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Interessante e profunda matéria publicada na Revista VEJA de 23 de janeiro de 2002
O paradoxo da miséria
O Brasil é o mais rico entre os países com maior número de pessoas miseráveis.
Isso torna inexplicável a pobreza extrema de 23 milhões de brasileiros, mas
mostra que o problema pode ser atacado com sucesso.
Ricardo Mendonça
Fotos de Pedro Martinelli
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No dia 11 de dezembro do ano passado, a médica Iara Vianna da Silva esteve
no barraco onde mora o pequeno Mateus Barbosa de Souza, em Itinga, Minas
Gerais. O garoto vive com o pai, a mãe e três irmãos no bairro mais pobre
da cidade, localizada no paupérrimo Vale do Jequitinhonha. Aos 3 anos e meio,
Mateus é vítima de um tipo de desnutrição conhecida como kwashiorkor
palavra importada da África, onde a doença foi descrita pela primeira
vez no início do sécu1o passado. De tão prevalente na África, kwashiorkor
tem definições em vários dialetos tribais. Num deles, falado em Gana, a
palavra designa originalmente a criança que não pode ser alimentada pelo
leite materno. Mateus tem a altura de um garoto de 1 ano e 7 meses e o peso
de um bebê de apenas 8 meses. A doença atinge crianças que, privadas da proteína
encontrada no leite materno, num primeiro momento, e mais tarde na carne,
se alimentam basicamente de carboidratos. Numa etapa inicial, o mal produz
fadiga, irritabilidade e letargia. O quadro inclui diarréia, anemia e retardamento
motor. Mateus, por exemplo, não anda. Não tratada, a doença evolui, a imunidade
do paciente cai e o corpo incha. Aparentemente ele está apenas gordinho.
É nessa fase que se encontra Mateus. Nos casos mais graves, podem ocorrer
deficiência mental e morte. Mesmo tratada, a criança que teve kwashiorkor
dificilmente atinge altura e peso normais. Acostumada a diagnosticar casos
de desnutrição, a médica entregou à mãe do garoto uma receita com o seguinte
teor: “Mateus B. Souza - Ao Serviço Social: Criança desnutrida. Kwashiorkor.
Cesta básica. Precisa comida. Vai morrer. Não anda. Se pegar infecção, morre”.
A doença de Mateus não é apenas um drama familiar, mas o retrato de uma tragédia
nacional: a miséria. O Brasil passou por uma transformação admirável nos
últimos 25 anos. Comparado a 1977, quando se analisam alguns indicadores
nem parece que se trata do mesmo país. Nesse período, o produto interno bruto
aumentou 85%, o número de domicílios com televisão subiu 150%, o total de
residências com telefone triplicou e a frota de veículos mais do que triplicou.
Infelizmente, a taxa de miséria permaneceu praticamente inalterada e doenças
decorrentes da pobreza extrema, como a de Mateus, repetem-se aos milhares.
Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os
miseráveis representavam, 25 anos atrás, alguma coisa em tomo de 17% da população.
O índice mais recente divulgado pelo mesmo instituto informa que a taxa de
miséria está em 14,5%. Trata-se de uma queda muito pequena diante do amadurecimento
social, econômico e político registrado no período. Queda proporcional, diga-se,
pois em números absolutos o número de desamparados, incapazes de sair de
sua situação sem ajuda, aumentou. Eram 18 milhões há um quarto de século.
São cerca de 23 milhões hoje.
Miséria é palavra de significado impreciso, como de resto a maior parte dos
termos que se referem à camada menos favorecida da sociedade. O que exatamente
quer dizer “pobreza” ou “indigência”? Como identificar um pobre? Como ter
certeza de que existem 14,5% de miseráveis, e não 10% ou 20%? Não haveria
subjetividade demais nessas estatísticas? Em geral, cada um percebe a miséria
por sua experiência pessoal, como definiu a americana Mollie Orshansky, uma
das maiores especialistas no assunto: “A pobreza, tal qual a beleza, está
nos olhos de quem a vê”. Para efeito estatístico, no entanto, os estudiosos
chegaram a uma definição quase matemática sobre o que são miséria e pobreza.
