RICARDO GRINBAUM - ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE
Participantes do Fórum Social Mundial e do Fórum Econômico Mundial se
confrontaram ontem num debate realizado via satélite, no sistema de teleconferência.
Nas palavras de alguns dos participantes do encontro, o que ocorreu foi um
"diálogo de surdos".
O evento foi considerado um marco histórico por ser a primeira vez em que
participantes do encontro de Davos, onde se reúne a elite mundial de empresas,
burocracias e universidades, enfrentaram representantes de movimentos sociais críticos
da globalização, em Porto Alegre.
O encontro foi marcado por denúncias, acusações e ironias por parte dos nove
líderes de ONGs e movimentos sociais que participaram do debate. Os quatro
participantes de Davos tentaram contemporizar e colocar "panos
quentes" no debate.
"O senhor Soros (o investidor George Soros) é um hipócrita. Quantos crianças
vocês matam por dia? O senhor não tem coragem de olhar nos meus olhos!",
gritou Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Maio. "Estou
tentando ter um diálogo com você, mas parece que você não quer",
respondeu o investidor.
Soros, John Ruggie (ONU), e Georg Kell (Global Compact - programa social de
empresas) e o economista Jeffrey Sachs participaram por Davos, mas disseram não
representar o Fórum.
Do anti-Davos, falaram Oded Grajew (Instituto Ethos), Bernard Cassen (Le Monde
Diplomatique), Diane Mytle (Marcha Mundial pelas Mulheres), Fred Azcarate
(Trabalho com Justiça), Njoki Njehu (50 Years is Enough), Walden Bello
(economista filipino), Raphael Alegria (movimento camponês de Honduras),
Aminata Traole (do Mali) e Hebe de Bonafini (Mães da Praça de Maio).
No Fórum gaúcho, repetia-se em geral a palavra "raiva" e se acusavam
as multinacionais e instituições como FMI, Banco Mundial e OMC, de imporem
modelos econômicos que privilegiam as nações ricas e aumentam a miséria nos
países pobres.
"Queremos que vocês façam um abaixo-assinado com três pontos",
disse Bernard Cassen, da publicação de esquerda "Le Monde Diplomatique".
"Vamos ver quantos participantes de Davos assinam um documento pela anulação
da dívida externa dos países pobres, pela criação da Taxa Tobin (tributo
sobre investimentos financeiros internacionais) e pelo fim dos paraísos fiscais
que o sr. Soros conhece bem."
Soros e o representante da ONU foram os principais alvos das críticas.
Procuraram não revidar. Falavam em estreitar o diálogo com os críticos da
globalização. "Entendo a raiva", disse Soros.
Walden Bello, um dos principais intelectuais ligados a protestos contra o
capitalismo global, bateu boca com o representante da ONU. Bello acusou a ONU de
ter se "prostituído" ao participar do debate do lado de Davos.
"Não somos campeões do capitalismo", reagiu Ruggie, da ONU. Segundo
Ruggie, Bello caía em contradição. No ano anterior, Bello fora a Davos.
O debate terminou com um tom de frustração. Representantes de Davos bateram na
tecla que gostariam de deixar a raiva de lado para debater temas concretos.
"Queria estar em Porto Alegre agora", disse Soros. De Porto Alegre,
Cassen indicou a disposição dos debatedores: "Vamos usar nossos métodos,
dentro da democracia, para que pensem melhor sobre o abaixo-assinado".