A primeira vitória

Miguel Rossetto (Vice-Governador do RS)

 

Até janeiro de 2000 só existiu Davos. Os poderosos do financeiro Internacional se reuniam lá na Suíça sob o olhar apreensivo da humanidade e reafirmavam seus mecanismos de concentração de renda e exclusão social. Ao final do encontro, sorriam vitoriosos, certos de que tinham pela frente longo período de concentração e acumulação de riquezas, Para os homens e mulheres de todo o mundo? A todos os que não têm bancos nem poder parecia restar só a resignação. Mas resignação e apatia não são qualidades humanas e, felizmente, a história da humanidade sempre foi impulsionada pela rebeldia e pela inconformidade. Agora, no primeiro ano deste milênio, não há apenas Davos.

Existe Davos e Porto Alegre. Existimos nós e eles. Existem os que querem banalizar a vida e os que querem celebrá-la. Os que entendem que o egoísmo é uma fatalidade e os que apostam na solidariedade. Acabou a era do pensamento único, a era que preconizou o fim da história e elegeu o desemprego e a exclusão como condições naturais do desenvolvimento humano. Um outro mundo é possível. Muito mais do que o slogan do Fórum Social Mundial, esta  passa a ser uma possibilidade real, uma construção que desafia os que não aceitam passivamente a miséria e a violência impostas pelo capital financeiro ao mundo civilizado. Ao que eles chamam modernidade, nós chamamos de barbárie. A modernidade que queremos combina os maiores feitos da humanidade com seus valores. Afirmamos que é possível, sim, manter um alto padrão de desenvolvimento científico e tecnológico e, ao mesmo tempo, sustentar um ousado padrão de distribuição de riquezas. Somos aqueles que deram as costas à resignação e não por acaso estamos reunidos na nossa Porto Alegre, no nosso Rio Grande. Aqui, onde há mais de uma década temos mostrado ao mundo que o controle público sobre o Estado não é apenas a afirmação radical da democracia, mas, principalmente, um caminho capaz de reavivar as nossas melhores esperanças.

De hoje até a próxima terça-feira, os olhares do mundo estarão voltados para Davos e Porto Alegre. Esta é a nossa primeira vitória. Que aqui se realizem nossas expectativas. Que o povo gaúcho se sinta convidado a participar deste fórum. Que pulsem os corações e as mentes dos que crêem que um outro mundo é possível!

(Correio do povo de 25.01.2001)


 

Mutirão pela solidariedade

Olívio Dutra (Governador do Rio Grande do Sul)

 

Começa hoje, na capital do nosso Estado, um evento de dimensão internacional que poderá ser visto no futuro como um dos mais importantes momentos de discussão e elaboração de modelos alternativos para a sociedade e a economia mundial. Aqui estarão reunidas milhares de pessoas, de todos os quadrantes do mundo, que empregam suas energias e suas vidas na luta por uma sociedade igualitária, plena de oportunidades e de direitos para todos. Uma sociedade que acabe com o espetáculo dramático e quotidiano do sofrimento e da vida sem dignidade a que estão submetidas legiões de seres humanos em países pobres, mais do que nunca oprimidos pelos efeitos nefastos da globalização econômica.

Nós, gaúchos e gaúchas, temos a honra de sediar este primeiro Fórum Social Mundial. Não é mera casualidade a escolha da cidade de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul para ponto de encontro de uma grande parcela da humanidade dotada de preocupações e de projetos generosos para com os excluídos. A realização do Fórum na capital do Rio Grande do Sul significa o reconhecimento de intelectuais, parlamentares, sindicalistas, partidos políticos, entidades não-governamentais, movimentos sociais rurais e urbanos de que aqui estamos propondo e efetivamente construindo uma alternativa ao modelo neoliberal hoje hegemônico no planeta.

A proposta já comprovadamente bem-sucedida na Capital e em vários municípios e que há dois anos vem sendo conduzida pelo governo estadual, em conjunto com a população, representa, para estes agentes sociais do mundo inteiro, uma alternativa importante de construção de um novo modelo social e econômico. Nele estão implícitos os princípios da democracia radical, da participação popular e da inclusão social, assim como está inscrita a priorização do desenvolvimento economicamente viável, ecologicamente sustentável e socialmente justo.

Isto significa incorporar à visão de governo uma concepção humanista que escapa à percepção dos defensores da lógica fria do mercado globalizado. Significa questionar como o pensador Edgard Morin, para quem “o mito do desenvolvimento determinou a crença de que era preciso sacrificar tudo por ele...” Significa, por fim, trazer para a política e para a administração pública a contribuição essencial da população como autora da escolha dos seus caminhos e de seu destino, livre da opressão e do comando autoritário, seja do governo ou do capital.

