Zero Hora de 01/02/2003
Nas
discussões sobre Cuba - e se discute muito sobre Cuba - as pessoas se dividirão
em dois grupos. Um grupo reclamará contra a falta de democracia: o partido
único, a imprensa controlada, a doutrinação da população. O outro grupo revidará
falando sobre as melhorias sociais ocorridas no país após a Revolução cubana. E
aí o sistema de saúde inevitavelmente será mencionado. Com grandes elogios, que
têm apoio nos indicadores de saúde. Cuba tem uma mortalidade infantil de 6,5 por
mil (de cada mil crianças nascidas vivas, 6,5 morrem antes de completar um ano);
no Brasil esta cifra é de 29 por mil. A expectativa de vida é de 76 anos; no
Brasil é de 68,7. A percentagem de crianças vacinadas é muito alta, a dengue foi
controlada mediante uma maciça campanha, a Aids tem cifras relativamente baixas.
Estamos falando de um país pobre, que tem de importar quase tudo. A pergunta que
se impõe é: como Cuba conseguiu estes êxitos?
Duas
razões. Em primeiro lugar, existe pobreza, mas não miséria. Ninguém passa fome,
todos têm casa, mesmo precária, todos são alfabetizados. Depois, há um sistema
de saúde voltado para as necessidades básicas da população. Em Cienfuegos, fui
visitar a clínica de medicina de família. Não foi um encontro previamente
agendado por funcionários governamentais; tratava-se, simplesmente, do lugar que
estava mais próximo ao hotel. A clínica funciona numa casa modesta, com dois
pisos. No de cima, trabalha a enfermeira; existe ali uma cama para os plantões -
essas clínicas, e seu pessoal, funcionam 24 horas por dia. Embaixo, era o exíguo
consultório do médico, um jovem recém-formado que cuida de 400 pessoas nas
redondezas. Pelo tom fervoroso com que me falou de seu trabalho (mencionando
várias vezes as diretrizes do Comandante, ou seja, Fidel Castro) vi que se
tratava de alguém engajado. Isso, entre parênteses, não é raro entre aqueles que
se dedicam à saúde pública e à medicina comunitária. Mencionou com muito orgulho
os indicadores de saúde e falou-me com algum detalhe sobre sua atividade: de
manhã, consultas (para as quais não havia qualquer fila), à tarde, visitas
domiciliares. À noite e nos fins de semana, fica de sobreaviso. Para casos mais
complicados, recorre a uma policlínica das redondezas ou ao hospital. Fui com
ele à policlínica que, como parece ser a regra, funciona num prédio muito
dilapidado. Ali trabalham numerosos profissionais de saúde. A diretora foi me
levando de seção em seção; por fim chegamos à sala da medicina alternativa.
Fiquei sabendo que usam acupuntura e também florais e pirâmides. Pirâmides, sim;
a doutora garantiu que o campo magnético criado por essas estruturas é muito bom
para tratar enxaqueca. Fiquei me perguntando se realmente acreditam nisso ou se
são obrigados a recorrer a tais métodos - não reconhecidos pela medicina
científica - por falta de recursos convencionais ou pelo desejo de agradar à
população.
Dúvidas à parte, o certo é que o sistema de saúde em Cuba tem hoje fama mundial. O governo instituiu uma espécie de turismo de saúde, destinado a pessoas que vêm ao país para se tratar. Há clínicas destinadas a este fim - mais sofisticadas do que os ambulatórios de medicina de família, mas cobrando em dólar. Em Cienfuegos, uma clínica dessas funciona exatamente ao lado da unidade de saúde. O contraste é grande, mas dizem que os cubanos estão conscientes da desigualdade e aceitam-na como uma forma de melhorar a situação econômica do país. O modelo de saúde de Cuba não é nenhuma fórmula mágica. É, sim, uma coisa muito simples e muito racional. Que tenha sido necessário uma revolução para mudar as coisas mostra os absurdos a que, às vezes, chega o nosso mundo.