Quando a vida escurece
OSCAR NIEMEYER
O atentado em Nova York levou-me aos velhos tempos, às viagens que fiz aos EUA e pelo mundo árabe.
Duas vezes visitei os EUA. Períodos que, somados, dariam dois anos de permanência no país. Lembro-me de que morei por vários meses num apartamento perto do Central Park.
E confesso que gostei de Nova York e do povo norte-americano, dos amigos que ali encontrei, gente feliz, de boa convivência. Do Central Park, que aos domingos freqüentávamos, recostados na grama, vendo nossa filha correr atrás dos esquilos. Dos talentos a se multiplicar naquela nação -no cinema, na música, na literatura, na pesquisa científica ilimitada.
Mas um dia o Departamento de Estado "descobriu" que eu era comunista e, daí em diante, fui proibido de lá entrar.
Conheci
também o mundo árabe. Egito, Argélia, Líbia, Líbano e Arábia Saudita... E
até em Israel fui parar. E, por toda a parte por onde andava, surpreendia-me
com o contraste entre o Ocidente e aqueles países, em sua maioria, pobres,
desatualizados, como que parados no tempo.
Lembro-me do espanto que tive ao entrar, pela primeira vez, num bar em Argel: só
homens, nenhuma mulher. O que logo compreendi ao conhecê-los melhor. A mulher
era para eles -como para todos nós- o mais importante -tanto que, a alguns, uma
só não bastava. Eles eram alegres, comunicativos; gostavam de tudo que nós,
brasileiros, gostamos.
Em Argel estive muitas vezes, morando na casa que para mim reservavam. Como era boa aquela cidade, quantas lembranças dela ficaram! Do Casbah, a lembrar sempre a vitória da revolução, todo branco, a descer em curvas até o Mediterrâneo.
E recordo-me de Trípoli, onde durante um mês trabalhei no projeto da exposição internacional que me pediram. A estrada que liga essa cidade a Beirute, as ruínas de Bíblos, antiqüíssimas, onde parávamos, imaginando em que condições viveria o ser humano naqueles velhos tempos.
Como me agradava andar por aquelas bandas! Como fiquei emocionado ao ver o mar Morto e, mais longe, Eilat, com o deserto pelo mar adentro!
O deserto me fascinava, imenso, monumental. E, mais ainda, o homem do deserto, altivo, desprezando a civilização do Ocidente, feliz naquela imensidão de céu e areia em que vivia.
Por tudo isso revolta-me esta guerra odiosa que começou como se a vida não pudesse ser mais tranquila e feliz para todos -todos de mãos dadas, solidários, a viver melhor.
Para mim, é a história que se repete, sangrenta e inexorável. É a luta milenar do rico contra o pobre.
Olho a TV e surpreendo-me ao ver como o ser humano pode se degradar neste clima de brutalidade e covardia, que poderá se multiplicar.
Surpreendo-me ao ver como o ser humano pode se degradar, neste clima de
brutalidade e covardia que poderá se multiplicar
Escuto Osama bin Laden a dizer, tranqüilo, que o mundo se emocionou com o atentado em Nova York, mas não se emocionou quando milhares de pessoas morreram, quase a cada dia, no Iraque e na Palestina, também vítimas do terror. Quanto a Bush, prefiro não ouvi-lo -eu e todos que lutam pela paz e pela autodeterminação dos povos.
Hoje
é o Afeganistão. Amanhã será a Amazônia?
Oscar Niemeyer, 93, é arquiteto e um dos criadores de Brasília (DF). Tem obras edificadas nos EUA e em países como Israel, Líbano, Argélia, França, Itália, Alemanha e Portugal.