Conseguiram estabelecer duas grandes linhas. Uma delas é a linha de pobreza,
abaixo da qual estão as pessoas cuja renda não é suficiente para cobrir os
custos mínimos de manutenção da vida humana: alimentação, moradia, transporte
e vestuário. Isso num cenário em que educação e saúde são fornecidas de graça
pelo governo. Outra é a linha de miséria (ou de indigência), que determina
quem não consegue ganhar o bastante para garantir aquela que é a mais básica
das necessidades: a alimentação. No caso brasileiro, há 53 milhões abaixo
da linha de pobreza. Destas, 30milhões vivem entre a linha de pobreza e acima
da linha de miséria. Cerca de 23 milhões estariam na situação que se define
como indigência ou miséria.
Reforçando, para evitar a confusão: a pobreza no Brasil é formada por dois
grandes grupos. Há 30 milhões de pessoas vivendo com extrema dificuldade,
donas de uma renda mensal per capita inferior a 80 reais. E há mais 23 milhões
que vivem ainda em pior situação, sobrevivendo de maneira primitiva. Não
ganham dinheiro bastante para comprar todos os dias alimentos em quantidade
mínima necessária à manutenção saudável de uma vida produtiva - ou seja,
algo em torno de 2 000 calorias. Isso equivale a uma dieta diária que inclui
um pão e meio, cinco colheres de arroz, meia concha de feijão, um copo de
leite, um bife de 100 gramas, meio ovo e mais três colheres de açúcar, óleo
de soja, farinha de trigo, farinha de mandioca e margarina. Os miseráveis
não têm acesso a essa cesta biológica básica. Esse é o chamado flagelo social.
Não se sabe ainda quais serão os candidatos a presidente, mas já se sabe
qual será o maior desafio do novo governo: reduzir esse contingente de padrão
africano. Desde já, é bom para os candidatos decorar a palavra kwashiorkor
e seu duro significado na vida de milhões de brasileiros.
Metade dos que vivem abaixo da linha de miséria mora na Região Nordeste.
Quando se calcula apenas a fatia rural da miséria, o Nordeste representa
mais de 70% do contingente. Essas são aquelas pessoas que aparecem nas reportagens
de TV sobre a seca mostrando o pratinho de feijão que restou na despensa.
Os Estados mais pobres do país, em termos proporcionais, segundo levantamento
recente feito pelo governo, são Alagoas, Ceará, Maranhão e Piauí. Os que
estão mais bem posicionados são Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro
e Rio Grande do Sul. Determinar a faixa de miseráveis pelo consumo de calorias
é um critério internacionalmente aceito. O que varia é o cardápio. Segundo
o último estudo disponível sobre o assunto, realizado pelos técnicos da Organização
das Nações Unidas, existem 830 milhões de miseráveis no planeta. A doença
atinge todos os continentes, com intensidades diferentes. Na Europa, na Oceania
e na América do Norte o problema tem escala reduzida, pois a miséria ataca
esporádica e temporariamente alguns grupos de imigrantes clandestinos ou
algumas minorias, como as tribos aborígines na Austrália. A situação muda
de patamar na Ásia, que concentra 63% dos miseráveis do mundo. O caso mais
extraordinário é o da Índia, onde mais de 300 milhões de pessoas vivem em
estado de privação absoluta. Em termos proporcionais, o epicentro da miséria
mundial é a África. No continente africano, um em cada quatro habitantes
passa fome. São 180 milhões de indigentes numa população de 800 milhões de
pessoas.
Com seus 23 milhões de miseráveis, o Brasil representa 3% do problema mundial.
Pode parecer pouco, mas é uma inserção global três vezes maior do que nossa
participação, por exemplo, no comércio mundial, em que o Brasil aparece com
menos de 1 % do movimento de compra e venda de mercadorias. Um mergulho qualitativo
sobre a questão dá a devida coloração à situação brasileira. Para isso, tome-se
o ranking dos países com renda per capita semelhante à brasileira. São eles
México, Bulgária, Chile a Costa Rica. Sabe qual tem taxa de pobreza equivalente
à brasileira? Nenhum. O pior deles, a Costa Rica, tem proporcionalmente pouco
mais da metade do número de pobres do Brasil. As comparações internacionais
trabalham com a certeza de que todos os países revelam dados confiáveis.
