Folha de São Paulo, 26.09.2001
Paz como equilíbrio do movimento
LEONARDO BOFF
O terrorismo que atingiu os ícones do
sistema imperante no mundo e nos EUA provocou, ao lado da indignação, uma
busca insaciável por paz. Entre muitas definições, privilegiamos uma, por
ser extremamente sugestiva: a paz como equilíbrio do movimento.
Tudo é
movimento. A fecundidade dessa definição reside no fato de que se ajusta à
lógica do universo e de todos os processos orgânicos. Tudo no universo é
movimento, nada é estático e feito de uma vez por todas. Viemos de uma
primeira grande instabilidade e de um incomensurável caos. Tudo
explodiu.
Começou o movimento, que ainda não terminou. Ao expandir-se,
o universo vai pondo ordem no caos. Por isso esse caos é criativo e
generativo. A ordem surge pelo jogo de relações que todas as coisas têm.
Tudo tem a ver com tudo, em todos os momentos e em todas as
circunstâncias. Essa afirmação constitui a tese básica da cosmologia
contemporânea, da física quântica e da biologia genética e
molecular.
Por causa das relações de tudo com tudo, o universo não deve
mais ser entendido como o conjunto de todos os seres existentes e por
existir, mas como o jogo total, articulado e dinâmico de todas as relações
que sustentam os seres, mantendo-os unidos e interdependentes. A vida, as
sociedades humanas e as biografias das pessoas se caracterizam pelo
movimento. A vida nasceu do movimento da matéria que se organizou; a
matéria nunca é "material", mas um jogo altamente interativo de energias e
de dinamismos que permitem que surjam os mais diferentes seres.
Não sem
razão, asseveram eminentes biólogos que, quando a matéria alcança
determinado nível de auto-organização, em qualquer parte do universo,
emerge a vida como imperativo cósmico, fruto do movimento de relações de
todo o cosmos. As coisas se mantêm em movimento, por isso evoluem; elas
ainda não acabaram de nascer. Estão em processo de gênese: cosmogênese,
biogênese, antropogênese, budogênese e cristogênese. O ser humano passa
por sucessivos processos de transformação, mediante os quais constrói sua
identidade e plasma seu destino.
Tudo busca seu equilíbrio. Mas o caos
jamais teria chegado a cosmos e a desordem primordial jamais teria se
transformado em ordem aberta se não houvesse o equilíbrio. Este é tão
importante quanto o movimento. Movimento desordenado é destrutivo e
produtor de entropia. Movimento com equilíbrio produz sintropia e faz
emergir o universo como cosmos, vale dizer, como integridade, ordem e
beleza.
Que significa equilíbrio? Equilíbrio é a justa medida entre o
mais e o menos. É o ótimo relativo. Possui equilíbrio o movimento que se
realiza dentro da justa medida e não é excessivo ou insuficiente. A paz é
esse ponto de equilíbrio sutil e sempre em construção.
Se assim é,
importa, então, sabermos o que significa a justa medida, sustentáculo da
paz. A justa medida é a capacidade de usar potencialidades naturais,
sociais e pessoais de tal forma que elas possam durar o mais possível e
possam, sem perda, se reproduzir. Esse propósito é alcançado quando se
estabelece moderação e equilíbrio. A justa medida pressupõe realismo, quer
dizer, aceitação humilde dos limites e aproveitamento inteligente das
possibilidades e oportunidades. Esse equilíbrio garante a sustentabilidade
de todos os fenômenos e dos processos, da Terra, das sociedades e da vida
das pessoas.
O universo surgiu por causa de um equilíbrio sutil. Após a
grande explosão originária, se a força de expansão fosse fraca demais, o
universo colapsaria sobre si mesmo. Se fosse forte demais, a matéria
cósmica não conseguiria adensar-se e formar galáxias, estrelas, sistemas
planetários e seres singulares. Se não tivesse funcionado esse
refinadíssimo equilíbrio, nós não estaríamos aqui.
A concorrência na economia e no mercado esmaga a cooperação necessária para que todos os seres possam viver
Há paz no universo e as estrelas não caem sobre
nossas cabeças porque há equilíbrio do movimento.
Como alcançar o
equilíbrio do movimento? Eis uma questão extremamente complexa. A própria
natureza do equilíbrio demanda uma arte combinatória de muitos fatores e
de muitas dimensões, buscando a justa medida entre todas elas. Pretender
derivar o equilíbrio de uma única instância é situar-se numa posição de
desequilíbrio.
Por isso não basta a razão crítica, não é suficiente a
razão simbólica, presente nas religiões e nas artes, nem a razão
emocional, subjacente ao mundo dos valores, nem o recurso da tradição, do
bom senso e da sabedoria dos povos.
Todas essas instâncias são
importantes, mas nenhuma delas é suficiente por si só para garantir o
equilíbrio. Este exige articulação de todas as dimensões e de todas as
forças. O equilíbrio evoca a sabedoria, que é exatamente o saber da medida
justa, da ponderação dos prós e dos contras, saber que tem sabor porque
colhe o melhor de cada coisa e de cada situação, numa atitude equidistante
da carência e da abundância. A sabedoria representa a habilidade de somar
positivamente todos os fatores que favorecem a vida e sua expansão.
A
partir dessas idéias, temos condições de apreciar a excelência da
compreensão da paz como equilíbrio do movimento. Se houvesse somente
movimento sem equilíbrio, movimento desordenado, em qualquer direção,
imperaria o caos e teríamos perdido a paz. Se houvesse apenas equilíbrio
sem movimento, reinaria a estagnação e nada evoluiria. Seria a paz dos
túmulos.
A manutenção sábia dos dois pólos faz emergir a paz
dinâmica.
A crise atual: muito movimento, pouco equilíbrio.
Consideradas sob a ótica da paz como equilíbrio do movimento, as
sociedades atuais são profundamente destruidoras das condições da paz.
Vivemos dilacerados por radicalismos, unilateralismos, fundamentalismos e
polarizações insensatas em quase todos os campos. Elas ganharam corpo nos
aviões-bomba, destruindo os símbolos do poder econômico e do poder
militar, ambos altamente desestabilizadores de equilíbrio mundial.
A
concorrência na economia e no mercado, feita princípio supremo, esmaga a
cooperação necessária para que todos os seres possam viver e continuar a
evoluir. O pensamento único neoliberal destrói a diversidade cultural e
espiritual dos povos. A imposição de uma única forma de produção, com a
utilização de um único tipo de tecnologia e de um único modelo de
administração, maximizando os lucros, encurtando o tempo e minimizando os
investimentos, devasta os ecossistemas e coloca sob risco o sistema vivo
de Gaia, a Terra.
As relações profundamente desiguais entre ricos e
pobres e entre religiões, umas considerando-se mais divinas que as outras,
reforçam a arrogância, incrementam ressentimentos e aprofundam conflitos
religiosos. Eis a dilaceração da paz, eis as bases do terrorismo.
Todos
esses antifenômenos são manifestações da destruição do equilíbrio do
movimento e, por isso, da paz. Só fazendo funcionar uma nova aliança entre
todos e com a natureza, inspirada na "paz-equilíbrio-do-movimento" como
método e meta, conseguiremos sociedades sem barbárie, onde a vida poderá
florescer e os seres humanos poderão viver no cuidado de uns para com os
outros, irradiando justiça e celebrando a paz perpétua, desde sempre
buscada.
Leonardo Boff, 62, teólogo e escritor, é autor de, entre outros livros, "Tempo de Transcendência" e "Princípio de Compaixão e Cuidado".