Zero Hora - Porto Alegre, 24 de janeiro de 2003. Edição nº 13671
Verhofstadt e Rafael
MOISÉS MENDES
Quem
estiver enfarado de tanta opinião sobre a ida de Lula a Davos pode pular este
texto. Rafael Lemos dos Santos, 18 anos, pede a palavra para discordar de
cientistas, políticos ou simples palpiteiros. Ele tem a seguinte opinião:
-
Lula deve ir lá para dizer aos ricos que vai ajudar os meninos de rua do Brasil.
Rafael, menino de rua de Porto Alegre, é colega de Fórum de Noam Chomsky,
Bernard Cassen, Emir Sader, Cândido Grzybowski e de todas as outras sumidades
envolvidas na controvérsia da viagem de Lula. Ontem, depois da abertura oficial,
ele e 10 adolescentes se reuniram na saída da PUC para contar moedas. Queriam
pegar um ônibus e seguir adiante, até o Centro, de onde sairia a caminhada até o
anfiteatro. É dura a vida de um participante do FSM, onde a utopia do guri
converge com o apelo pela paz de iraquianos, americanos, israelenses,
palestinos.
Ongs
internacionais, ministros, intelectuais que só existiam até agora nos livros que
circulam pela província sobem e descem as escadarias da PUC ao lado dos Rafaéis
e seus parceiros do Movimento Nacional de Meninos de Rua (MNMR). O sonho
grandioso do cientista Chomsky, que vislumbra um recuo de Bush na decisão de
atacar o Iraque, convive com o sonho miúdo dos habitantes das rua. Se forem
lembrados em Davos, já está bom.
Não
existe nada parecido ou com o porte do FSM no mundo hoje. Chomsky e Rafael têm
seus espaços garantidos no Fórum, um nas grandes conferências, o outro, numa das
1,7 mil oficinas, e ali oferecem o que têm a dar. O FSM é amplo e acolhedor, mas
rejeita os metidos a bacana. O secretário-executivo da Comissão de Justiça e Paz
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Francisco Whitaker,
lembrava ontem que no ano passado o primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt,
mandou dizer de Bruxelas que iria a Davos e depois viria a Porto Alegre.
O belga pediu vaga numa conferência, chegou a sugerir data e horário. Mandaram dizer que não viesse, não só por ser um neoliberal, mas pela prepotência de se achar tão importante a ponto de se autoconvidar e agendar a fala. No FSM de 100 mil participantes de 126 países e 5,5 mil ONGS, um vistoso Verhofstadt vale menos que um Rafael catando moedas.