Zero Hora de 09/02/2003

Cuba: a controvérsia

Há pobreza, sim. Muita pobreza. Mas, em primeiro lugar, não é pobreza abjeta, com gente buscando comida no lixo das cidades

 

Atingiu a Revolução Cubana os seus ideais? A julgar por três indicadores clássicos, sim. A mortalidade infantil é notavelmente baixa, a expectativa de vida é notavelmente alta, o nível educacional é notavelmente elevado. Os casos de Aids são muito poucos, o problema das drogas é pequeno. Há pouca violência - andar na rua é seguro - não há desemprego: a economia sendo estatizada, o governo proporciona emprego a todo mundo. O salário pode ser baixo, a atividade pode ser apenas formal, a eficiência pode ser baixa - mas, de qualquer modo, não é desemprego, coisa que compromete decisivamente a dignidade da pessoa.

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Há pobreza, sim. Muita pobreza. Mas, em primeiro lugar, não é pobreza abjeta, com gente buscando comida no lixo. Em muitos países da América Latina fala-se na necessidade de uma melhor distribuição de riqueza. Em Cuba, como não há riqueza, o que se conseguiu foi distribuir melhor - mais democraticamente - a pobreza. Nas cidades brasileiras, há bairros ricos (não raro muito ricos) e pobres (não raro muito pobres). Em Cuba, a pobreza mora nos deteriorados palacetes que um dia foram de milionários e que depois, sob a forma de cortiços, passaram a abrigar muitas famílias. Existe desigualdade? Provavelmente sim, mas não se expressa em termos de propriedade. Os "mais iguais" de Orwell talvez tenham mais privilégios e mordomias, mas não terão a posse dos meios de produção de que falava Marx. 

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O que nos remete a um outro fenômeno: a longevidade do regime cubano. São 44 anos, o que não é pouco. E, sobretudo, 44 anos com o mesmo mandatário, o que era de esperar num regime de partido único, no qual as eleições têm um resultado absolutamente previsível. Aliás, quando lá estive estava em curso um processo eleitoral, inimaginável no Brasil: nenhuma faixa de propaganda nas ruas, nenhum santinho, nenhum horário eleitoral partidário. Em alguns lugares estavam afixados os currículos dos candidatos, e isso era tudo. "Aqui não gastamos dinheiro em publicidade eleitoral", disse Fidel.
 

Freqüentemente chamado de ditador na imprensa mundial, Fidel Castro não é, contudo, um déspota. Não, pelo menos, no sentido comum do termo. Trata-se, em primeiro lugar, de alguém que chegou ao poder lutando contra um regime opressivo e que foi recebido pela população como um libertador. Hoje as memórias da revolução cubana podem parecer coisa do passado, mas o envelhecido Fidel Castro continua um líder carismático, uma figura paternal. Basta vê-lo na tevê, como aconteceu na noite do dia 18 de janeiro. Era um programa sobre as eleições do domingo seguinte. Surpreendentemente, Fidel não foi o primeiro a falar; duas outras pessoas lhe precederam. Mas então tomou a palavra e aí falou. E falou. E falou. É uma característica sua: fala como se tivesse todo o tempo do mundo (pelo menos daquela parte do mundo que governa) a sua disposição. É verdade que a certa altura consultou o relógio (um modelo barato) e comentou, não sem humor: "Sempre calculo mal o tempo". Nem por isso parou de falar. Mas, falando, ele não é um caudilho demagógico, não é um líder fanático. Parece, antes, um velho professor dirigindo-se à classe ou um patriarca falando ao clã; gesticula muito, faz comentários engraçados. Detalhe: usa números. Uma quantidade assombrosa de números - parece ter na cabeça todas as cifras que se referem a Cuba, quer se trate de economia, saúde, ou educação. Nesse programas, anotou também dados fornecidos pelos outros participantes, que não deixou de comentar. É uma energia inesgotável, em se tratando de um homem velho (que fica, inclusive, ofegante). De outra parte, o culto à personalidade é muito menor, e muito menos grotesco, do que na União Soviética de Stalin, na China de Mao ou no Iraque de Saddam Hussein. Os letreiros patrióticos também são raros (e são as únicas peças de publicidade). A figura mais presente - em cartazes, nas camisetas, em pôsteres - é, por razões óbvias, a de Guevara. Presente ao Fórum Social Mundial, Aleida Guevara, filha do Che (e, significativamente, médica) queixou-se da comercialização da figura de seu pai. Queixa justificada e provavelmente inútil. O mercado tem a habilidade de se apossar até da figura de seus potenciais inimigos.
 

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