UM PASSO ADIANTE
Encontros de Porto Alegre e Davos mostram que há uma busca por alternativas ao neoliberalismo
ADRIANA WILNER, FLORÊNCIA COSTA E KÁTIA MELLO - Porto Alegre- (Istoé – 07.02.2001 – no. 1636 – pg. 30-34)
A roda da história girou. As 20 mil pessoas que estiveram em Porto Alegre de 25 a 30 de janeiro para participar do primeiro Fórum Social Mundial saíram com a impressão de que daqui para a frente o mundo não será mais o mesmo. Os protestos de Seattle, durante reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em novembro de 1999, sinalizaram o início da batalha contra a globalização neoliberal. Conseguiram interromper as negociações que seriam ali estabelecidas. Outras manifestações aconteceram em seguida. O Fórum de Porto Alegre rompeu a barreira dos protestos de rua. Pela primeira vez desde a queda do Muro de Berlim, quando o fim da história foi decretado, as vozes descontentes com as políticas de livre mercado deram um passo adiante e começaram a elaborar alternativas. “Não há soluções para três meses, três anos, dez anos. Talvez leve um século, mas é necessário iniciar um movimento de solidariedade”, diagnosticou o economista egípcio Samir Amin.
A 11 mil quilômetros de Porto Alegre, na cidade suíça de Davos, onde ocorria simultaneamente o Fórum Econômico Mundial, empresários, banqueiros, representantes das principais instituições multilaterais e governantes desciam do pedestal. O marco dessa mudança foi o embate, via satélite, ao vivo ocorrido no domingo 28, entre os representantes do Fórum de Davos e do Fórum de Porto Alegre. A primeira imagem do megaespeculador George Soro, direto do estúdio nos Alpes Suíços, foi recebida com vaias e xingamentos pelos milhares de espectadores que lotavam o anfiteatro da PUC gaúcha. Era um sinal do que seria o debate. Soros serviu de saco de pancadas de inflamados debatedores de Porto Alegre. Claro que Soros não passaria um abaixo-assinado pedindo o fim da dívida externa em Davos, como sugeriu ironicamente Bernard Cassen, diretor-geral do jornal francês Le Monde Diplomatique. Mas foi a primeira vez que o Hemisfério Norte admitiu publicamente que a concentração de renda no mundo está se tornando abusiva. Os países ricos têm hoje uma fatia 74 vezes superior à dos mais pobres. Em 1960, essa relação era de 30 vezes.
O debate ecoou para o mundo. “Eu fiquei surpresa de quão nervosas estavam as pessoas, mas sei exatamente de onde vem essa raiva”, disse a ISTOÉ Njoki Njehu, uma das participantes da teleconferência, que representa a rede de ONGs 50 Years is Enough. “Alguns podem até pensar que somos um bando de radicais. Mas temos do nosso lado um número expressivo de pessoas que nos dão apoio.” Njehu e seus colegas acham que não dá para dialogar com os donos do poder. Do lado de cima, Soros deixou claro que também não pretende repetir a dose. “Meu masoquismo tem limites”, disse.
Apesar da abertura de espaço em Davos para as organizações não-governamentais (ONGs), a repressão foi violenta. Somente 500 manifestantes conseguiram chegar à cidade, lutando contra a polícia e os termômetros, que marcavam menos cinco graus. “Eles podem colocar mais barricadas, vamos continuar a ir em frente até que tenhamos respostas globais”, diz a canadense Diane Matte, da Marcha das Mulheres, que debateu na teleconferência. Foi divulgado o calendário das mobilizações para 2001. As próximas serão o encontro regional do Fórum Econômico Mundial, em fevereiro, nas praias mexicanas de Cancún, e as reuniões, em abril, para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em Buenos Aires e Quebec.
Palco dos movimentos — Os protagonistas do fórum de Porto Alegre foram ONGs e movimentos sociais. Partidos e políticos desta vez desempenharam papel coadjuvante. Não se incomodaram em consumir 1.500 latas de Coca-Cola a cada dia, símbolo do imperialismo americano. Mas criaram seus estereótipos do bem e do mal. Na abertura do fórum, as delegações de Cuba e da Coréia do Norte foram ovacionadas, enquanto predominou frieza na recepção aos americanos. “Temos que deixar de lado respostas fáceis, do tipo o mundo vai ser melhor se os EUA deixarem de ser um poder imperialista”, argumenta Mark Ritchie, convidado pelos organizadores do fórum, que comanda o Institute for Agriculture and Trade Policy, um dos principais focos de resistência à OMC em Seattle.