Pode-se olhar a questão sob outro prisma, mas nem por isso o quadro fica
menos dramático. Observe-se o ranking dos países segundo o percentual da
população vivendo abaixo da linha de pobreza. Onde está o Brasil? Está ao
lado de Botsuana, República Dominicana, Mauritânia e Guiné. Ocorre que, entre
nossos “colegas de fome”, digamos assim, e renda per capita varia entre 15%
e metade da renda brasileira. Ou seja, não importa de que ângulo se olhe,
o Brasil é hoje o país mais rico do mundo com a maior taxa de pobreza. A
isso se chama injustiça social.
Há razões de sobra, além do óbvio constrangimento moral, para tentar de vez
minorar esse problema. Do ponto de vista econômico, a pobreza extrema e inelutável
reduz a competitividade do país e restringe suas possibilidades de mover
a economia pela força do mercado interno. Mas a verdade cruel é que, nas
contas macroeconômicas, a questão da miséria absoluta é apenas um detalhe.
A porção mais pobre da pirâmide, os miseráveis, não produz e pouco consome.
Ou seja, os miseráveis nem entram na equação econômica de um país moderno.
Teoricamente, a economia pode muito bem funcionar sem que se leve em conta
sua existência. A economia brasileira se situa entre as dez maiores do mundo
e chegou a atrair no ano 2000 investimentos estrangeiros da ordem de 30 bilhões
de dólares. Quase metade dos usuários de internet da América Latina concentra-se
no Brasil. Depois dos Estados Unidos, é a nação que mais compra aviões executivos
e tem a cidade com a segunda maior frota de helicópteros do planeta. No campo
da medicina, há hospitais e centros de pesquisa nacionais que servem de referência
mundial em áreas como a cardiologia. Todas essas conquistas ocorreram sem
que a miséria se tenha retraído no país. É aí que entra a questão ética.
“Mais do que uma consideração de ordem econômica, a dívida social, moralmente
inaceitável, e por essa razão tem de ser saldada”, afirma o deputado Delfim
Netto (PPB-SP).
As bolhas de miseráveis parecem ter paredes de aço no país. Parecem inexpugnáveis.
Elas sobrevivem intactas, indiferentes aos progressos que o país experimenta
a sua volta. Não regridem sequer diante de fenômenos sociais que em outros
países e situações históricas foram decisivos para derrotar a pobreza. Entre
esses fenômenos está a mobilidade social.
O Brasil é um campeão da especialidade -
mas nem isso adiantou para bulir com as estatísticas da pobreza absoluta.
Nas pesquisas que listam os povos mais empreendedores do planeta, os brasileiros
aparecem nos primeiros lugares. A mobilidade social no país está entre uma
das mais altas do planeta. Cerca de 80% dos brasileiros que se encontram
hoje no topo da pirâmide social tiveram uma origem mais humilde. Eles começaram
a vida num patamar inferior e foram subindo vários degraus ao longo da carreira
profissional. Por que os miseráveis não entram nessa roda ascendente? Porque
não se qualificam sequer para os degraus mais baixos da engrenagem. “O fato
de reunir tanta miséria faz do Brasil um caso singularíssimo”, afirma o economista
Edmar Bacha, responsável nos anos 70 pela criação do termo Belíndia, usado
para definir um país onde convivem a riqueza belga e a miséria indiana. Essa
perplexidade diante de uma nação com diferenças tão marcantes entre os mais
ricos e os mais pobres já assaltara, no fim do século XIX, o primeiro-ministro
inglês Benjamin Disraeli
(1804-1881). “Somos dois países em um só território”, dizia ele, para justificar
o ímpeto igualitário da reforma social que marcou seu governo.
A questão da miséria no Brasil tem componentes ainda mais perversos que a
simples escassez de recursos - que caracteriza o problema em outros países,
especialmente no continente africano. Ela abrange dois grandes paradoxos.