Este Fórum Social estará ocorrendo paralelamente ao encontro mundial do neoliberalismo em Davos, na Suíça, onde se reúnem executivos das maiores multinacionais do planeta e representantes de instituições como o G7, o FMI e a Organização Mundial do Comércio, para engendrar a liberalização dos mercados internacionais, o Estado mínimo, as privatizações, a redução de impostos para os ricos e os cortes nos gastos sociais.

Não por acaso, como dissemos anteriormente, dá-se na capital dos gaúchos o contraponto ao Fórum de Davos, do ponto de vista dos conteúdos que serão discutidos, mas também em relação ao perfil dos delegados e à multiplicidade de organismos e movimentos sociais que estarão representados. Aqui, estaremos discutindo uma nova globalização, orientada pela democracia, pela ética e pela solidariedade entre os povos. Estaremos forjando as possibilidades concretas de construção de um novo mundo, no qual não haverá lugar para a exclusão social, para as guerras em nome de uma suposta paz, para a fome ou para o cruel arbítrio do dinheiro. Todos são convidados a participar deste mutirão mundial pela democracia e pela solidariedade.

(Zero Hora de 25.01.2001)


O fórum e seus algozes

Tarso Genro (Prefeito de Porto Alegre)

 

As críticas ao fórum, de qualquer origem, só evidenciam a sua importância histórica.

 

O  debate instalado na cidade sobre o Fórum Social Mundial é salutar. Numa sociedade em que, como de resto ocorre em toda a América Latina, a aplicação das receitas neoliberais têm sido hegemônicas nos últimos 10 anos, o dissenso aberto e civilizado só pode elevar a taxa de saúde da nossa democracia. O contencioso em curso, que causa mal-estar nos defensores do caminho único, é o seguinte: existe apenas um roteiro para inserção dos países da semiperiferia (Brasil e México) e da periferia (Paraguai e Ruanda) na economia globalizada?

O que os críticos do Fórum Social Mundial não querem autorizar é a impugnação aqui em Porto Alegre, já existente em todo o mundo, da vigência dos atuais padrões de acumulação global. Os efeitos deste processo já foram reconhecidos por alguém como o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, como “um sistema no qual os trabalhadores (...) vão perder o emprego e cujos filhos vão ter que interromper sua educação” (discurso perante a Junta de Governadores da instituição, em 1998, “A outra crise”). O Fórum Social Mundial e o Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão Social estão, na verdade, respondendo a uma pauta que não é mais somente da esquerda, mas é de todos os que demandam uma sociedade mundial com menos injustiça e mais coesão. Como se vê, para variar, os “globalizados” locais são defensores mais radicais do modelo mundial em curso do que pedem os “globalizantes” de fora.

O resultado da mundialização da economia e da globalização financeira radicalizou a idéia de nação dos países do “centro” do capitalismo (como os Estados Unidos, Inglaterra e Japão) e contraditoriamente obrigou países como o Brasil a subordinar o seu projeto nacional aos mecanismos de controle do capital financeiro. O instrumento de tutela é a dívida pública interna e externa, que foi gerada de forma irresponsável por governos ordinariamente autoritários ou ditatoriais, tornando os orçamentos públicos um mandamento de sujeição política.

A impugnação que é feita ao Fórum Mundial Social está inserida dentro do jogo democrático, mas ela revela, de outra parte, um estágio novo da globalização: é o momento em que a indiferença olímpica em relação aos dissidentes, símbolos do “atraso”, é atravessada pela globalização da resistência por uma cooperação autodeterminada, com a emergência pública das demandas dos que sofrem a globalização, que passam também a compartilhar da política e da linguagem do mundo atual.

Queiramos ou não, somos hoje cidadãos da Terra. Sentimos o mundo nas notícias que atravessam a mídia, nos produtos que consumimos, na informação controlada e universalizada, como se o mundo residisse em nós. Nos locais onde moramos, que foram construídos pelos nossos ancestrais, estamos sentindo e vivendo os efeitos do que ocorre no mundo. Como disse Felix Guattari, hoje vivemos um “nomadismo subjetivo”: mesmo no local em que estamos, transitamos de forma recorrente, em termos espirituais, para o mundo “globalizado”.

Mas o termo “globalização” foi pervertido pelos controladores da ordem atual de duas formas: sugerindo que não existem países “globalizantes” e “globalizados” (os que gozam e os que sofrem a “integração” econômica) e, em segundo lugar, aceitando que a força normativa do capital financeiro é o critério único de justiça nas relações entre os povos. Este processo, que não é novo, encontra-se agora numa etapa decisiva: aquela em que a orientação para o futuro deve ser legitimada num espaço político que também já é globalizado. Este é o objetivo que nos move e as críticas ao fórum, de qualquer origem, só evidenciam a sua importância histórica.

