Zero Hora de 16 de fevereiro de 2003.        Edição nº 13694

Guerra condenada

SÉRGIO DA COSTA FRANCO/ Historiador

Apesar de parecer arrogante pretensão o opinarmos sobre uma questão de relevância universal, estamos pedindo amparo a Fernando Pessoa, quando escreveu através de seu heterônimo Alberto Caeiro: "Da minha aldeia vejo quanto da Terra se pode ver no Universo".
 

Quando os fatos da cena mundial são gritantes e conclusivos, até um micro-historiador de província sente-se autorizado a opinar sobre eles. E tão pobres e destituídos de verdade se apresentam os argumentos de George W. Bush e de Tony Blair, atores principais da provocação belicista, que nos aventuramos a interpretar o sentimento generalizado das pessoas não seduzidas pelo discurso provocador.
 

O diálogo entre norte-americanos e iraquianos vem seguindo o "script" da famosa fábula do lobo e do cordeiro. Intimidado pelas ameaças do lobo, o cordeiro tem apresentado razões irretorquíveis em sua defesa, porém o lobo invariavelmente volta à carga para não esfriar a tensão do conflito e justificar novos atropelos ao indefeso cordeiro.
 

A própria acusação de que o Iraque possui um arsenal de armas de destruição em massa soa bastante equívoca, quando se sabe que tais armas só puderam achar-se ao alcance dos cientistas e das forças armadas iraquianas em razão do auxílio e da assistência norte-americana, em tempo de relações amistosas. Entretanto, o ditador Saddam Hussein, que nega a acusação, abriu as fronteiras de seu país à fiscalização internacional, permitiu que os inspetores da ONU vasculhassem até os seus palácios e agora autorizou o vôo de aviões-espiões, para comprovar que não existem bases dissimuladas de foguetes balísticos ou instalações clandestinas de armas químicas no território iraquiano.
 

Essa nefanda guerra
tenderá a agravar
os problemas econômicos
de todo o orbe

 

Ainda assim, no momento em que escrevemos, há quem aposte no início de hostilidades dentro dos próximos dias, pois Bush alega que o jogo terminou e que sua paciência está esgotada. Tudo com a postura de um imperador irritadiço.
 

A argumentação do secretário de Estado Colin Powell perante o Conselho de Segurança pareceu temerária como a acusação de um promotor inexperiente. O discurso de Blair na Câmara dos Comuns foi desmascarado como plágio de ultrapassada tese universitária. Mesmo assim a ameaça belicista continua viva.
 

E, afinal de contas, por quê? Pelo voluntarismo de um medíocre chefe de Estado, estimulado pelos condicionamentos da geopolítica. Porque o centro da Ásia é riquíssimo em petróleo. Porque a desintegração da URSS tornou as repúblicas centro-asiáticas acessíveis ao investimento ocidental. Porque o Iraque pode ser eventual obstáculo ao expansionismo israelense de Ariel Sharon. Porque os fundamentalismos excitados podem desencadear toda a espécie de desvarios.
 

E o mais triste de tudo é verificarmos que essa nefanda guerra, desde logo condenada por seu caráter precipitado e injusto, tenderá a agravar os problemas econômicos de todo o orbe, inclusive do Brasil.

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