Correio da Cidadania - edição 331

Esperando a guerra

Newton Carlos


 Entidades humanitárias, ONGs e pacifistas de modo geral, com graus importantes de mobilização sobretudo na Europa, parecem aos poucos render-se a uma espécie de fatalismo. Bush não recuaria da decisão de atacar o Iraque. Não se trata, por parte do presidente, de idéia fixa com raízes puramente emocionais. De alguém com os poderes de comandante-chefe das forças armadas dos Estados Unidos, a mais poderosa máquina de guerra do mundo, convencido de que tem a missão de fazer o “bem” mesmo que seja a golpes de foguetes.

Também há disso. Em livro, um ex-redator dos discursos de Bush traça um perfil de dar medo do ocupante da Casa Branca, de alguém que se imagina a caminho do Armagedon, de uma batalha final do bem contra o mal. As reuniões com Bush transpiram fundamentalismos e o “Washington Post”, que Bush é o verdadeiro chefe da direita religiosa dos Estados Unidos. Mas há outras coisas em jogo. O general que comandou as tropas na “Desert Storm”, a campanha contra o Iraque em 1991, diz em sua autobiografia que a cúpula do Pentágono mandou que ele preparasse a operação um ano antes.

Houve razões bem mais fortes do que a invasão do Kuwait, que entrou para a história como a origem da punição do Iraque. A ONU proíbe alterar fronteiras militarmente. Desde 1975, quando Kissinger declarou à “Business Week” que os americanos estavam dispostos a ir à guerra atrás de mais petróleo, esse tipo de impulso marca presença, em muitos casos ostensiva, no comportamento dos Estados Unidos no Oriente Médio. Há 12 anos, Bush pai não concluiu o trabalho e, embora derrotado, Saddan Hussein continuou dono do petróleo iraquiano com olhos voltados para russos e franceses.

A obsessão anti-Iraque mistura venenos e ambições imperiais que não abrem mão de um “estilo de vida”, o dos americanos, cada vez mais incompatível com os recursos do planeta. Só à força, e em detrimento dos demais, é possível mantê-lo, mesmo assim não se sabe até quando. Cientes dessa “dinâmica”, os que se opõem à guerra começam a mudar de tática diante da convicção de que é inútil tentar tirar da cabeça de Bush a idéia, aparentemente já fixa, de atacar o Iraque.

As marchas de protesto continuam e até se intensificam, mas a convicção de que a guerra está às portas resulta em pedidos para que, pelo menos, não sejam empregadas, ou tenham emprego limitado, certas armas capazes de produzir carnificinas. São mais visados dois tipos de armas: as minas antipessoais e as bombas de fragmentação. Estas espalham 202 bombas menores ao detonarem, e nem sempre todas explodem na hora. O próprio Pentágono informa que cinco por cento delas permanecem no solo, transformadas em minas.

 Na guerra de 1991, dois mil e 200 explosivos de bombas de fragmentação ficaram intactos nos campos de batalha. Nos dois anos seguintes, provocaram as mortes de mil e seiscentos civis e feriram outros dois mil e quinhentos que pisaram neles. Todos civis desarmados. Já se concluiu que é impossível fazer levantamentos que evitem as ações assassinas das fragmentações. A ONU calcula, a partir do poder de fogo do Pentágono, que será terrível a matança de civis inocentes, de velhos, mulheres e crianças.

Entidades humanitárias trabalham com estudos do gênero, um deles feito pelos “Médicos sem fronteiras”, para quase implorar misericórdia aos Estados Unidos. Há um esforço de mobilização, ainda incipiente, com o objetivo de reunir pessoas que aceitem deslocar-se para o Iraque como escudos humanos. Parte da esperança de que a presença de ocidentais no Iraque constrangeria ocidentais do outro lado, com os dedos no gatilho. Mera suposição, não compartilhada de todo pelos que procuram maneiras de conter, ou no mínimo “suavizar”, as iras de Bush.

 

Newton Carlos é jornalista especializado em política internacional

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