(Zero Hora de 22.01.2001)


Porto Alegre, capital do mundo

Luiz Inácio Lula da Silva (presidente de honra do Partido dos Trabalhadores)

 

Merecem um elogio caloroso o governo do Rio Grande do Sul e a prefeitura de Porto Alegre por terem assumido a responsabilidade de ser anfitriões e parceiros do Comitê de Organização do Fórum Social Mundial. É motivo de orgulho saber que foram organizações internacionais da Europa, em especial a ATTAC, da França, que indicaram o Brasil e Porto Alegre como sede do evento.

Não apenas no Brasil, mas em            todo o planeta, os meios de comunicação de massa voltam seus olhos com enorme interesse para o que acontece nestes dias na capital gaúcha e para tudo o que vem sendo debatido e formulado. É impressionante que mais de 1,7 mil jornalistas, de mais de 300 veículos de comunicação de todo o mundo, estejam cobrindo o evento.

Alguns desses veículos adotam um enfoque mais crítico, de acordo com sua linha editorial já preestabelecida. Outros se mostram mais entusiasmados e apoiadores. Mas nenhum jornal, nenhuma rádio ou canal de TV com um mínimo de qualidade deixa de noticiar o que está se passando aqui. Estão sendo inauguradas no novo século as  articulações internacionais pelo fortalecimento da democracia e pela generalização de políticas públicas de combate às desigualdades econômicas e sociais entre diferentes países e entre as diferentes camadas de cada país.

Merecem o mesmo elogio entidades, ONGs e movimentos sociais que idealizaram o encontro, pela seriedade e pela eficiência com que souberam propor, planejar, convocar e concretizar um acontecimento dessa magnitude, superando sérios obstáculos financeiros e organizativos, bem como superando a má vontade e até mesmo a sabotagem de todos os que não admitem outra interpretação dos problemas do mundo atual que não seja aquela produzida em Davos ou nas reuniões da OMC, do FMI e do Banco Mundial.

O presidente FH fez declarações sobre o Fórum Social Mundial no mínimo infelizes. Poderia ser, como é, um governante a  serviço das idéias de Davos, mas não precisaria ser mesquinho com um evento de tal grandeza e importância para o Brasil e para a humanidade.

Os trabalhos do Fórum vêm se desenvolvendo desde a abertura com um sucesso extraordinário.

Adversários desse encontro falaram que aconteceria um clima de caos ou baderna. E o que estamos vivendo é um clima de serenidade, pluralidade e ampla liberdade no confronto de opiniões.

Nas imediações da PUC, no ato de abertura do evento, não havia qualquer constrangimento a manifestações de protesto contra personalidades identificadas com os objetivos do Fórum, nem coação, nem policiamento que provocasse qualquer constrangimento.

Nos mesmos dias, a imprensa exibiu várias fotos mostrando a pequena cidade suíça de Davos, cercada com arame farpado, lembrando campos de concentração ou muros da vergonha que separam ricos e pobres, ditadores e cidadãos, incluídos e excluídos, em tantos países.

No fórum de Porto Alegre, não. Aqui, todos os trabalhos se desenvolvem sob o mais completo clima de liberdade e democracia, sem que uma linha única seja determinada como programa obrigatório para todos os delegados e participantes. Aqui, a pluralidade governa. Aqui, aprovamos tão-somente um compromisso de seguir trabalhando e lutando por um mundo diferente, baseado na solidariedade, inspirado num profundo sentimento de respeito pelos seres humanos de todas as latitudes e culturas e erguido sobre a determinação de ampliar e aprofundar os direitos de cidadania.

 Daqui para frente, não importa o que seguir acontecendo em Davos e nas reuniões regulares da OMC, do FMI e do Banco Mundial, devemos nos sentir, todos nós, como sociedade civil, como lideranças políticas, como militantes das organizações sindicais e populares, convocados a repetir anualmente, com esmero e abrangência crescentes, os trabalhos e os debates desse Fórum Social Mundial.

Ele pode representar, neste século que se inaugura, urna ferramenta de enorme importância histórica no sentido de combater relações econômicas e políticas de opressão de alguns países sobre outros países e de elites locais gananciosas contra as maiorias excluídas de cada nação.

O Fórum Social Mundial pode contribuir com grande êxito para que o novo século coloque no centro de seus objetivos históricos a distribuição justa e sustentável das riquezas que o século passado soube produzir e multiplicar de modo tão espetacular.

(Zero Hora de 28.01.2001)


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