ZH de 25/01/2003

Um Fórum acusatório

Paulo Sant'ana

O que impressiona nestas 100 mil pessoas que tomam de assalto Porto Alegre para o Fórum Social Mundial é que elas não se acomodaram.
Elas vieram aqui dizer que não concordam com o rumo econômico e social que deram ao mundo.
Estas 100 mil pessoas, falando por si ou por seus circunstantes, não se paralisaram, indefesas, como tantas outras em número maior do que o delas, por impossibilidade ou omissão, à espera de se tornarem vítimas fatais da desigualdade que impera em todos os quadrantes.

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O que impressiona nestas 100 mil pessoas é que elas estão vivas, que lhes resta ainda entusiasmo para protestar, que ainda têm força para dizer ao mundo que algo precisa ser feito para mudar este estado de coisas que privilegia alguns e amassa os outros.
O que impressiona nesta multidão pintada com todas as tintas da diversidade racial e geográfica é o seu inconformismo, a sua insatisfação com o destino que lhes foi traçado ou foi imposto a seus semelhantes. 

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E o que mais impressiona é que da marcha que reuniu anteontem todas as tendências e todas as origens, assim como de outros vários encontros no Fórum, ecoou um grito desesperado em favor da paz, quando o mundo vê anunciada com perigosa antecedência a declaração de guerra no Oriente Médio.
Paz é o que querem os participantes do Fórum Social Mundial.
E além da paz, eles pedem por igualdade, não a igualdade que nivela os homens em seus bens patrimoniais, mas a igualdade de oportunidade para os cidadãos e os povos e para as nações.
Eles pregam pela igualdade que admite as diferenças, mas propugna aos menos afortunados condições dignas de sobrevivência.
Elas clamam por uma vida decente para os menos favorecidos, uma vida pelo menos esperançosa, uma vida de chances, uma vida com horizontes, sem submissão e sem odiosas hegemonias que oprimem pela força. 

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A mensagem que emana deste Fórum é de ânsia de vida e de solidariedade. É também contra os efeitos nefastos da guerra anunciada para fevereiro entre EUA e Iraque, cujos presságios já deixam aqui mesmo no Brasil, nos últimos cinco dias, rastros de mais pobreza e desemprego, pela alta sinistra do dólar, que antecederá tristemente a uma maior desolação social e econômica, assim que rufarem com maior determinação os tambores de guerra.
Estes 100 mil protagonistas do Fórum têm o mérito de não permanecerem de braços cruzados, aqui e de todas as partes de onde puderam vir até aqui, diante das ameaças que possam a eles e a tantos bilhões de seres humanos soçobrá-los, mergulhando-os cada vez mais na opressão social ou nas outras conseqüências pérfidas dos embates bélicos programados, tão facilmente evitáveis pelos homens bons e lúcidos quanto inexoravelmente fatais para os poderosos e iníquos.
O que impressiona neste Fórum é que ele aviva a consciência mundial para a insanidade dos que se arremessam cada vez mais para o acúmulo de riquezas de uns e de pobreza dos outros.
E o que mais impressiona neste Fórum é que ele é um alerta impávido de que a humanidade deseja profundamente a paz, que se for maculada pela guerra o será pelo impulso louco de uns poucos, que não têm mandato legítimo para arrastar os povos para a dor e a destruição.
Este Fórum, assim tão alegre e descontraído em algumas das suas manifestações, ergue no entanto um dedo grave e acusatório para a injustiça reinante no mundo.
Podem continuar todos os desmandos dos homens. Mas pelo menos existiu este Fórum para execrá-los.

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