O verdadeiro tesouro estava escondido nas salas de aula da universidade, onde realizaram-se mais de 400 oficinas temáticas. Pelo lado pitoresco, a Associação de Ambientalistas da Amazônia promoveu uma intitulada “Combate à Poluição Sonora”. Centenas de documentos e propostas foram produzidos. Aos poucos, serão organizados e expostos na internet pela organização do Fórum Social Mundial.
O fio condutor do mosaico de idéias passa pela democratização dos organismos multilaterais que têm nas mãos as rédeas da economia mundial. A Organização Mundial do Çomércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird) são apontados como os vilões da era da globalização. Uma das saídas pregadas é a submissão de seus projetos à sociedade civil, através de plebiscitos. Há quem proponha a substituição destes organismos por instituições regionais. O cancelamento da dívida externa dos países pobres foi outra proposta cantada em coro. Não havia dúvidas sobre a necessidade de colocar coleira no sistema financeiro internacional, através da chamada taxa Tobin, que estabelece um imposto sobre o capital especulativo.
Proposta dos camponeses — Uma das tribos que mais chamaram a atenção foi a dos movimentos de pequenos agricultores e sem-terra de 70 países agrupados na Via Campesina, que tinha como estrela o francês José Bové. Identificados com seus bonés e lenços verdes, misturados aos de cor vermelha dos brasileiros que integram o MST, os integrantes da Via Campesina saíram de Porto Alegre com uma agenda de reivindicações: Vão se manifestar pela “globalização da reforma agrária” e declararão guerra aos polêmicos transgênicos. Pretendem que a OMC deixe de ser um organismo de regulação do comércio de produtos agrícolas. Decidiram ainda lutar para que as sementes sejam consideradas patrimônio da humanidade, impedindo, assim, que as empresas se apropriem delas através das patentes.
Autor do texto que foi lido no encerramento do Fórum Social Mundial, o escritor Luís Fernando Veríssimo fez um bom resumo dos cinco dias que abalaram Porto Alegre: “O que se falou foi ouvido no mundo inteiro. Se não foi entendido, não faz mal. A intenção era apenas mostrar que seres humanos não abdicam da sua função, que o retorno de capital ainda não é a medida de todas as coisas no mundo. E, afinal, este foi apenas o primeiro Fórum Social Mundial. Nos próximos, falaremos mais claro.”
CARA A CARA, PELA PRIMEIRA VEZ
Raiva, constrangimento e deboche. Esses foram os sentimentos que deram o tom do enfrentamento entre quatro participantes do Fórum Econômico Mundial, que acontecia em Davos (Suíça), e uma dezena de outros que participavam do Fórum Mundial Social em Porto Alegre. Numa inédita tentativa de debate, na teleconferência de 1h40, transmitida ao vivo pela televisão e pela internet, o megainvestidor George Soros, ícone do neoiiberalismo, chegou a ser chamado de “assassino” por Hebe Bonafini, presidente da associação argentina Mães da Praça de Maio. Os outros três representantes do fórum suíço, John Ruggie, consultor-chefe da ONU, Mark Malloch, consultor de projetos de desenvolvimento do mesmo órgão, e o empresário suíço Bjorg Edlud também não esconderam o incômodo com as farpas, inflamadas por vaias e aplausos de milhares de telespectadores de Porto Alegre. A seguir alguns trechos do debate:
“Soros, sabe quantas crianças os senhores matam por dia com suas políticas assassinas? A culpa é de vocês que são a morte para os pobres. Odiamos vocês” - Hebe Bonafini, Mães da Praça de Maio.
“Como disse Mao (Tsé-tung), uma grande marcha começa com um pequeno passo” - Mark Malloch, consultor da ONU.
“O sr. nunca notou que há pobreza. Precisa colocar os óculos e voltar à Terra. Temos propostas como a taxa Tobin (sobre o capital especulativo) e a moratória da dívida do Terceiro Mundo” - Bernard Cassen, diretor do jornal Le Monde Diplomatique.
“Vocês podem se surpreender, mas sou a favor da taxa Tobin, que não contraria meus interesses como especulador” - George Soros.
“Hoje, 845 milhões de pessoas passam fome, tudo é privatizado e o estado é indiferente ao social. Vocês dizem que tudo é resolvido pelo mercado. É trágico. As Nações Unidas deveriam estar aqui e não em Davos” — Raphael Alegria, líder hondurenho do Movimento Via Campesina.
“Estou vendo aqui um nacionalismo misturado com noções absurdas de economia. Em primeiro lugar, precisamos criar riqueza para depois distribuir” - Bjorg Edlud, empresário suíço.