O primeiro deles é que, no Brasil da miséria, há comida sobrando. O prêmio
Nobel de Economia Amartya Sen explica que alguns países conhecem a fome como
resultado da ausência de alimentos. Em outros, a fome é resultado da falta
de dinheiro por parte de uma fatia da população. Ásia e África convivem com
a fome básica há séculos. Ali falta comida. A atual produção de alimentos
no continente africano está 20% abaixo da registrada na década de 70, quando
a população tinha metade do tamanho. No caso brasileiro, no mesmo período,
a safra de grãos mais que dobrou. E o preço caiu. Enquanto o Brasil aprendeu
que por aqui “em se plantando tudo dá”, Ásia e África conheceram justamente
o inverso. Em 1333, a fome matou 4 milhões de chineses numa única região.
Em 1770, vitimou pelo menos 10 milhões de indianos. A Etiópia, que virou
sinônimo de fome na década de 70, perdeu um terço de sua população na miséria
entre 1888 e 1892.
O segundo paradoxo, é que nunca se gastou tanto dinheiro na área social e,
mesmo assim, a situação não melhora. Os governos municipais, estaduais e
federal arrecadam na forma de impostos, taxas e contribuições o equivalente
a 34% do PIB. De cada 10 reais arrecadados, 6 são investidos na área social.
São usados anualmente 21% do PIB em políticas nessa área. Nenhuma outra nação
da América Latina gasta tanto. O governo conseguiu realizar até mesmo uma
façanha quando criou o Comunidade Solidária, pilotado pela primeira-dama
Ruth Cardoso. O projeto eliminou as repartições-balcão da área social, como
a Legião Brasileira de Assistência ou o Ministério do Bem-Estar Social. Em
vez da corrupção, surgiu a figura da parceria entre os três níveis de governo
e as organizações da sociedade civil.
Graças ao Comunidade Solidária e ao chamado terceiro setor, a assistência
social vive um momento especial. Um exército de voluntários que já conta
com mais de 20 milhões de pessoas ajuda a tornar menos sofrida a vida de
doentes, menores e idosos abandonados e os miseráveis. Infelizmente, tal
apoio não basta para reverter os indicadores sociais. E por quê?
Uma explicação diz respeito ao desempenho da economia. Há uma ligação direta
entre crescimento e movimentação ascendente dos pobres na escala social.
Entre 1950 e o fim dos anos 70, fase de crescimento, a taxa de pobreza caiu.
Na década perdida de 80 e na década frustrada de 90, a economia se comportou
mal e a taxa de miséria subiu.
Alguns exemplos desse verdadeiro tobogã social: na crise do petróleo, de
1979, o total de miseráveis saltou de 22% da população para 24%. Chegou a
25% no auge da recessão de 1983 e atingiu seu ponto mais baixo cm 1986, durante
o Plano Cruzado, com 9,8%. Como o plano não vingou, a inflação ressurgiu
e o número de pobres aumentou. A taxa chegou a 21,4% da população em 1990.
Com o Real, caiu a um patamar próximo a 15%. Mas desde então se estabilizou.
Na prática, o país pouco evoluiu nesse campo em 25 anos. Os estudiosos afirmam
que a taxa de miséria só entrará em queda quando a economia voltar a crescer
com mais força.
Pesquisadores do governo fizeram várias simulações para averiguar o tipo
de impacto sobre a pobreza que o crescimento econômico poderia proporcionar.
A conclusão de um desses estudos é que o crescimento, quando associado a
um modelo de distribuição de renda, pode transformar por completo uma nação.
Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Coréia do Sul acharam uma saída por essa via.
Nos anos 60 eram países mais atrasados que o Brasil e hoje já estão bem à
nossa frente em termos sociais. A fórmula usada nesse período combinou investimentos
maciços em educação, saúde e reforma agrária. Quando se fala em distribuição
de renda, a inclinação natural de alguns governantes é imaginar a criação
de um novo imposto, uma espécie de CPMF da fome. É uma solução perigosamente
enganadora. “Impostos para erradicar a pobreza tiram a competitividade das
empresas, diminuem o potencial de crescimento do país, reduzem a renda e
o número de postos de trabalho”, afirma o ex-ministro Mailson da Nóbrega.
Mais relevante que criar outras fontes de receita é discutir o destino do
dinheiro que o governo arrecada. O recurso gasto pela área social do governo
é insuficiente não porque se desvia, mas porque vigora no país um modelo
concentrador reforçado pela Constituição de 1988. O professor José Márcio
Camargo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, fez as contas
sobre a natureza das despesas sociais (educação, saúde, previdência e assistência
social). Do total de recursos gastos com educação, por exemplo, 60% se destinam
às universidades estatais, onde estudam os mais favorecidos. O programa de
bolsas de estudo do governo segue no mesmo caminho. Apenas 0,3% do dinheiro
fica com os 20% mais pobres. Os 20% mais ricos embolsam 34% do total.
