DENIS LERRER ROSENFIELD
Os chavões revolucionários voltaram aos pampas e, dessa vez, acompanhados de
queijo roquefort. O Guaíba, rio símbolo de Porto Alegre, vem observando, há
12 anos, uma experiência administrativa petista de cunho social-democrata, que
não diz o seu nome. Poderíamos considerar que esse descompasso entre a teoria
e a prática fosse fruto da imaturidade de um partido que apenas recentemente
chegou ao poder. Há mesmo dificuldades de reconhecimento de uma teoria.
O Fórum Social Mundial, porém, começou a deixar o calmo rio agitado. Agitado
porque as convicções algo infantis ganharam contornos de um credo. Como em
todo credo, a adesão se dá pela fé. Figuras tidas como mortas renasceram de
uma ilha longínqua. O presidente do inexistente Parlamento cubano veio dar
aulas de democracia, ovacionado pelo público e recebido com todas as honras
pelo governador do Estado. O senhor Ben Bella (líder da independência
argelina), preso por mais de 15 anos por seus companheiros de armas e que viveu
no próprio corpo a experiência de um partido único, da ausência de liberdade
de expressão e de organização, apregoou a supressão da democracia.
De repente, retrocedemos décadas.
Surpreendente. O fórum, pensado inicialmente como um evento apartidário e
propositivo, tornou-se, em suas conferências centrais, um lugar de crítica
indiscriminada à globalização e ao neoliberalismo. Para além da confusão
elementar de identificar um fenômeno com um conjunto de idéias, parecia que
tudo valia na aliança estabelecida. Contanto que o "neoliberalismo"
fosse o núcleo aglutinador.
Um dos organizadores do evento, indagado por mim num debate televisivo sobre a
presença de tais personagens não-democráticos, limitou-se a responder:
juntamos todos os críticos do neoliberalismo. Vale tudo? Inclusive a aniquilação
da democracia?
O fórum deveria ter tido como linha divisória a luta contra determinados
efeitos da globalização dentro da sociedade capitalista e segundo as suas
instituições democráticas. E digo determinados efeitos, como o controle da
volatilidade do capital especulativo, e não contra o telefone celular, os
computadores, a Internet ou contra o debate "globalizado" contra Davos,
transmitido para todo o planeta.
Ninguém pensa sensatamente em voltar a um mundo pré-globalização, a não ser
aqueles que deliram pela volta dos velhos tempos. E lutar regradamente por
controlar certos de seus efeitos nefastos implica reconhecer a democracia
representativa como o pilar das transformações sociais.
É bem verdade que o fórum teve elementos positivos: a estupenda operação
publicitária que permitiu projetar Porto Alegre para o mundo com tão baixo
investimento; os hoteleiros e donos de restaurante andam rindo sozinhos; e o próprio
fato de o evento, mesmo vazio de conteúdo em suas "propostas"
centrais, se colocar como um contraponto a Davos e ser reconhecido como tal pela
mídia internacional. Entra um novo ator no jogo de forças internacional.
Entretanto seria de se esperar que esse novo ator reconhecesse as regras democráticas
e as colocasse como princípio de toda convivência política.
A fraseologia marxista, fundamentalista e terceiro-mundista, começou a cheirar
diferentemente. Um cheiro forte de queijo, típico da velha França. O MST
uniu-se a um representante do conservadorismo, o senhor José Bové, defensor
dos subsídios agrícolas franceses que impedem as exportações brasileiras e
do Terceiro Mundo em geral.
Em vez de defender a pecuária e a agricultura do Rio Grande do Sul e do Brasil,
o senhor Olívio Dutra o recebe, com todas as pompas, como líder da luta contra
os transgênicos. A confusão teórica é total. Não importa. O que conta é a
mídia, nacional e internacional.
Ressurge o obscurantismo anticientífico, que se traduziu na destruição de uma
unidade de pesquisa da Monsanto. Produz-se uma simbiose entre um esquerdismo que
defende o protecionismo da "doce França", apanágio dos remanescentes
aristocráticos, e o conservador que brinca de revolucionário.
E isso graças aos meios midiáticos de um mundo globalizado!
Denis Lerrer Rosenfield, 50, doutor pela Universidade Paris 1,
professor titular de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
editor da revista "Filosofia Política" e pesquisador do CNPq, é
autor, entre outros livros, de "Política e Liberdade em Hegel"