos os demais... o conjunto resultante é como uma malha de múltiplos fios...sem que nenhum dos seus nós possa ser considerado principal ou central, nem representante dos demais...”

[6][6] Ver <http:// www.forumsocialmundial.org.br>.

Continuação do texto

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