São Paulo, sábado, 03 de fevereiro de 2001 (Folha de São Paulo) - TENDÊNCIAS/DEBATES

O Fórum Social Mundial teve um saldo positivo? - NÃO

Chavões revolucionários nos pampas

DENIS LERRER ROSENFIELD

Os chavões revolucionários voltaram aos pampas e, dessa vez, acompanhados de queijo roquefort. O Guaíba, rio símbolo de Porto Alegre, vem observando, há 12 anos, uma experiência administrativa petista de cunho social-democrata, que não diz o seu nome. Poderíamos considerar que esse descompasso entre a teoria e a prática fosse fruto da imaturidade de um partido que apenas recentemente chegou ao poder. Há mesmo dificuldades de reconhecimento de uma teoria.
O Fórum Social Mundial, porém, começou a deixar o calmo rio agitado. Agitado porque as convicções algo infantis ganharam contornos de um credo. Como em todo credo, a adesão se dá pela fé. Figuras tidas como mortas renasceram de uma ilha longínqua. O presidente do inexistente Parlamento cubano veio dar aulas de democracia, ovacionado pelo público e recebido com todas as honras pelo governador do Estado. O senhor Ben Bella (líder da independência argelina), preso por mais de 15 anos por seus companheiros de armas e que viveu no próprio corpo a experiência de um partido único, da ausência de liberdade de expressão e de organização, apregoou a supressão da democracia.
De repente, retrocedemos décadas.
Surpreendente. O fórum, pensado inicialmente como um evento apartidário e propositivo, tornou-se, em suas conferências centrais, um lugar de crítica indiscriminada à globalização e ao neoliberalismo. Para além da confusão elementar de identificar um fenômeno com um conjunto de idéias, parecia que tudo valia na aliança estabelecida. Contanto que o "neoliberalismo" fosse o núcleo aglutinador.
Um dos organizadores do evento, indagado por mim num debate televisivo sobre a presença de tais personagens não-democráticos, limitou-se a responder: juntamos todos os críticos do neoliberalismo. Vale tudo? Inclusive a aniquilação da democracia?
O fórum deveria ter tido como linha divisória a luta contra determinados efeitos da globalização dentro da sociedade capitalista e segundo as suas instituições democráticas. E digo determinados efeitos, como o controle da volatilidade do capital especulativo, e não contra o telefone celular, os computadores, a Internet ou contra o debate "globalizado" contra Davos, transmitido para todo o planeta.
Ninguém pensa sensatamente em voltar a um mundo pré-globalização, a não ser aqueles que deliram pela volta dos velhos tempos. E lutar regradamente por controlar certos de seus efeitos nefastos implica reconhecer a democracia representativa como o pilar das transformações sociais.
É bem verdade que o fórum teve elementos positivos: a estupenda operação publicitária que permitiu projetar Porto Alegre para o mundo com tão baixo investimento; os hoteleiros e donos de restaurante andam rindo sozinhos; e o próprio fato de o evento, mesmo vazio de conteúdo em suas "propostas" centrais, se colocar como um contraponto a Davos e ser reconhecido como tal pela mídia internacional. Entra um novo ator no jogo de forças internacional.
Entretanto seria de se esperar que esse novo ator reconhecesse as regras democráticas e as colocasse como princípio de toda convivência política.
A fraseologia marxista, fundamentalista e terceiro-mundista, começou a cheirar diferentemente. Um cheiro forte de queijo, típico da velha França. O MST uniu-se a um representante do conservadorismo, o senhor José Bové, defensor dos subsídios agrícolas franceses que impedem as exportações brasileiras e do Terceiro Mundo em geral.
Em vez de defender a pecuária e a agricultura do Rio Grande do Sul e do Brasil, o senhor Olívio Dutra o recebe, com todas as pompas, como líder da luta contra os transgênicos. A confusão teórica é total. Não importa. O que conta é a mídia, nacional e internacional.
Ressurge o obscurantismo anticientífico, que se traduziu na destruição de uma unidade de pesquisa da Monsanto. Produz-se uma simbiose entre um esquerdismo que defende o protecionismo da "doce França", apanágio dos remanescentes aristocráticos, e o conservador que brinca de revolucionário.
E isso graças aos meios midiáticos de um mundo globalizado!
Denis Lerrer Rosenfield, 50, doutor pela Universidade Paris 1, professor titular de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, editor da revista "Filosofia Política" e pesquisador do CNPq, é autor, entre outros livros, de "Política e Liberdade em Hegel"

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