Zero Hora de 25/01/2003. Edição nº 13672
O capital em crise sistêmica
Entrevista: István Mészáros, filósofo
LARISSA ROSSO
O filósofo húngaro István Mészáros, um dos principais pensadores de esquerda da atualidade, propôs, com o lançamento de Para Além do Capital (Boitempo Editorial, 1.104 páginas, R$ 87), no ano passado, uma continuação para a teoria de Karl Marx. Mészáros, professor da universidade de Sussex, na Inglaterra, está em Porto Alegre para participar de uma conferência e promover seu mais recente trabalho, O Século 21 - Socialismo ou Barbárie (Boitempo, 120 páginas, R$ 21), durante o 3º Fórum Social Mundial. Em entrevista para o Cultura, ele antecipou alguns dos temas que aborda em sua passagem pela Capital.
"A guerra é uma tentativa de varrer os problemas
para debaixo do tapete"
Cultura - O sr. vem participar do 3º Fórum Social Mundial, em Porto
Alegre, com uma conferência intitulada Contra a Militarização e a Guerra. Como
resolver dois grandes impasses de hoje: Iraque e Coréia do Norte?
István Mészáros - Esses impasses e outros que devem surgir no
futuro precisam ser resolvidos pelas Nações Unidas e não por guerras impostas
pelos Estados Unidos. Esses conflitos não resolvem nada. Eles podem apenas
estimular novos antagonismos e guerras ainda mais destrutivas no futuro. Essa
era a estratégia do passado, quando as armas de guerra não eram tão destrutivas
como são hoje. Hoje não podemos aceitar o círculo vicioso e o perigo letal de
guerras depois de guerras. Hoje o que realmente importa e está em risco é a
existência, a sobrevivência da humanidade. Nenhum poder na Terra, independente
da sua força, tem o direito de brincar com isso.
Cultura - O livro que o sr. vai lançar dentro do 3º Fórum, O Século 21 -
Socialismo ou Barbárie?, é uma crítica ao imperialismo norte-americano. O texto
foi escrito antes dos atentados de 11 de Setembro de 2001. O que o sr. conseguia
antecipar ali?
Mészáros - Este livro foi escrito dois anos antes do 11 de
Setembro. Isso deve ser enfatizado contra as tentativas que tentam justificar as
políticas agressivas dos Estados Unidos atualmente como uma conseqüência direta
de 11 de Setembro. Antecipei o nosso presente estado de extremo temor e perigo
como "a fase potencialmente mais mortífera do imperialismo". Tentei investigar
no livro as causas desses desdobramentos e as maneiras de acabar com eles. Não é
suficiente protestar contra determinados eventos isoladamente. Nós devemos mirar
as conexões sociais profundas para ter alguma esperança de sucesso duradouro.
Eventos como o Fórum Social Mundial tem um papel vital a cumprir na realização
desta tarefa.
Cultura - O sr. diz que os atentados de 11 de Setembro foram uma
evidência da crise estrutural do capital. Por quê?
Mészáros - Venho enfatizando há muitos anos que estamos vivendo
na era da crise estrutural do capital, em contraste com a periódica crise
conjuntural do capitalismo verificada no passado em alguns países. Essa crise
estrutural afeta todo o nosso planeta e não mostra nenhum sinal de ser superada,
como foram as crises conjunturais no passado. O 11 de Setembro e a maneira como
os Estados Unidos e seus aliados responderam a isso - com a guerra no
Afeganistão e a preparação para outras guerras - demonstram que a crise
estrutural está ficando mais profunda, em vez de se aproximar do fim. O que
mostra a recusa ou a inabilidade do sistema do capital para apontar as causas de
contradições explosivas, não importa o quanto são graves. Tudo está sendo
varrido para baixo do tapete, com a esperança de que desapareça de lá. Em vez
disso, o tapete está parecendo uma montanha ainda maior e mais instável por onde
se tem que caminhar. Guerras como a do Afeganistão e como a planejada para o
Iraque em um futuro próximo são exemplos típicos de tentativas de se varrer
nossos problemas para baixo do tapete. Temos que começar a admitir que a crise é
estrutural, sistêmica, para ficarmos aptos a fazer algo apropriado.
Cultura - O novo presidente brasileiro é representante da esquerda,
ainda que esteja fazendo concessões para garantir a governabilidade. O que isso
representa hoje?
Mészáros - Trata-se de um acontecimento de grande importância, não apenas para o Brasil como para o mundo todo. A vitória de Lula foi esmagadora e ocorreu em um continente onde os problemas sociais e econômicos são tão graves que apenas os mais hostis e cegos intérpretes podem negar sua severidade. A crise estrutural do sistema impõe muito mais sofrimento para a população da América Latina do que para os países avançados em termos de capitalismo. Devemos lembrar o que aconteceu na Argentina recentemente: um país uma vez considerado o modelo para a América Latina. A eleição de Lula não pode ser dissociada desses eventos. Mostra a determinação do povo brasileiro de iniciar um trajeto muito diferente do que foi seguido por longo tempo no passado para resolver seus problemas graves. Mas a importância desta eleição não pára aqui. Vivemos num mundo em que os problemas, bem como suas potenciais soluções, são profundamente interligados. As expectativas para conquistas significativas no caminho aberto pela eleição de Lula são enormes não só na América Latina, mas também em outras partes do mundo onde a crise se delineia grande no horizonte.
"O Brasil pode assumir
papel vital na redefinição
das relações mundiais"
Cultura - Até onde um país de Terceiro Mundo como o Brasil pode evoluir
social e economicamente frente ao imperialismo norte-americano?
Mészáros - Sempre uso a expressão Terceiro Mundo entre aspas. O chamado "Terceiro Mundo" é apenas a parte mais explorada do único e real mundo existente. O dito "Primeiro Mundo" se beneficia imensamente com essa relação de exploração, que precisa terminar. O potencial humano e econômico do desenvolvimento do Brasil é tremendo. Se totalmente desenvolvido, pode atingir o peso dos Estados Unidos. Ativando a força criativa dos brasileiros, e desenvolvendo as relações de cooperação necessárias com os outros países da América Latina, o Brasil pode produzir grandes resultados a esse respeito. Naturalmente, isso envolve uma correção, de maneira radical, na relação existente - e injusta - agora completamente dominada pelos Estados Unidos. O Brasil, como um verdadeiro poder continental, é capaz de interpretar um papel vital na redefinição radical dessas relações, na base da igualdade, que é o único caminho viável para o futuro.