No caso da saúde, a esmagadora maioria dos recursos fica com a medicina curativa
e a menor parte dirige-se aos gastos preventivos. Uma parcela ínfima das
despesas sociais vai para o saneamento, forma importante de melhorar a expectativa
de vida ao nascer e reduzir a mortalidade infantil. A Previdência Social,
lembra o professor, é o exemplo mais grave. Só 7% do dinheiro gasto com o
sistema de pagamento de aposentadorias fica com os 20% mais pobres. Os 20%
mais ricos recebem 30% do total. Camargo arrisca um cálculo: se o Congresso
Nacional aprovasse uma reforma na Previdência que eliminasse o déficit do
sistema e obrigasse os estudantes ricos das universidades do governo a pagar
mensalidade, isso liberaria 50 bilhões de reais para atender os pobres. “Os
recursos sociais deveriam ser apropriados pelos pobres, mas acontece justamente
o contrário”, afirma Camargo. Fica a sugestão aos candidatos ao governo neste
ano de eleições presidenciais.
Se o Brasil adotasse o modelo proposto por Camargo apenas no campo da educação,
ou seja, se concentrasse as despesas no ensino básico e deixasse de lado
os gastos com as universidades federais, talvez conseguisse operar uma pequena
revolução. Uma pesquisa recente descobriu que, se o pai não estudou, o filho
só fica três anos na escola. Mas, se o pai tiver cursado o ciclo elementar,
ainda que sem completá-lo, o tempo de permanência do filho na escola dobra.
No limite, filhos de quem fez o doutorado estudam durante catorze anos. A
conseqüência econômica da educação é fabulosa. Um trabalho do Ipea mostra
que a garantia de escolaridade de cinco anos para toda a população brasileira
faria a miséria cair 6%. A mesma garantia por dez anos reduziria a pobreza
em 13%. “Desarmar os mecanismos que concentram renda no Brasil é o único caminho
para tirar as pessoas da linha de miséria e construir um modelo de sociedade
mais justo”, lembra o economista Marcelo Néri, estudioso da Fundação Getúlio
Vargas.
Como conseqüência do emprego inadequado dos recursos, o Brasil aparece todos
os anos nas listagens internacionais como um dos países com maior concentração
de renda do planeta. Significa dizer que, apesar de não se tratar de uma
nação pobre, perpetua-se um fosso gigantesco entre a base e o topo da pirâmide.
No país mais rico do mundo, os Estados Unidos, a diferença de renda média
entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos é de oito vezes. Na Alemanha,
ela é de seis vezes. Nas nações do Terceiro Mundo, a conta é mais desigual,
mas nada se compara ao Brasil. No Chile, a diferença é de dezoito vezes e
na Guatemala, de trinta. Pois bem: em solo pátrio, essa diferença é de 33
vezes. Numericamente, isso poda ser traduzido de outras formas: 1% da população,
a parcela mais rica, detém a mesma quantidade de recursos que os 50% mais
pobres. Outro modo da ver esse problema é tomando como base os 10% mais ricos.
Juntos, eles concentram metade da renda nacional.
Um dos métodos mais precisos para aferir o grau de desigualdade social de uma nação é um índice chamado gini, em homenagem a Corrado Gini, pesquisador italiano que o criou. O gini brasileiro permanece ruim e inalterado há mais de vinte anos. Há alguns meses, ao avaliar essas estatísticas e fazer um balanço positivo de seu governo nessa área, o presidente Fernando Henrique Cardoso concluiu seu raciocínio com a seguinte frase: “Houve uma melhoria muito pequena na distribuição de renda, muito pequena”. Está na hora de mudar isso. Uma saída razoável é valer-se das diferenças na busca da solução. Por que não convocar as melhores cabeças do Brasil-Bélgica para melhorar de vida a porção Índia?
Veja também: - a doença WASHIORKOR - TABELAS - MAIS FOTOS