CLÓVIS ROSSI - ENVIADO ESPECIAL A DAVOS
O Fórum de Davos começou sob a sombra do desaquecimento da economia
norte-americana e terminou com as ONGs (organizações não-governamentais)
roubando a cena e consolidando seu papel como agentes político-sociais de
primeira grandeza.
O atestado de preeminência às ONGs foi passado, entre tantos outros, por
Claude Smadja, diretor-gerente do Fórum Econômico Mundial, entidade suíça
que organiza todos os anos um encontro de personalidades do governo, da
universidade e dos negócios que é tido como o conclave do capitalismo global.
Diz Smadja: "As demonstrações recentes em todas as partes do mundo
mostram que tomou papel central a questão do envolvimento da sociedade civil em
aspectos da governança, seja política, seja corporativa". Mas ele não
está sozinho no reconhecimento do papel relevante das ONGs (ou da sociedade
civil, a outra forma de referir-se a elas).
"Não se vê hoje uma única área em que não haja uma rede de ONGs
trabalhando nela", diz, por exemplo, Ann Florini, do Instituto Carnegie
para a Paz Internacional, respeitado centro de pesquisas dos Estados Unidos.
É natural nesse cenário que Michael Elliot, escritor e editor-chefe da publicação
eletrônica "e-countries", chegue a dizer que os anos 90 "foram a
década das ONGs". Completa: "Saíram da sombra para ocupar o centro
do palco no debate internacional".
Não são considerações de valor apenas acadêmico. O novo papel das ONGs tem
muito a ver com o desempenho de instituições essenciais à vida de cada um,
quais sejam governos, empresas, partidos e instituições internacionais.
"As ONGs não têm idéia de como os representantes dos governos estão
perplexos com o fato de que elas têm, conforme pesquisas, mais credibilidade
que os governos e as empresas", diz Philippe Petit, embaixador da França
junto aos organismos internacionais sediados em Genebra.
"Elas são as porta-vozes do mal-estar e das incertezas causadas pela
globalização e pela revolução na tecnologia da informação", avalia
Smadja, do Fórum de Davos.
Pela análise de Smadja, também um cientista político (Universidade de
Lausanne), as ONGs entram no vácuo de falências dos governos e das empresas.
"O mundo político está em completa desorganização por não ter ainda
achado seu novo papel no mundo globalizado. E as empresas são ou, ao menos, são
vistas como extremamente arrogantes", avalia o diretor-gerente do Fórum.
Emenda Walter Lewalter, o embaixador da Alemanha em Genebra: "Os partidos
políticos não existem no plano global, mas algumas decisões têm que ser
tomadas no plano global".
Empresas arrogantes
O fortalecimento das ONGs é reconhecido até por empresas que, até há pouco,
se negavam a dialogar com elas. É o caso da Monsanto, sempre envolvida em polêmicas
sobre os GMOs (organismos geneticamente modificados). Seu executivo-chefe,
Hendrik Verfaillie, conta que, até há oito meses, a política da companhia era
a de não escutar a sociedade civil. "Achávamos que ela é que deveria
ouvir nossos argumentos e calar-se."
Não funcionou, admite Verfaillie. Agora, a Monsanto "mudou o curso e
passou a dialogar com grande número de ONGs", diz.
Mas o diálogo não é fácil. Verfaillie, como a maioria dos empresários e
mesmo observadores neutros, divide as ONGs em duas categorias, que ele define
assim:
"Há as que buscam a controvérsia pela controvérsia e não estão
interessadas em soluções e há as que defendem causas muito boas, aliás, a
maioria".
O fortalecimento das ONGs não levou apenas ao diálogo. Fez nascer instintos
conspiratórios em certos meios empresariais.
Lori Wallach (Global Trade Watch, uma das mais ativas ONGs que lidam com comércio
internacional) conta que, três meses depois das espetaculares manifestações
promovidas pelas ONGs em Seattle, um grupo empresarial convocou uma reunião
para discutir meios de minar as organizações da sociedade civil.
As ONGs só ficaram sabendo da conspiração graças a uma outra característica
do vasto mundo de organizações da sociedade civil: é tão povoado, não raro
caótico, que uma das entidades convocadas pelos empresários era ONG, mas seu
nome parecia o de uma organização empresarial.
De toda forma, a tendência para o fortalecimento da sociedade civil é
comemorada com previsões apocalípticas para o caso de se dar o contrário.
Pierre Sané, secretário-geral da Anistia Internacional, lembra os 200 milhões
de mortos do século 20, "o mais sangrento da história", para dizer:
"Sem o fortalecimento da sociedade civil, o século 21 tem o potencial para
ser pior".